Obras de Chet Baker como você talvez nunca tenha ouvido

Nico Rezende viaja o Brasil interpretando obras desse mestre

13/11/2017 - 11:17 - Atualizado em 13/11/2017 - 11:42

Sensibilidade (Foto: Maria Helena Melo/Divulgação

Você pode falar? “Sim, estou na rua, sem problema”. Cuidado com assalto, é o Rio de Janeiro. “Estou na Barra, tranquilo”. Foi dessa forma o início da conversa com Nico Rezende. Foram 30 minutos com ele andando por calçadas e avenidas (ouvia-se alguns cumprimentos e buzinas), desviando de carros em meio às pessoas. Descontração que é bem a cara dele, até quando interpreta obras clássicas do norte-americano Chet Baker (1929 - 1988).

Trata-se do seu mais recente projeto. Iniciado como uma apresentação despretensiosa, mais por prazer pessoal, devido à receptividade foi transformada em DVD. Faixas que ele e banda estão mostrando em turnê (que passou recentemente por Santos.

Nico tem lado Guilherme Dias Gomes (trompete), Fernando Clark (guitarra), Sergio Barrozo (contrabaixo acústico) e André Tandeta (bateria). Entre outras, no set list, But not for me, Time After Time, That Old Feeling e As Time Goes Bye.

Mesmo, digamos, a caráter, não é imitação. “(risos). Estão dizendo isso porque uso um paletó. Acho mais que é pelo topete, meio parecido com o do Chet. Não faço cover. É um show leve, tranquilo. É o Nico, com seu jeito normal e sua voz, cantando as obras dele”.

Informalidade que fez com que um simples sonho (acalentado há mais de 30 anos) se tornasse realidade e sucesso. Nico é fã de carteirinha do artista desde a adolescência, quando ouviu o álbum Chet Baker & Strings (vinil, importado, não vendia no Brasil). Não saía de sua cabeça gravar o mestre.

“Ele tinha um jeito singular de cantar e influenciou muita gente, até quem fazia bossa nova. Eu fui criado com som pop. Chet criava e dava ao jazz preciosos solos melódicos. Tinha A, B, solo e voltava para ele cantando. Conduzia o jazz em formato pop. Não era improviso, que acho enfadonho”.

Tudo começou quando Nico foi fazer um show em uma casa de jazz, no Rio, e comentou com o guitarrista Fernando Clark sua obstinação.

Disse que poderia cantar e tocar o piano, Clark assumiria a guitarra, mas não conhecia um trompetista à altura. “Veja como são as coisas. Ele disse que um (Guilherme Dias Gomes) certa vez lhe contou de ter o mesmo sonho: Chet”.

O trio se reuniu do estúdio do trompetista. Fez algumas coisas e percebeu que daria, no mínimo, um caldo. Com a agenda pessoal lotada, nada aconteceu tão prontamente.

“Nas viagens para shows carreguei todo o material do Chet. Escutei, dei atenção aos arranjos originais, fui anotando, reescrevendo, aprontando o material. Na volta ao Rio, reuni uma banda e fizemos algumas apresentações, apenas pelo prazer pessoal (é legal também ser livre das nossas coisas para interpretar as dos outros) de tocar e cantar Chet. O público foi gostando, o boca a boca foi se alastrando e veio DVD”, explica. 

Nico revela que a seleção do repertório foi após muita pesquisa (Chet gravou cerca de 100 músicas). Selecionou 30 e para o DVD entram 17. “Estão ali o essencial dele, o mais representativo dessa forma do Chet Baker ser, cantar e tocar. A vontade, agora, é gravar um vinil para colecionadores”.

Quarteto que acompanha Nico também é fã do homenageado (Foto: Maria Helena Melo/Divulgação)

O curioso, até para Nico, é que a cada apresentação o público é, cronologicamente falando, diversificado. Há idosos, contemporâneos seus (Nico tem 57 anos) e muitos jovens. “A internet tem essa facilidade de se encontrar quase tudo. Os jovens se encantaram (e cantam) pelas obras do Chet, como eu, lá atrás. É como um garoto descobrir The Beatles. Um ciclo que vai se renovando e garante a perenidade aos artistas e suas obras”.

Atribulado. É dessa forma que Nico se define. O desafio? Controlar o relógio, fracionar o tempo entre os shows com obras de Chet, as suas, os compromissos publicitários e a vida pessoal. Haja fôlego.

“Componho letras, músicas, trilhas sonoras para peças publicitárias e filmes de cinema. Também é uma paixão. Antes de pensar em ser artista, em São Paulo eu já trabalhava em uma agência de propaganda”.

Um mercado, aposta ele, que, mesmo em crise, se consolida. Óbvio, não com os mesmos investimentos. “Pense em uma cena de filme, novela ou qualquer comercial sem som. Nem estou falando de música. Não dá nem para imaginar”.

Dividindo seu conhecimento com o leitor, atualmente está crescendo a produção de sound blend, marca sonora.

Geralmente, fecha a peça publicitária, deixando a marca da empresa, sonoramente falando, em nossas cabeças. Três ou quatro notas. As mais famosas, no País, talvez sejam o plin plin e a chamada do Plantão, da Rede Globo.

“Quem começou foi a equipe do longa Contatos Imediatos do Terceiro Grau. As cinco notas usadas para se comunicar com os extraterrestres. Som conhecido mundialmente”.

Outro recurso, mas notadamente um pouco deixado de lado, é o jingle. Nico fez mais de 100. E revela que às vezes ele escuta alguém na rua assoviando um dos seus.

“É muito legal. Pega. Vira chiclete. Por outro lado, um pouco louco. Você fica feliz e pessoa não tem a menor ideia que fui eu. Nos comerciais não aparecem créditos...”

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