Crítico de cinema Rubens Ewald Filho comemora 50 anos de A Tribuna

Leia entrevista com um dos maiores nomes da crítica cinematográfica, que agora se lançou na produção de filmes

30/10/2017 - 12:02 - Atualizado em 30/10/2017 - 14:41

Rubens conta que trabalhar com cinema,
no Brasil, é uma aventura (Foto: Acervo Pessoal)

No período colonial, durante a guerra entre Inglaterra e França, desde bebê, um homem branco é criado por índios Hawkeye. Absorve toda a cultura da tribo em vias de extinção. Daniel Day-Lewis interpreta o protagonista no longa "O Último dos Moicanos". Na vida real, em imitação à arte, Rubens Ewald Filho desempenha o papel. É como se sente o jornalista santista, prevendo o fim dos dias para os críticos de cinema.

Recentemente, Rubens completou 50 anos e dois meses como crítico de A Tribuna, fato, confessa, que omitiu (“estou velho para isso”). Experiência não lhe falta. Dividiu (e ainda o faz) seus conhecimentos com portais, tevês, revistas, jornais e rádios. É conhecido em praticamente todo o Brasil e em algumas partes do exterior.

Autor de guias impressos anuais, verdadeiras bíblias do cinema, assistiu a cerca de 50 mil filmes. Foi ator, diretor de teatro roteirista e comenta o Oscar desde 1985. Agora, estreia como produtor do curta "Como Grãos" (direção de Renata Giovannetti) e do longa "Somos Todos Estrangeiros" (Germano Pereira). Prato cheio aos seus muitos 'desafetos', que poderão criticar obras do 'temido' Rubens Ewald Filho. Como ele reagirá?

Qual necessidade o levou ao outro lado do balcão?

Na juventude e depois mais um tempo, fui meio lento. Demorei a amadurecer. Sempre fui observador e absorvia as informações, desde os tempos do teatro, na faculdade com Ney Latorraca, Neide Veneziano e outros. Uma junção de fatores me levou à produção: as pessoas envolvidas, propostas de trabalho, os roteiros. Podermos contar boas histórias.

A experiência como ator, roteirista e diretor teatral serviram para algo nessa empreitada?

Fiz apenas cinco filmes, mas tive o privilégio de ver a Xuxa pelada (risos) em "Amor, Estranho Amor" (1982). Sem dúvida, são referenciais. Conheço muita gente, países, atores, diretores, produtores... Bagagem sempre é útil. O produtor é, antes de tudo, um facilitador de acessos. E trabalha muito.

Significa que, como você possui a receita, "Como Grãos" e "Somos todos Estrangeiros" serão sucessos absolutos?

Produzir no Brasil é uma aventura, em diversos sentidos, até mesmo financeiro. Mas o pior é o cenário político. Não temos bons exemplos em nada. Antigamente, na escola, a gente tinha exemplos de pessoas íntegras e honestas. Até mesmo para contar uma história no cinema é difícil. Falta credibilidade em quase tudo.

Quais suas preferências cinematográficas?

Sou fã de carteirinha de Kubrik e de quase toda a sua obra. "2001 – Uma Odisseia no Espaço", adoro. Gosto dos franceses. "Blade Runner" original (já visualizava como será nossa vida um dia), e estou curtindo "Game of Thrones", porque é o cinema na televisão. Veja só!

Quais seus critérios como crítico? Qual a função do posto?

Cada caso é um caso. Se é comédia, quero rir; ação, ficar com vontade de viver aquilo; romance ou drama, me emocionar; terror, ficar assustado... Não é simples assim. Gostei, é bom; não, é ruim. Todos poderiam ser críticos (são, mas falo da profissão). Há as análises técnicas (som, luz...), o conhecimento histórico (do diretor, ator) e se a história, seja em qual gênero for, é bem contada e tem conteúdo. A crítica pode ajudar muito a carreira de quem faz cinema. É uma forma de rever conceitos, de melhorar.

Você falou mal de "O Shaolin do Sertão", e ele ganhou o Grande Prêmio da Comédia Brasileira, superando "Minha Mãe é uma Peça 2" e o "Roubo da Taça". 

No filme trabalha minha amiga Fafi Siqueira, que teve (eu disse a ela) uma atuação muito boa. Só. Sei que não vão gostar, mas não sei mentir. Quem julgou fez uma brincadeira com os nordestinos ou foi coisa de intelectual, que gosta do feio, pobre e mal realizado. Já fui de júri e sei como funciona.

Crítico erra?

Não sou o dono da verdade. Ocorreu, por preguiça, eu fazer uma crítica rasa e uma leitora, que me acompanha há anos, reclamou. Assisti de novo e mandei outro texto para publicar no lugar do anterior. Não tenho problema em rever.

Como será, agora, ter telhado de vidro?

Não espero ganhar dinheiro com meus filmes. Grandes cineastas fracassaram, até mesmo Fellini. Não haverá problema. É o que mais eu recebo todos os dias: desacordo com minhas críticas. Faz parte da profissão. Mas sempre vou defender o cinema, embora ele talvez não tenha uma vida tão longa. Nos EUA, a queda na bilheteria é vertiginosa, tanto que a indústria está se voltando ao mercado chinês. Aqui, temos quantidade, mas pouca qualidade, e as pessoas não têm dinheiro para gastar com isso. Há o agravante da força das demais plataformas. Várias pessoas, no mesmo ambiente, sai bem mais barato.

Críticos têm realmente o poder de levantar ou derrubar um filme? De levar ou afastar pessoas das salas?

Críticos? Onde estão eles? Me mostre. A maioria morreu. Sou um dos últimos. Agora o que se vê é toda uma molecada comentando filmes em blogs, jornais, sites... Sem preparo, sem conhecimento, sem estudo. Quantos filmes um garoto de 20 anos assistiu? Trabalham por uma pequena grana porque o bom é o acesso às produções, diretores, atores e ter o nome em evidência. Outro dia, em um lançamento, jornalistas jovens tirando selfies com os atores. São fãs. Como criticar com isenção? Foi-se o tempo em que alguém recorria à crítica antes de escolher o filme. E mesmo com o texto desqualificando, algumas pessoa iam. Mas eram bem melhores informadas sobre diretores, atores, história...

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