Conheça o ateliê do artista santista Costa Villar

Ele mantém, no Marapé, a casa-ateliê-galeria improvisada na garagem de casa

10/06/2018 - 09:29 - Atualizado em 12/06/2018 - 15:43

Costa Villar mantém ateliê improvisado na garagem de casa (Foto: Cláudio Vitor Vaz/Especial para AT)

Com olhos de águia, o artista santista Costa Villar, de 65 anos, esquadrinha a pintura que acaba de fazer. “Quando a tinta secar, cada detalhe vai adquirir uma nova forma”, avisa. É por causa do caldo de tinta que ele costuma usar: a água no qual limpa o pincel ou dilui a tinta acrílica. Antes de iniciar uma nova pintura sobre um cartaz reciclado, Villar derrama o conteúdo na superfície, formando texturas. 

Sua casa-ateliê-galeria fica num sobrado repleto de plantas, na Rua Alfredo Ximenes, 21, esquina com um beco de mesmo nome, perto da linha do trem, no Marapé. Ali, o artista mora com sua musa, Fátima, com quem está junto desde os 16 anos. “Ela é um presente dos deuses, companheira, incentivadora e de uma sensibilidade muito forte”, elogia. 

Villar se dedica a uma arte sustentável, onde tudo é reaproveitado: de cartazes a pedaços de tábua que recolhe na rua. Além de produzir pinturas e desenhos com materiais e suportes diversos, o artista cria objetos como máscaras e barracos sobre palafitas, em miniaturas, reproduzindo de memória o que viveu na infância. 

Foi essa faceta à la arte povera (movimento artístico na Itália, de meados dos anos 1960, em que os adeptos utilizavam materiais como areia, madeira, jornais) encantou a curadora italiana Irene Lorieri, que conheceu o trabalho de Villar numa galeria municipal de Santos. Ela visitou o ateliê do artista e selecionou 21 pinturas feitas sobre cartazes de supermercado, para levar ao seu país. 

A exposição Emozione Del Reale tra L’arte sostenible e Wittgenstein (Emoções da realidade entre arte sustentável e Wittgenstein) foi realizada entre maio e junho de 2014, em Pisa, no Palazzo della Provincia. Com medo de avião e um problema na coluna, Villar não pôde estar presente, mas assistiu ao Vernissage pelo Skype.

Rebeldia

Uma característica forte da personalidade artística de Villar é a rebeldia. Alheio às demandas do mercado de arte, ele mantém uma galeria independente na garagem de casa, aberta de segunda a segunda, atraindo pessoas que dificilmente entrariam numa exposição.

Ali, funcionou o coletivo artístico Garage, que realizou performances e exposições em cidades da região e do Interior, e do qual faziam parte as bailarinas e performers Tatiana Justel, Janice Ferreira e Adriana Barbieri. E ainda os artistas plásticos José Manoel de Souza Neto (in memorian) e Olegário Monteiro, entre outros profissionais, além de Villar. 

A Tribuna visitou o espaço numa manhã de segunda-feira. Villar passa a maior parte do tempo na garagem, em meio a livros, pinturas, ilustrações e objetos, recebendo amigos e curiosos. Tem até um caderno para registro dos visitantes: “Eu sou pedreiro”, escreveu José Pinto de Souza Santos; “Eu visitei a obra de arte. Pelé, lavador de carros”, escreveu outro.

O ateliê fica sobre a garagem, na lavanderia. Potes de tinta, pincéis, mais livros e pinturas dividem espaço com roupas e vasos de plantas. Villar pinta sobre uma tábua sustentada por dois cavaletes, ao lado de uma grande janela, por onde entram os sons de pássaros, do carro de ovos e do VLT. 

Enquanto conversava com a Reportagem, ele pintou um figurativo-abstrato no verso de um cartaz que anunciava uma promoção de biscoito. Seu processo é ágil, vigoroso e intuitivo: não faz esboço ou estudo antes de verter tinta.

