Christiane Torloni fala sobre peça em homenagem a Maria Callas

Símbolo de elegância e excelência, soprano é tema do espetáculo 'Master Class', em cartaz em Santos

23/02/2018 - 10:30 - Atualizado em 23/02/2018 - 10:54

A atriz celebra 30 anos de parceria artística com o diretor José Possi Neto (Foto: divulgação) 

Master class significa uma aula de mestre. É um termo comumente utilizado para se referir a uma oficina musical de algum especialista. Mas será uma aula de teatro à qual o público terá oportunidade de assistir, sábado (24), às 21 horas, e domingo (25), às 20 horas, no Coliseu, em Santos. Uma aula com dois mestres, na verdade, pois "Master Class", a peça, traz dois grandes nomes das artes cênicas nacionais: a atriz Christiane Torloni e o diretor José Possi Neto. 

Juntos, ele celebram 30 anos de parceria, desde quando ele a dirigiu em "A Loba de Ray-ban", em 1987, ao lado de Raul Cortez. “A gente está cada vez mais amigo e confiando mais no outro”, disse a atriz, sobre o diretor, em entrevista para A Tribuna. Aos 70 anos, Possi Neto é conhecido como um encenador de grandes atores, como Paulo Autran e Beatriz Segall, no auge de suas carreiras. “Era uma época em que os atores eram mais cultos, pois liam muito e apoiavam-se num grande conhecimento cultural. Hoje, em compensação, os atores são mais técnicos e muito mais treinados”, disse o diretor. 

Montar "Master Class", do norte-americano Terrence McNally, era um desejo de Possi Neto e Christiane. Trata-se de uma ficção sobre uma passagem real na vida de Maria Callas, diva da ópera mundial, que ministrou master classes na Juilliard School of Music, entre 1971 e 72. 

Suas aulas eram verdadeiras performances, e na plateia havia gente como o tenor Plácido Domingo. No Brasil, Marília Pêra foi a primeira grande atriz a encarnar Callas no palco, há 30 anos. O sucesso foi grande e Possi Neto decidiu encenar a mesma adaptação, mas com cenário contemporâneo. Em cena, Torloni atua com Julianne Daud, Paula Capovilla, Fred Silveira, Thiago Rodrigues, Jessé Scarpellini e Raquel Paulin. Leia entrevista com a atriz.

Como trabalhou corpo e voz para viver Maria Callas no palco? Você canta em cena?

É um trabalho que exige uma precisão danada, que vai além da dança. Tenho uma preparadora física, assim como os outros cantores. Me preparo com muito rigor e concentração. Eu fiz aula de canto. Mesmo que você nunca cante em um musical, é importante para formação. Inclusive para entender o universo das orientações que ela traz aos cantores. Com meu professor no Rio de Janeiro comecei a estudar pela ária de Amina, personagem de Callas na ópera "La Sonnambula", para poder entender em mim mesma o que ela faz, o quão difícil é o que ela faz. Você se apropria. Você vai fazer um pianista, você tem que entender o universo, mesmo que não vá tocar. Entender mentalmente, entender emocionalmente, porque isso muda a atitude física completamente.

Acha que o público brasileiro conhece Maria Callas ou a história e obra da artista precisam ser mais divulgados?

Uma coisa interessante é que esse espetáculo está trazendo um público diferenciado. Além do público que sempre vai me ver, que me acompanha há quatro décadas já que já sou avó de fã (risos), vem um público que é apaixonado por ópera e isso deu uma química maravilhosa de plateia. Essa é a grande novidade desse espetáculo para mim. Tem gente que nunca tinha me visto no teatro e foi pela Maria Callas. Acho que nosso público está tendo cada vez mais acesso a tudo, de alguma maneira está se tornando um público melhor. Quer dizer, em termos. A gente tem menos acesso à educação, culturalmente o País está mais pobre, logo os papéis também deveriam estar. Na contramão dessas questões estatísticas, você vê os teatros, principalmente os musicais, fazendo grandes carreiras. A gente estava falando muito de alguns espetáculos, uma tragédia e um drama, indo muito bem. Então isso significa que é uma plateia que está sendo cultivada.


A cantora Maria Callas num de seus master classes na Juilliard School (Foto: divulgação)

Que legado você acredita que Maria Callas deixou para as próximas gerações?

Quando você se aproxima da Callas, a história dessa mulher é uma história de superação, desde o nascimento dela, pois ela foi recusada pela mãe nos primeiros dias. Então, esse é um espetáculo para você se apoiar em alguém que, mais do que tudo, não desistiu do belo. Acho que ela coloca a serviço da música, da arte, da beleza toda a experiência que ela tece na vida, incluindo a pessoal. O subtítulo da peça poderia ser "Ensina-me a Viver", pois é de uma profundidade e de uma humanidade. Apesar de toda a técnica, ela não acredita só em técnica. Só acredita naquilo que vem do coração e vai forçando isso nos alunos. É uma aula de humanidade. E tem uma questão, talvez seja o que mais me inspire: é que ela não tinha uma relação com alguém que a desafiasse. Era Callas quem desafiava Callas. É uma outra maneira de ver tudo. A maioria das pessoas tem o desafio de fora para dentro. Ela não, vinha de dentro dela. 

Fale um pouco sobre sua parceria com o diretor, que já dura 30 anos.

"Master Class" consagra minha parceria de 30 anos com Possi Neto. Em todas as montagens que fazemos, desde "A Loba de Ray-Ban", a gente vem fidelizando o público pelo Brasil. A gente está cada vez mais amigo e confiando mais no outro. Entrega e confiança. Acho que o trabalho vai ficando bonito. Um trabalho amoroso, não consigo definir de outra maneira.

Serviço: Teatro Coliseu (Rua Amador Bueno, 237, Centro). Ingressos vão de R$ 70,00 a R$ 100,00, à venda no site da Compre Ingressos, no quiosque Compreingressos (Shopping Miramar); e na Renault Estoril (3229-1800). Informações (13) 4062-0016.

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