Crítico de arte e professor da UFBA comentam polêmica sobre nudez

Agnaldo Farias e o Wilson Gomes defendem debate lúcido sobre a questão da representação da nudez e do sexo na arte

09/10/2017 - 10:45 - Atualizado em 09/10/2017 - 10:58

Cena da performance "La Bête", com Wagner Schwartz, apresentada no MAM SP (Foto: Divulgação)

Qual é o lugar da nudez? Será que somente entre quatro paredes e a portas fechadas? Por que ainda incomoda, mesmo sendo representada há séculos na arte? Diante das atuais manifestações de intolerância à nudez como expressão artística em público, perguntas como estas são relevantes. 

Porém, em vez de suscitar um debate lúcido sobre os limites da arte e da nudez, o tema ganhou interpretações ideologizadas. Em casos mais extremos, com manifestações de ódio e violência nas redes sociais, direcionadas aos artistas e aos museus.

“Não se trata de uma reação popular, mas de um nicho que se tornou muito barulhento, organizado e mobilizável recentemente, em função da ascendência do conservadorismo de direita na esfera pública brasileira”, avalia Wilson Gomes, professor de Comunicação Política da graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Quem não acompanhou as notícias das últimas semanas, a polêmica gira em torno de duas mostras: a Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira; e a 35ª edição do Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).

Visão geral da exposição Queermuseu, que foi cancelada em Porto Alegre  (Foto: Divulgação)

A primeira foi cancelada pelo Banco Santander, após pessoas do público acusarem a exposição de promover a pedofilia e a zoofilia, especialmente nas telas "Criança Viada", de Bia Leite, e "Cena de Interior II" (1994), de Adriana Varejão, e por permitir a visitação escolar. A segunda, por causa da presença de uma criança de 4 anos, acompanhada dos pais, durante a performance "La Bête" ("A Besta", do francês), com o coreógrafo Wagner Schwartz, que faz uma interpretação da série de esculturas manipuláveis "Bichos", da consagrada artista Lygia Clark. O detalhe que mais incomodou os reclamantes foi a criança ter tocado os pés e as mãos do artista nu, com a motivação da mãe.

A mesma performance havia passado por Salvador (BA), em agosto, sem levantar polêmica. “O público típico de arte de vanguarda espera o que "La Bête" e Queermuseu entregaram, que são obras que provocam, desafiam, apelam para o não convencional, para a irreverência social, para a crítica política e para a experimentação de linguagens”, compara Gomes. 

O crítico e curador de arte Agnaldo Farias ressalta que a mãe da criança que frequentou o MAM é artista, trabalha com performance e é amiga do coreógrafo. “Não vi problema de a criança tocar o performer nu, porque ela estava com a mãe e no ambiente controlado de um museu. Essa mãe tem uma relação muito mais tranquila com o corpo do que a maioria das pessoas”, considera.

Para Farias, essas manifestações de censura são muito preocupantes, pois marcam um retrocesso aos tempos da ditadura, em 1968, quando integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram a peça "Roda Viva", de Chico Buarque, que tinha encenação de José Celso Martinez Corrêa, e espancaram os atores que estavam nus no palco. O crítico acredita que o único limite que deve existir na arte é quando a obra coloca em risco a integridade física do público.

“Não entendo toda essa polêmica quando o País inteiro está pelado. A questão do corpo é fundamental para todos nós e principalmente para a arte, mas há uma negação do prazer em nossa sociedade, onde a nudez e a liberação da libido só são permitidas durante os quatro dias do Carnaval”.

Vigilantes digitais

Segundo a colunista Monica Bergamo, em sua coluna de quinta-feira, no jornal Folha de S. Paulo, o perfil do público que censurou a representação no MAM é de direita (82%), homens (62%), de São Paulo (60%) e evangélicos (40%). 

Para o professor da UFBA, essa pesquisa feita pela colunista revela que o público que condena as duas mostras é consideravelmente ignorante com relação à arte e à cultura, e que ele foi apresentado à "La Bête", no MAM, e aos quadros do Queermuseu por meio do que ele chama de “vigilantes digitais, os patrulheiros dos costumes nesses tempos de mídias digitais”.

“Eles escolhem as fotos que devem resumir o todo, que partes do conjunto não devem ser apresentadas, que contextos devem ser escondidos. Inclusive, manipulando informações que poderiam levar a um julgamento diferente. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi este ‘não vi, mas não gostei’ generalizado”, resume Gomes. 

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