Com imprevistos e polêmicas, Christopher Plummer não consegue salvar Ridley Scott

Substituto de Kevin Spacey às pressas, ator é um dos poucos pontos positivos de Todo o Dinheiro do Mundo

01/02/2018 - 13:52 - Atualizado em 01/02/2018 - 14:01

Michelle Williams mantém o alto nível de suas atuações, mas Wahlberg decepciona (Foto: Divulgação)


Aos 80 anos, o britânico Ridley Scott (dono de uma poderosa empresa de produção de filmes e séries de tevê) não desiste em realizar projetos ousados, talvez na esperança infinita de vir a ganhar o Oscar que sempre mereceu (pelo original Blade Runner, Alien o Oitavo Passageiro, Thelma e Louise e Gladiador, que levou melhor filme, mas não premiou ele como realizador).

Até agora não tinham feito nada semelhante em Hollywood. Quem interpretaria o papel principal do milionário J. Paul Getty era o Kevin Spacey (Jack Nicholson recusou), que parecia estar no auge da carreira quando tudo desmoronou de maneira esquisita. Foi acusado de abuso sexual e despedido da série de tevê da Netflx (House of Cards) e, mesmo finalmente se assumindo gay, foi descartado sem explicações. Como advogado, acho muito esquisito se condenar uma pessoa assim sem provas judiciais, sem julgamentos e tratá-la de repente como criminosa. Por pior que seja ou tenha sido, merecia se defender e ser julgado pelos meios normais!

Ridley fez uma jogada perigosa, que foi quase um truque de cinema. Dispensou Spacey (que era mais novo do que o personagem e usava maquiagem especial) e o substituiu às pressas pelo veterano e já vencedor do Oscar Christopher Plummer. Vale uma nota aqui: ele não é parente do outro de mesmo sobrenome, Charlie, que faz justamente a vítima do sequestro, John Paul Getty III.

Em 8 de novembro de 2017, com  o apoio da Sony, iniciou a refilmagem, apenas um mês exato da estréia prevista do filme. Ridley teve problemas semelhantes em Gladiador, quando Oliver Reed morreu em meio às filmagens, mas nada assim tão radical. E tudo foi feito em apenas oito dias! E por um custo de US$ 10 milhões, com Plummer às pressas porque, por sorte, ele já tinha lido o roteiro do filme e conseguiu decorar tudo em duas semanas. Plummer também conheceu pessoalmente Getty, em uma festa em Londres nos anos 1960. Eram 22 cenas novas a fazer... Por outro lado, Getty, quando o neto foi sequestrado, tinha 80 anos. Plummer tem 88!

Um último escândalo foi quando Mark Wahlberg (que aliás usa óculos no filme) teve que admitir que tinha recebido mais de US$ 1 milhão pela sua participação no remake e a atriz central, Michelle Williams, levou apenas tostões. Não deram os dados, mas basicamente era o que o sindicato liberava. Aliás, ela como de hábito está muito bem. Discreta, mas nervosa e aflita com a situação. Para esse papel, Natalie Portman e Angelina Jolie foram convidadas antes dela.

O novo escândalo acabou provocando que Mark (que é muito rico) devolvesse o dinheiro, doando a organização que atualmente tenta resolver o caso dos estupros e abusos (em especial femininos).

Outra curiosidade, o Getty, que foi sequestrado, depois se tornou pai de um ator de cinema chamado Balthazar Getty (1975-), que fez filmes como Senhor das Moscas, Estrada Perdida, Young Guns II.

Quem faz o papel do vilão sequestrador é um astro da França, Romain Duris (que se esforça para fazer cara de mau e voz rouca). Outra curiosidade:a cena de abertura do filme é uma citação / homenagem ao La Dolce Vita, de Fellini, reconstruindo as ruas e bares de Roma.

Voltando ao filme propriamente dito, o velho Plummer segura tudo onde aparece (como melhorou desde os tempos em que estrelou A Noviça Rebelde) de tal forma que mereceu uma indicação ao Oscar. Ele já tem um por Toda Forma de Amor, de 2010. Curiosamente, Plummer ficou com dois recordes: com Toda Forma de Amor foi o mais velho vencedor de um Oscar e, agora, por esta nova indicação foi o indicado mais velho de toda a história do Oscar.

Porém, o elenco de apoio aqui é muito fraco, como se bastassem os lugares luxuosos da família, cenas no Marrocos, desagradáveis conspirações da dita máfia. O menino com longos cabelos loiros me lembrou a nossa Florinda Bulcão e o filme não chega a  criar a devida tensão e suspense.

Mas segue as linhas gerais desde quando Getty III, em férias em 1973, foi sequestrado pelo que teria sido variante da máfia, que exigiu US$ 3,4 milhões de resgate. O problema é  que o velho Getty é pão duro e não quer pagar nada. O roteiro optou por contar a história com idas e vindas, do começo da riqueza da família até a crise. Acho Wahlberg, especialmente, canastrão incapaz de passar qualquer emoção no papel do segurança da família.

Curiosamente eu me lembro do escândalo que foi na imprensa do mundo inteiro esse sequestro à la italiana, já que se tratava de bilionários. Parecia mais sensacionalista na imprensa que no filme, onde realmente a única figura impressionante é o velho ator Plummer, dando uma lição de sobrevivência e talento. Mas não será desta vez que Ridley vai levar o Oscar.



Todo o Dinheiro do Mundo (All the Money in the World). EUA, 17. Direção de Ridley Scott. 2h12 min. Roteiro de David Scarpa baseado em livro de John Pearson. Com Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Charlie Plummer, Marco Leonardi, Andrew Buchan, Giuseppe Bonifati. Sony. Cotação: dois e meio.

Em cartaz no Cinemark Praiamar, Cinesystem PG, Roxy Brisamar, 
Roxy Gonzaga e Roxy Pátio Iporanga

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