'Blade Runner 2049' é o universo cyberpunk em desencanto

O clássico de 1982, de Ridley Scott, e sua nova versão, de Denis Villeneuve, constroem um aterrador cenário futurista

23/10/2017 - 10:53 - Atualizado em 23/10/2017 - 11:04

Ryan Gosling em cena da nova versão do clássico, "Blade Runner 2049" (Foto: Divulgação)

A ficção científica é o gênero cinematográfico mais admirado e, ao mesmo tempo, o mais desprezado de todos. Admirado, porque é onde os principais avanços técnicos e narrativos acontecem. E desprezado, porque o público costuma valorizar esses avanços pela novidade, e deixa todo o resto – as histórias complexas, as implicações filosóficas e o pessimismo inerente – para os nerds.

"Blade Runner", o filme que o diretor inglês Ridley Scott realizou em 1982, tem todos os motivos para ser admirado. A história complexa, as implicações filosóficas e o pessimismo inerente, mais o visual espetacular, a trilha sonora marcante, e atuações que definiram carreiras.

Harrison Ford em cena com androides, no longa original de 1982 (Foto: Divulgação)

Scott fez tudo isso e ainda redefiniu as regras da ficção científica como narrativa pós-moderna – a mistura globalizada de culturas antes que isso fosse a norma, o enredo cheio de reviravoltas de policial noir, o futurismo retrô, o fim de toda e qualquer utopia.

Do começo ao fim, "Blade Runner" é a atualização lógica do "Metropolis" de Fritz Lang. O diretor alemão estabeleceu, ainda em 1927, as bases para todas as visões do futuro que viriam a seguir no cinema. E, na prática, antecipou os efeitos especiais, o cenário e todos os elementos temáticos do filme de Scott.

Ambos apresentam cidades que são maravilhas tecnológicas no alto e infernos low tech no chão. E onde os personagens são atormentados por conflitos de identidade, num mundo em que a diferença entre homem e máquina é tudo, menos clara.

Esses conflitos são levados às últimas consequências na continuação do longa-metragem de Scott, "Blade Runner 2049", dirigida pelo excelente Denis Villeneuve ("Incêndios", "A Chegada"). Os dois filmes, mais o livro "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?", do escritor Philip K. Dick, de onde a história foi adaptada; e a versão anime de "Ghost in the Shell" ("Blade Runner" em tudo, menos no nome) formam um dos cenários mais brilhantes da ficção científica contemporânea, e talvez o mais instigante, do ponto de vista existencial.

Quem (ou o que) é Rick Deckard? Essa questão em torno do personagem que transformou Harrison Ford num ator a ser levado a sério foi o pivô de várias mudanças no filme pronto, que resultaram em nada menos que três versões dele: a original, de 1982 (com um final 'Spielberg'); a do diretor, dez anos depois; e a definitiva, de 2007 (ambas com o fim pessimista que Ridley Scott queria).

"Blade Runner 2049" não só retoma essa questão central, como se vale de twists inteligentes para estabelecer sua premissa principal, a de que o próprio homem, num processo de desumanização permanente, abre caminho para novas definições do que é ser 'humano'. O sentido desse fim de linha da evolução é ilustrado pela maior coleção de paisagens desoladas e cidades inabitáveis já vistas num único filme.

Há 35 anos, Harrison Ford era um policial assombrado por origamis de animais mitológicos que caçava um bando de androides renegados, soltos numa Los Angeles onde nunca se via o sol. Agora, um robótico Ryan Gosling é um policial em busca da resposta para o enigma genético definitivo. 

Os caminhos de ambos se cruzam no mesmo universo cyberpunk onde hologramas de esposas perfeitas e intermináveis reprises de shows bregas de Elvis Presley são a cura para a solidão. 

Cenário futurista do filme "Metropolis", de Fritz Lang,
que influenciou "Blade Runner" (Foto: Divulgação)

"Metropolis" perguntava se havia esperança para a humanidade dominada pela máquina. E mostrava que a resposta estava no próprio homem. 

"Blade Runner" questiona se a esperança para os seres humanos está na máquina. E responde com outra pergunta: o que é ser humano, afinal?

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