Criação entre Colômbia e Brasil, 'Corpos Opacos' estreia no Mirada

Espetáculo é baseado em retratos de freiras dominicanas, feitas após sua morte, por pintores

07/09/2018 - 10:15 - Atualizado em 07/09/2018 - 10:20

Cena de 'Corpos Opacos' (Thais Venitt/Divulgação)

Produções inéditas no Brasil e estreias mundiais marcam o 5º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas. Entre elas, destaca-se a coprodução Brasil e Colômbia "Corpos Opacos", que fala de um ritual fúnebre, no século 17, envolvendo as freiras colombianas do Mosteiro Santa Inés de Montepulciano. Elas viviam na clausura completa, mas depois de mortas, seus rostos sem vida eram eternizados em retratos pintados por homens. 

A peça será apresentada nesta sexta (7) e sábado (8), às 19 horas, no Auditório do Sesc Santos. Trata-se de uma criação da atriz colombiana radicada no Brasil Carolina Virgüez – vencedora do Prêmio Shell por "Caranguejo Overdrive", que esteve no Mirada em 2016 –, em parceria com a atriz brasileira Sara Antunes.

O projeto reuniu os diretores Yara Novaes e Marco André Nunes e o dramaturgo Pedro Kosovski, que escreveu o roteiro baseado nas criações das atrizes, durante o processo de criação do espetáculo. “Quem descobriu (a tradição de retratar religiosas depois de mortas) foi a atriz Carolina Virguez, uma colombiana que há anos mora no Brasil, quando foi visitar sua família (no país natal) e seu irmão a levou a essa exposição (de retrato)”, revela Yara de Novaes. 

A diretora também sublinha que o desejo de pesquisar esse tema partiu de Carolina, que então convidou a atriz Sara Antunes para começarem juntas a pesquisa. “A direção entrou um pouco mais tarde nesse processo!”, enfatiza ela, que não conhecia os retratos fúnebres das religiosas de Montepulciano até tomar contato com a criação de Carolina. 

Yara ressalta que o ritual de retratar as freiras de Montepulciano ficou relegado ao século 17, mas ressalta que “as artes funerárias ainda estão presentes em várias culturas de modos diferentes”.

A história 

Inês (1268-1317) nasceu numa aldeia perto de Montepulciano. Por isso ela é conhecida como Santa Inês de Montepulciano, depois de canonizada no século 18. Vinda de família rica, manifestou vontade de se tornar freira com apenas 6 anos. Aos 9, foi entregue pelos pais aos cuidados de freiras de São Domingos. 

Tornou-se madre superiora com apenas 15 anos. Entre seus feitos está a conversão de um prostíbulo em convento e de prostitutas em freiras. Após sua morte, também precoce, Inês foi enterrada em Montepulciano, que virou local de peregrinação e milagres. 

Tempos depois, seu corpo, ao ser exumado e transladado para uma igreja dominicana, estava em perfeito estado de conservação e passou a ser guardado num santuário. 

Não se sabe se foi por esse milagre (do corpo intacto de Santa Inês, mesmo após a morte) que se iniciou a tradição de retratar as freiras após a morte. “Essa é a nossa grande pergunta!”, exclama Yara de Novaes, para quem as freiras eram mulheres que reverenciavam a morte e reconheceram a fragilidade e a brevidade da vida, “ao contrário de nós que fazemos de tudo para não divisar a nossa finitude”. Para a diretora de "Corpos Opacos", a imagem dessas mulheres mortas era um modelo de vida exemplar: “Há nisso uma mensagem subreptícia de opressão masculina”.

Mais estreias

Outras estreias são a colombiana "Dramas Neo-Costumbristas de Carácter Fatal: Promesa de Fín de Año (Drama 2)", dias 13 e 14, no Arcos do Valongo; e mais uma produção brasileira que será encenada pela primeira vez, nos mesmos dias: "Eu Estava em minha Casa" e "Esperava que a Chuva Chegasse", trabalho do CPT – Centro de Pesquisa Teatral do Sesc São Paulo, dirigido por Antunes Filho, sobre texto do francês Jean-Luc Lagarce.

Serviço – O Sesc Santos fica na Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida, Ingressos de R$ 15 a R$ 50, á venda no mirada.sescsp.org.br e na Central de Atendimento, telefone: 3278-9800.

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