Contadores de histórias de todo o País discutem profissionalização

Falta de consenso sobre Projeto de Lei para regulamentação da profissão leva ao arquivamento do texto

05/11/2017 - 10:04 - Atualizado em 05/11/2017 - 11:28

Entre todas as artes ou artifícios humanos, a contação de histórias é a mais antiga. Ela é a raiz e o tronco da literatura, da música, do teatro, da dança, das artes visuais e audiovisuais. Mas é, também, a mais desvalorizada e incompreendida em sua importância para a sociedade, na transmissão de conhecimento e no despertar da imaginação.

O mineiro Roberto de Freitas foi um dos que se posicionaram contra o PL (Foto: Divulgação)

“As histórias orais são responsáveis pela sobrevivência da humanidade enquanto espécie. São a primeira manifestação artística humana, quando não tínhamos desenvolvido a linguagem verbal e nos comunicávamos por gestos”, resume o contador de histórias Roberto de Freitas, de Belo Horizonte.

Apesar de existir há milhões de anos e haver milhares de brasileiros que sobrevivem de contar histórias, a atividade não é regulamentada como profissão no País, nem contemplada em editais públicos de incentivo fiscal – a exemplo de outras manifestações artísticas. 

Pensando nisso e atenta ao movimento crescente em torno da atividade no País, a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) apresentou, em março deste ano, o Projeto de Lei (PL) nº 7.232, que dispõe sobre a regulamentação da profissão de contador de histórias (leia trechos mais abaixo). 

O texto chegou a ser aprovado na primeira comissão da Câmara dos Deputados, mas o conteúdo do PL não agradou grande parte dos contadores. Após muitas discussões em fóruns estaduais presenciais e virtuais, o projeto foi retirado de votação e arquivado pela deputada, há duas semanas. 

Artigo da discórdia

“A má redação do texto fez com que fosse mal aceito pelos contadores de vários lugares. Mas acho que essa discussão não morre aqui. Estamos nos organizando. A parte boa disso foi que movimentou contadores do Brasil inteiro”, avalia a contadora de histórias santista Camila Genaro, de 36 anos, e há 20 atuando na área.

Ela é presidente da Academia Brasileira de Contadores de Histórias e administra o grupo de Facebook Fórum Virtual – Políticas Públicas para os Contadores de Histórias, com mais de 2,6 mil contadores. 

Camila Genaro, de Santos, acha que a discussão ainda vai evoluir (Foto: Claudio Vitor Vaz/A Tribuna)

Camila ressalta que o “artigo da discórdia”, no PL, foi o 2º, que exige curso de formação para o exercício da profissão. “A deputada nos deu a opção de fazermos uma revisão do texto. Mas a maioria dos contadores preferiu pedir a retirada do projeto com o argumento de que não teríamos tempo hábil e outros dizem que a regulamentação colocaria amarras na nossa arte”. 

Camila acredita que essa discussão deverá evoluir para um mapeamento nacional dos contadores e para um movimento por políticas públicas para a arte da narrativa.

Abaixar o 'freio de mão'

O mineiro Roberto de Freitas, de 50 anos, se considera um contador de histórias “orgânico”. Nascido em Diogo de Vasconcelos, uma cidadezinha de Minas, próxima a Ouro Preto, ele desenvolveu o dom para a narrativa oral ouvindo os contos de sua tia materna Ifigênia. 

Com 30 anos de contação, Freitas afirma que não há escola que ensine alguém a contar histórias. “Por isso, esse artigo 2º, de criar graduações ou pós-graduações, atenderia aos interesses de uma minoria que teria o domínio dessa chancela”.

Ele defende cursos livres, “não para contar histórias, pois todos nós sabemos, mas para atingirmos nossa pureza, precisamos nos desconstruir. Não existe técnica, não é um conhecimento sistematizado. Para ser um bom contador de histórias, é preciso abaixar o freio de mão, tirar as máscaras sociais e não ter medo de se expor”.

Sobre a regulamentação da profissão, Freitas diz não sentir necessidade, pois já possui registro de microempreendedor individual (MEI) como contador de histórias. 

De olho na excelência

Daniel Meirelis, 28 anos, nascido em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, e radicado em Santos, aprendeu a contar histórias para se livrar do bullying na escola.

Daniel Meirelis, também de Santos, descobriu dom da contação na escola (Foto: Divulgação)

“Eu sempre fui gordinho e extrovertido. Descobri que, por meio do riso, poderia fugir do bullying", lembra ele, que frequentou cursos livres de teatro para desenvolver sua técnica corporal. Meirelis deseja que o PL 7.232/2017 volte à discussão, pois o estudo é uma forma de valorizar a profissão. “Quem quer fazer de forma amadora, não tem problema, mas quem quer fazer de modo profissional, porque acha que tem de buscar uma excelência, acho que a criação de um curso é uma maneira de alcançar isso”. 

Mas defende que esse critério seja melhor elaborado: “Existem contadores maravilhosos no Brasil que não têm nem o Ensino Médio. Então, como medir o nível de qualidade deles?”. Meirelis acha que essa discussão é importante porque sua profissão carece de compreensão pela sociedade. “Não é da nossa cultura valorizar os artistas que não estão nas grandes mídias”, lamenta.

Camila Genaro conta uma história escrita e ilustrada por Nice Lopes, de Santos:

Trechos do Projeto de Lei que foi arquivado:

>São considerados contadores de histórias os profissionais cuja construção do saber seja desenvolvida no cotidiano de suas comunidades, em que a oralidade exerça papel fundamental na preservação e transmissão do saber e das manifestações da cultura popular.

>Para o exercício da profissão de que trata esta lei, será exigido curso de formação com fundamentação teórico-prática, para o uso da literatura e das técnicas de contação de histórias como instrumentos didáticos-pedagógicos no processo de aprendizagem.

>São objetivos da profissão de contador de histórias: valorizar o patrimônio imaterial brasileiro; democratizar o acesso aos bens culturais; valorizar a diversidade cultural do povo brasileiro; disseminar as manifestações artísticas; fomentar a formação de pessoal qualificado para o exercício da profissão; integrar profissionais das áreas da Educação, Saúde e Cultura; promover espaços de debates e ações na área de tradição oral e literária. 

>Embora ainda não se reconheça o contador de histórias como profissional, muitos têm, na prática cotidiana de suas atividades, a contação de histórias como fonte exclusiva de renda/sobrevivência.


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