Duas exposições enaltecem artistas negros na Cidade

'Mulheres Negras na Dança' está no MISS; e individual de Marcelo Mid abriu no Procomum

04/09/2018 - 11:45 - Atualizado em 06/09/2018 - 11:10

Num encontro internacional, realizado há mais de um ano, na cidade de Cachoeira, na Bahia, a filósofa e ícone da luta pelos direitos civis nos EUA Angela Davis disse: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Com isso, ela fazia referência e reverência à trajetória de líderes negras que, quando lutam, levam em conta o bem coletivo e as comunidades em que vivem.

Como exemplos de lideranças negras femininas brasileiras, a filósofa citou: a escritora mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), autora do livro "Quarto de Despejo: diário de uma favelada", de 1960; e a antropóloga e ativista Lélia Gonzalez (1935-1994), também de Minas, uma das pioneiras no debate sobre os direitos dos negros e indígenas.

Falar da luta dessas mulheres é reconhecer a importância delas e de pessoas como elas para a representatividade negra e feminina em todas as esferas da sociedade brasileira – que ainda reproduz preconceitos de gênero e cor. 

Em Santos, uma série de eventos e exposições converge para mostrar o orgulho e a beleza das pessoas negras por meio da dança, da fotografia, das artes plásticas e do teatro.

Para entender e valorizar esse movimento, contamos aqui histórias de representantes de cada vertente: a fotógrafa paulistana Mônica Cardim, que realiza pesquisa no campo da ancestralidade afrobrasileira e está expondo no Museu da Imagem e do Som de Santos (Miss), na individual "Mulheres Negras na Dança", em cartaz até dia 20; a bailarina e integrante da Nave Gris Cia. Cênica, Kanzelumuka, coordenadora do II Encontro de Mulheres Negras na Dança, realizada em julho, em São Paulo, e que foi fotografada por Mônica para a exposição no Miss; e o artista plástico santista Marcelo Midnight, que inaugurou mostra no Instituto Procomum, no Centro de Santos, até dia 14.

São artistas que colocam suas vozes, corpos, pensamentos e discursos em defesa do amor à humanidade e do orgulho negro, única raça que existe e surgiu lá na África. 

Mudança de paradigmas

Kanzelumuka fotografada por Mônica Cardim, autora da mostra "Mulheres Negras na Dança"

"Meu nome de batismo é Franciane Salgado de Paula, mas depois que me iniciei no candomblé angola, assumi meu nome ancestral, que é Kanzelumuka. Eu tive uma infância muito influenciada por programas de TV infantis e pelas novelas. Chamava-me muita atenção quando apareciam atores ou atrizes negros, mas sempre me incomodava a maneira como eles eram retratados, fosse como empregado da fazenda, fosse como a mocinha explorada. Mas uma figura negra importante era a Glória Maria, jornalista que realizava reportagens incríveis, viajando por todo o mundo pela TV Globo. Ela representou, de forma positiva, o que era ser mulher negra. Quando adulta, uma imagem que tenho forte na memória é a de uma mulher altiva, negra, observando a tudo, na banca da prova de aptidão em dança para o vestibular da Unicamp. Ela veio a se tornar minha orientadora na iniciação científica, a Inaicira Falcão dos Santos. Hoje, se a sociedade brasileira está evoluindo nessa questão racial, é muito por causa da luta de negros e negras que nos últimos 15 anos puderam acessar e ocupar espaços privilegiados em setores da sociedade que não nos era permitido. Ainda somos exceção a não estar subalternos, mas em vários lugares, seja dentro da academia ou instâncias ligadas ao governo. Também credito essas mudanças a pessoas não negras que têm assumido postura antirracista. No campo das artes, em São Paulo, observo esse desejo de mudança de paradigmas em grupos de teatro como o Coletivo Negro, Os Crespos, o Capulanas Cia. de Arte Negra e companhias de dança como a Cia. Sansacroma, uma das que estudei no meu mestrado. Existem coletivos assim em várias outras cidades e estados, como em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, Salvador, que estão revendo o histórico de fazer arte e mudar paradigmas em relação a todas as maiorias minorizadas. É muito complexo e bem complicado mudar nosso pensamento que vem de uma educação colonial”. 