Os movimentos são acompanhados de reflexões sobre seu trabalho e necessidades de artista. “A pintura que faço vem da poética de existir. Da infância humilde em São Vicente (para onde se mudou, ainda criança), na frente do dique do Sambaiatuba. Da volta a Santos, das faculdades e leituras. É algo que vai além do registro geral da minha carteira de identidade, onde está escrito José Maria da Costa Villar”, diz. 

O resultado é uma mistura de estilos, escolas e filosofias: Tachismo, Pollock, Rorschach e Wittgenstein. Olhando de perto, os respingos coloridos de tinta lembram o universo, com seus planetas, astros, estrelas e nebulosas. Mirando a distância, os detalhes formam um grande peixe, tema recorrente em sua obra. 

É uma pintura aleatória, da qual saltam imagens figurativas, surgidas ao acaso. “Aqui eu vejo um rosto, uma bruxa de perfil”, surpreende-se Villar, que costuma fotografar detalhes da pintura, com o celular, para publicar as imagens ampliadas no Facebook. 

“Eu procuro os detalhes e percebo que essas pequenas partes compõem um todo, se ligando pelos símbolos. É uma gestalt, um portal. Quando coloco isso na rede social, as pessoas pensam que é uma obra em si, particular”, diz Villar, que, com isso, quer provocar o olhar e a imaginação de quem vê, como as Manchas de Rorschach. “Tem muito trabalho meu que, na rede, vira uma performance. É virtual. Não existe no mundo real. Algumas pessoas ficam indignadas, dizem que isso é um embuste. Não! Eu uso a tecnologia a meu favor”, explica. 

Sem estilo único

Villar percebeu-se artista aos 9 anos. “Acredito que todo mundo nasce com uma predisposição. Eu ficava impressionado por uma literatura e tentava traduzir as cenas em imagens”, lembra ele, que continua transmutando em desenho o que é literatura: na sua garagem-ateliê, há um calhamaço de desenhos expressionistas, feitos com caneta esferográfica preta, baseadas no clássico Fausto, de Goethe. 

Na escola, foi incentivado pelos professores e o interesse pelas artes plásticas só foi aumentando. “Eu era convidado para desenhar fatos históricos”, conta. Mas havia o problema da rebeldia. Certa vez, uma professora de canto conseguiu uma bolsa de estudos com Oswaldo de Freitas Bastos. “Ele era um famoso pintor figurativo, acadêmico, formalista, rígido, um mestre! Mas foi ali que eu percebi que nunca gostei de disciplina e fui embora”. 

Mesmo assim, mais tarde, se formou na Faculdade de Artes Plásticas pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). “Tive contato com grandes professores como Norberto Stori, um grande colorista, Ronaldo Bertacco e Beatriz Rosa Rossi, uma pessoa mítica em Santos. Nem ela sabe que me influenciou tanto”, reconhece. 

Depois, por uma questão de sobrevivência, fez faculdade de Direito, e advogou. “Por meio da advocacia, tive um contato maior com a dor humana. Eu atuava na parte criminal, onde vi desdobramentos das crises sociais nos presídios, vi o sofrimento das mães que tinham seus filhos na fase prisional. Isto influenciou o meu caráter e minha arte”.

Apesar da crítica social que faz com suas miniaturas de palafitas, Villar não busca ser reconhecido apenas por isso. “Minha pintura é segmentada, fracionada, mas é atomística (teoria que explica a constituição da matéria a partir de átomos). Não me preocupo com estilo. Meu estilo é minha vida, poética, emoção, o que sai no momento”, descreve, e continua: “Eu li Fernando Pessoa. Achei legal ele ter 300 heterônimos e cada um deles deixar um marco. Por que não posso colocar para fora todos esses caras que querem pintar?”.

Ao final da pintura, seu neto de 5 anos, Ítalo, chega para ver como ficou. Villar o pega no colo e diz que, quando a pintura secar, vão desvendar juntos as figuras contidas nos detalhes: “Fiz um portal aqui. Vamos descobrir as manchas, para entrar nesse portal”. Após segundos de silêncio, seu neto repete baixinho: “Portaaaal”. 

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