Conheça a poesia ácida de Alex Assunção Rebello

Poeta nascido em Registro no Vale do Ribeira, lança segundo livro, somente em edição on-line

12/12/2017 - 09:43 - Atualizado em 12/12/2017 - 10:05

Alex Assunção Rebello estuda Filosofia e Teologia na Uninter (Foto: divulgação)

Ao chegar aos 40 anos de idade, em 2015, a passagem do tempo ficou nítida para Alex Assunção Rebello. Pai de duas meninas, nascido em Registro, no Vale do Ribeira, e morador em Indaiatuba, na Região Metropolitana de Campinas, Alex decidiu publicar seus poemas antes de perdê-los para sempre, como acontecera com antigas anotações em cadernos. 

“Depois dos 40 a gente vai azedando como um limão vermelho e não acha mais graça de uma série de coisas./ As crianças, com suas carinhas arreganhadas, gritaram quando o farol abriu./ E o fusca partiu esfumaçando suas felicidades pequenas./ Eu saí logo depois, sentindo o cheiro do tempo e do óleo que se queimavam”, escreve no quinto poema do livro "Alguns Poemas Inglórios", de 48 páginas, que ele lançou em setembro, somente em edição digital (por apenas R$ 4,08 na Amazon Kindle). 

É uma poesia amarga, crítica, mas cheia de vida real e suada, daquela que todo mundo com mais de 40 anos e parcas economias compartilha: educação dos filhos, contas a pagar, sonhos não realizados e outros tantos a realizar, preocupação com a saúde e o cansaço que atrapalha.

O primeiro livro, "Libélulas de Ferro" (sim, seus livros têm títulos muito legais) saiu em 2015, o mesmo ano da crise da meia idade. A obra também só existe na edição on-line (por R$ 5,00) pela Editora Cia do eBook, de São Paulo. 

Com 51 páginas, a primeira publicação já retratava a perplexidade do autor perante a passagem do tempo e traz lembranças de uma pequena vila nos anos 1980. “Vejo a poesia como um instrumento que nos foi dado para fotografar esses e outros instantes da alma, as sensações que nos sobrevêm ao longo da vida, como se uma foto estivesse sendo tirada do nosso interior num dado momento”, diz Alex.

Capa do segundo livro do poeta
(Foto: reprodução)

Em "Alguns Poemas Inglórios", os versos mais ácidos são guardados para a vida na cidade. Os mais felizes remetem à juventude perto da natureza: “Fui, muitas vezes, com minha bicicleta sem freios, às margens do Ribeira, perto da ponte./ O rio das dragas, das canoas, dos covos, das barbatanas dos bagres./ As casas de telhados antigos se grudavam umas às outras parecidas com as letras duma canção escrita às margens do rio”.

O poeta, roteirista e artista visual Sandro Doraciotto resume bem o espírito dos poemas no prefácio do novo livro de Alex: “Obscuro, sombrio, simples, singelo. "Poemas Inglórios" é uma obra que nos provoca a criarmos cenários, pessoas e situações. Traz consigo um olhar atento e uma alma desprovida de processos e padrões. O que vale mesmo são as sensações e observações, ora mergulhadas no marasmo, ora somente rememorando uma vida vivida em meio ao caos cotidiano”.

Técnico Químico, Alex é graduando nos cursos de Licenciatura em Filosofia e Bacharel em Teologia Interconfessional pelo Centro Universitário Internacional (PR).

Leia "Poema I":

“Nós, os pintores, nos encontrávamos
na praça
do centro todas as manhãs.
Ao lado dum chafariz que já estava morto.
Íamos todos de bicicleta e formávamos uma roda.
Um belo bando de desempregados.
Íamos para bater papo.
Para incomodar os pombos que disputavam
tecos de pão.
Para estorvar a passagem dos 
que tinham
alguma coisa para fazer.
O dia crescia.
O sol ia nos despertando um riso sem graça 
e o bando então se dispersava.
Ainda me lembro da fundura daquele 
sentimento.
Quando as bicicletas partiam do centro 
sem um horizonte.
Quando nossas bicicletas deixavam 
a praça sem nenhum destino".

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