Kanzelumuka 

(Bailarina e cofundadora da Nave Gris Cia. Cênica)


Família interracial

A fotógrafa Mônica Cardim é autora das imagens da exposição "Mulheres Negras na Dança", em cartaz no MISS (Camila Vilas Boas/Divulgação)

“Sou de uma família interracial e de mulheres muito fortes, comigo. Minhas duas irmãs mais velhas e minha mãe, com gradações de pele diferentes, dos mais claros aos mais escuros. Eu sou a mais nova das irmãs. Todas elas são grandes referências para mim, no que se refere à busca de seus objetivos, de acreditar em si mesmas. Então, acho que começa daí. Aí tem o fato de minha irmã mais velha decidir ser dentista, desde muito cedo e nunca ter aberto mão desse projeto e tê-lo realizado, por mais dificuldades que ela tenha encontrado; e de minha outra irmã ser atriz, e eu, cinco anos mais nova que ela, tê-la acompanhado desde a época em que ela fazia teatro na escola. Inclusive como atriz do Grupo de Arte Ponkã, nos anos 80 e 90. A Vera Cardim, hoje socióloga e antropóloga, teve um papel muito importante para eu desenvolver a consciência da questão racial. Ela é a mais escura de todas nós e mostrou, a partir da sua postura e das suas buscas, que é possível estar em todos os lugares, que é possível, para a mulher negra, buscar todos os seus objetivos e ser amada. Pensando no teatro e nas artes, a primeira representação de uma mulher negra engrandecedora que eu vi foi a minha irmã Vera, atuando em diversos espetáculos, alguns fotografados por mim, dialogando com meu início no trabalho fotográfico. Tirando a referência familiar, no cinema, minhas referências não são brasileiras. Uma representação forte para mim foi a Woophi Godberg, em dois filmes, 'Uma História Americana', de 1991, e a 'Cor Púrpura', de 1986, por apresentarem mulheres fortes. Acho que a sociedade ainda tem muito a evoluir. Começamos a ter respostas positivas devido à nossa movimentação, assim como disse Angela Davis, por todas as mulheres artistas estarem se posicionando e fazendo com que a publicidade e a mídia em geral usem novas maneiras de representá-las”. 

Mônica Cardim

(Fotógrafa)


Orgulho de ser negro

Marcelo Midnigh (o Mid) está com exposição no Instituto Procomum, no Centro de Santos (Foto: Marcela Mattos/Divulgação)

“Meu nome é Marcelo Ferreira Rosmaninho, mas assino Marcelo Midnight. Tenho 23 anos e sou natural de São Paulo. Com nove meses eu fui adotado e vim para Santos. Então, eu me considero santista. Com 17 anos, saí de casa. Meus pais nao tinham muita consciência a respeito do racismo, mesmo tenho me adotado. Na minha casa, todo mundo era branco e na escola só tinha três 'neguinhos'. Numa fase da minha vida, eu achava que eu ia ficar branco de verdade e meu cabelo alisaria. Fui morar no Centro dos Estudantes de Santos (CES), onde fiquei por três anos. Lá eu conheci sobre cultura, movimentos sociais, arte e toda a cena underground. Eu lembro que estava um dia fazendo umas tags (assinaturas de grafiteiro) no caderno e um amigo meu, o Yuri Scavinski, que faz um som e pinta, falou ‘pô, faz uns desenhos, comece a pintar’. Na hora, fiquei bravo, mas um dia eu cheguei (na Praça) Palmares e resolvi experimentar (o grafite). Antes, meu trabalho era puxado para o realismo, reproduzindo fotos. A partir daí, fui buscando minha identidade, estudando, visitando exposições e lendo sobre o assunto. As artes visuais, para mim, são um meio de expressão e empoderamento. Gosto de ser um menino negro que pinta. A primeira pessoa negra de poder que eu conheci ainda na infância foi o (jogador) Robinho. Em 2002, ele jogava no Santos e eu tinha 7 anos. O Robinho era um 'neguinho' jovem, que levou o Santos ao título brasileiro, que não vinha há um tempo. Essa foi a primeira imagem de negro importante para mim. Quando adulto, conheci a arte do Basquiat, um artista negro, que morava nas ruas (de Nova York) e andava sujo e descalço, mas foi um grande artista. Minha autoestima foi construída quando saí da casa dos meus pais. A arte me ajuda a ter esse discurso de que sou negro, faço arte e não devo satisfação nenhuma a ninguém. De uns tempos para cá, esse debate do racismo está mais forte e a gente está tendo orgulho de ser negro”.

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