Espetáculo cênico-musical celebra Ariano Suassuna

O escritor, dramaturgo e brasilianista paraibano radicado em Pernambuco completaria 90 anos

18/10/2017 - 11:40 - Atualizado em 19/10/2017 - 09:13

Trupe que integra a montagem que tem muita música ao vivo e dança (Foto: Divulgação)

Ariano Suassuna completaria 90 anos em 2017, data que não passou em branco. "Suassuna – O Auto do Reino do Sol", montagem da Companhia Barca dos Corações Partidos, no Sesc Santos, faz uma homenagem ao famoso escritor paraibano. As apresentações são nesta quinta (19), às 21h, e sexta-feira (20), às 19h, com ingresso de R$ 6,00 a R$ 20,00. Rua Conselheiro Ribas, 136, Santos.

Traz uma série de características de seu homenageado, que defendeu incansavelmente a brasilidade e a valorização da cultura nacional, ao mesclar a arte popular e o universo erudito em todas as suas obras.

Idealizadora do tributo ao escritor paraibano, a produtora Andrea Alves, da Sarau Agência, lançou o desafio à Cia. Barca dos Corações Partidos e convidou três ilustres conterrâneos de Ariano para criar algo inédito, inspirado em seu legado e desenvolvido em um processo coletivo. 

Nasceu o musical, com canções de Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho, encenação de Luís Carlos Vasconcelos e texto de Bráulio Tavares. Em 2007, a Sarau Agência realizou programação para festejar os 80 anos de Ariano e, desde então, foi criado um vínculo do escritor com Andrea, responsável por todas as montagens da Barca dos Corações Partidos e por uma série de projetos que celebraram a arte brasileira nos últimos 25 anos. 

“Há algum tempo, Ariano me falou: ‘Não venha comemorar meus 85 anos, eu não vou morrer, quero que você festeje os 90!’. Naquele momento, me senti condecorada e com uma grande missão”, revela Andrea Alves

A ideia inicial surgiu em conversas de Andrea com Ariano, que se confessava um palhaço frustrado e que elegeu o palhaço de "O Auto da Compadecida" como um dos seus personagens prediletos. “Surgiu a ideia de uma grande homenagem ao palhaço de Ariano e pensei na reunião da Barca dos Corações Partidos com o que eu chamo de ‘trio paraibano’. Assim foi sendo criada esta peça inédita, com músicas e texto originais, mas totalmente inspirada no legado de Ariano”, resume.

“Além de ser um espetáculo que homenageia os 90 anos de Suassuna, quero falar do meu fascínio com essa trupe. Sempre trabalho com meus atores, com o meu grupo. Sempre tive receio de pegar um trabalho de outra cia., mas tudo se dissipou em nosso primeiro encontro. É fascinante observar as possibilidades que estes atores têm como músicos, cantores e palhaços”, diz Luís Carlos, fundador do grupo Piollin e diretor de peças como "Vau da Sarapalha".

O texto e as canções do musical foram produzidos ao longo dos ensaios, que começou em 2016, quando o elenco fez uma série de oficinas circenses e excursionou pelo Nordeste, no que foi chamado de Circuito Ariano Suassuna.

Guiados por Dantas Suassuna (filho), a trupe esteve em Casa Forte (Recife), conheceu a famosa Pedra do Ingá e visitou a fazenda de Taperoá (PB). Entre muitas palestras e oficinas, o grupo se preparou para o intenso processo criativo, em que se reuniram por oito horas diárias e só uma folga semanal.

Braulio Tavares idealizou a história central centrada em uma trupe de circo-teatro e nos acontecimentos de uma noite de apresentação. O picadeiro de um circo é o cenário perfeito para aparecerem personagens de Ariano, como João Grilo e Chicó ("O Auto da Compadecida") e outros conhecidos tipos da literatura clássica, além de servir como pano de fundo às histórias da cia. fictícia.

O projeto sempre quis falar de Ariano, mas sem ser biográfico ou adaptação das obras. “Quando entrei na história, estava decidido que teríamos a liberdade de subverter, de trazer o Ariano de outras formas. A criação foi impregnada dele, personagens e seu universo. É uma homenagem ao Ariano palhaço. O público é guiado por uma espécie de palhaço mestre de cerimônias, como era habitual em seu teatro”, diz o palhaço Luís Carlos Vasconcelos.

Os textos poéticos e as letras das músicas usam as formas tradicionais de poesia popular que foram cultivadas por Ariano, como a sextilha, a décima, o martelo e o galope. Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho mostravam as melodias e algumas letras surgiam de improviso, outras cabiam exatamente em alguns trechos do texto.

A maioria das letras ficou a cargo de Bráulio Tavares, mas há canções de outros integrantes, como Adrén Alves e Renato Luciano. “Contaminação é a palavra que define todo o projeto. As melodias foram contaminadas pelas letras e vice-versa. Criamos algo novo, mas totalmente contaminado por Ariano”, analisa Chico, a quem o escritor chegou a dedicar um livro de poesias.

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