FlinkSampa exalta a liberdade negra

Quinta edição do festival literário ocorrerá em novembro na Capital, com homenagens ao escritor Paulo Lins e à cantora Zezé Motta

19/09/2017 - 10:26 - Atualizado em 19/09/2017 - 11:32

A cantora Zezé Motta será uma das homenageadas da FlinkSampa (Foto: Claudio Vitor Vaz/AT)


Literatura não tem cor, credo ou gênero. Tem quem a faz. Mas enquanto existirem iniciativas que celebram apenas escritores brancos e do sexo masculino, haverá reações da sociedade procurando revelar a diversidade da produção literária contemporânea.

Foi assim com a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Em resposta à manifestação de diversos grupos em cartas abertas e redes sociais, a 15ª edição, este ano, homenageou um autor negro, Lima Barreto (1881-1922), e convidou autores negros e mulheres para a programação oficial. 

“Quem sabe voltem a homenagear um autor negro daqui a 100 anos”, ironizou a presidente da FlinkSampa e do Troféu Raça Negra, Francisca Rodrigues, em entrevista para A Tribuna, no lançamento da 5ª edição da FlinkSampa – Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra, no último dia 12, no novo Teatro do Sesc 24 de Maio, em São Paulo.

Sob o lema Eu Quero Liberdade, a 5ª FlinkSampa acontecerá de 16 a 18 de novembro, na Faculdade Zumbi dos Palmares – depois de quatro anos sediada no Memorial da América Latina. Veja a programação no site da Flink.

A atriz e cantora Zezé Motta e o escritor e roteirista Paulo Lins são os homenageados desta edição. Ambos participaram do lançamento da mostra à imprensa, que teve Adriana Couto (do programa Metrópolis, na TV Cultura) como mestre de cerimônia.

Zezé preferiu cantar em vez de falar, e escolheu a música Minha Missão, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, que ofereceu aos organizadores, parceiros e patrocinadores do evento, “porque estão cumprindo com dignidade a sua missão aqui no planeta Terra”. 

Então ela soltou o vozeirão para cantar os versos “Canto porque numa melodia/Acendo no coração do povo/A esperança de um mundo novo/E a luta para se viver em paz!”, que encontraram eco no discurso de Paulo Lins, que ressaltou que a missão da FlinkSampa é a luta pela paz racial.

Onde habitam os deuses
No palco do teatro do Sesc 24 de Maio, Lins pediu um minuto de silêncio pelo cantor e compositor Luiz Melodia, que morreu no dia 4 de agosto, aos 66 anos. “A primeira vez que vi Zezé Motta cantar foi ao lado de Melodia”, lembrou ele.

Autor de um dos livros nacionais mais traduzidos no mundo, Cidade de Deus, que resultou no filme homônimo, indicado ao Oscar, Lins participará de toda a programação da FlinkSampa.

Durante o lançamento, ele destacou que as guerras que têm no mundo, hoje, ainda são as mesmas de séculos atrás. “A última vez que José Saramago esteve no Brasil, ele lembrou que evoluímos tecnologicamente, mas não espiritualmente. A gente ainda se mata por causa da nossa cor ou porque seu deus é diferente do meu”.

O escritor também ressaltou que a cultura é o que nos difere dos outros animais. “A cultura é a base da ciência e é onde habitam nossos deuses, nossa fala, nossa voz, nosso canto, nossa vida. Quando a gente deixa de fazer cultura, você perde a sua humanidade”. 

E continuou: “Em nossa vida, tudo é substituível, mas na cultura não. Lima Barreto não substituiu Machado de Assis, nem Guimarães Rosa substituiu Machado de Assis. Por isso estamos aqui, para celebrar a perenidade da nossa cultura e lutar por igualdade”.

Também compareceram à cerimônia de lançamento da 5ª FlinkSampa o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente; o vice-residente da FlinkSampa, Uelinton Farias; a curadora da programação literária Guiomar De Grammont, entre outros. A Flink também reserva programação especial para as crianças (Flinkinha) e um espaço de empreendedorismo negro. 

Negros de todas as cores
Zezé Motta receberá o troféu Raça Negra, na Sala São Paulo, em evento realizado pela ONG Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sociocultural (Afrobras), que também responde pela FlinkSampa. 

O troféu já foi entregue para grandes personalidades, como Elza Soares, Martinho da Vila e Milton Nascimento. Alguns, em homenagens póstumas, como Michael Jackson, Wilson Simonal e Cartola. 

Para a presidente da Flink, Francisca Rodrigues, o evento é um festival literário feito por negros, em sua maioria, mas que celebra “negros de todas as cores”. “É uma festa gratuita, em que os autores negros falam sobre personagens negros, mas também há autores de outras raças que tratam da cultura negra. Serve para mostrar que temos escritores reconhecidos internacionalmente”, declara.

Ela ainda considera a Flink uma iniciativa pequenina para o Brasil. “Espero que outras cidades copiem a gente, pois nascemos como uma dissidência da Flip, que nunca tratava de autores negros. Somente este ano homenagearam Lima Barreto e levaram a Conceição Evaristo para a programação, sendo que ela está com a gente desde a primeira edição, em 2013”.

Francisca brinca que a Flink foi idealizada por um “bando de doido” da Afrobras e da Faculdade Zumbi dos Palmares, e que, em cinco edições, se tornou um evento internacional, com autores disputando espaço, querendo vir. “Principalmente da América Latina. Queremos trazer cada vez mais escritores, mas, para isso, precisamos de mais investimento. A crise no Brasil não nos permite ousarmos mais”.

A Faculdade Zumbi dos Palmares fica na Av. Santos Dumont, 843, Armênia, em São Paulo. Telefone: (11) 3325-1000.

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