Começa o festival Mirada, com 41 espetáculos de 13 países

Montagem 'Labio de Liebre', da Colômbia, fala de desaparecidos políticos

05/09/2018 - 10:14 - Atualizado em 05/09/2018 - 11:00

Cena da pela 'Labio de Liebre', do Petra (Juan Antonio Monsalve/Divulgação)

Muito mais abrangente e descentralizado, começa hoje o 5º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado em Santos, mas que, finalmente, se espalha pelas demais oito cidades da Baixada Santista – como desejado e preconizado pelo Sesc SP, que o realiza desde 2010.

Com potencial para atingir 70 mil pessoas este ano, o evento bienal vai até o dia 15, trazendo 41 espetáculos de 13 países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Paraguai, Peru, Portugal e Uruguai. 

O país homenageado é a Colômbia, que vem com nove montagens e abre o Mirada, nesta quarta (5), às 20 horas, com a peça "Labio de Liebre", no Teatro do Sesc Santos. Os ingressos estão esgotados para a sessão de hoje, mas ainda há unidades para a reapresentação, quinta-feira (6), às 21 horas, no mesmo local. 

Traduzido do espanhol, o nome do espetáculo de abertura quer dizer "Lábio de Lebre", em referência a uma característica congênita conhecida como lábio leporino, que forma uma fenda na boca da criança. Dirigida por Fabio Rubiano Orjuela, a montagem aborda um assunto comum à América Latina: a demanda pelo reconhecimento de corpos e nomes de pessoas assassinadas e desaparecidas, especialmente durante as ditaduras militares. 

A peça conta a história de um assassino exilado, que começa a ser assombrado por uma das famílias vítimas de sua crueldade. Em entrevista para A Tribuna, o diretor colombiano disse que a falta de memória em relação às ditaduras e aos desaparecidos está presente em todo o continente. “Devemos saber usar a memória para que nada fique oculto, para não repetir, com outros, os horrores do passado”, avisa.

Fabio Rubiano Orjuela dirige o Petra há 33 anos
(Divulgação)

Além de "Labio de Liebre", o Teatro Petra trouxe o mais recente espetáculo "Cuando Estallan las Paredes" ("Quando Explodem as Paredes"), que será apresentado no sábado (8) e no domingo, às 21 horas, no Arcos do Valongo, Centro Histórico de Santos. A peça mostra os dois lados de um ato terrorista: a frieza do atentado contra a vida de uma família opressora; e as crueldades cometidas por 'gente de bem' contra os próprios filhos e a empregada da casa. 

“('Cuando Estallan las Paredes') fala de famílias poderosas, de grupos poderosos, tanto no poderio econômico como no poder das armas. Aqui se enfrentam duas forças muito potentes, de um lado, um grupo rebelde, de outro, um grupo industrial”, explica Orjuela.

Há 33 anos à frente do Teatro Petra, desde que o fundou ao lado de Marcela Valencia, o diretor já esteve outras vezes no Brasil e em Santos, participando de outros eventos e festivais. Ele lembra que a primeira vez foi em 2004, com uma versão de "Tito Andrônico", de Shakespeare. 

Desde então, já se apresentou em Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo, Londrina e São José do Rio Preto, além de Santos.

Orjuela revela que sua inspiração para começar a fazer teatro veio de um brasileiro: “Começou quando eu e Marcela Valencia assistimos a Cacá Rosset e seu Teatro do Ornitorrinco na peça 'Ubú', em 1985”.

Com sede em Bogotá, capital da Colômbia, o Teatro Petra acabou de inaugurar uma sala para realizar intercâmbio de experiências, oficinas, obras e pesquisa de atores e atrizes de outros lugares, além de realizar coproduções. 

Perguntado o que está achando de Santos, Orjuela responde com outra pergunta: “Como não gostar de uma cidade que se entrega assim ao teatro?”

Diferencial da edição

Para o gerente do Sesc Santos, Luiz Ernesto Figueiredo, o Neto, o diferencial desta edição do Mirada para as anteriores é que esta conseguiu atingir todas as cidades da Baixada: “Começamos com três, avançamos para cinco e agora estamos nas nove cidades”, orgulha-se ele, que também destaca que o número de convidados internacionais, entre programadores e produtores, subiu de 48 em 2016 para 92. 

Fachada do Sesc Santos com logo do Mirada (Rogério Soares AT)

Coordenadora técnica do Mirada, Rani Bacil Fuzzetto destaca que os temas dos espetáculos continuam refletindo a realidade ao redor, como a situação dos refugiados e a luta das mulheres.

Serviço – Os ingressos para os espetáculos em espaços fechados custam de R$ 15,00 a R$ 50,00, e podem ser adquiridos no site sescsp.org/mirada ou na Central de Atendimento do Sesc Santos, que fica na Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida. Informações pelo telefone: 3278-9800. 

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