As regras do roubo: La Casa de Papel faz sucesso extraindo clichês de filmes de assalto

Produção espanhola da Netflix é uma das principais apostas da temporada

19/03/2018 - 12:59 - Atualizado em 19/03/2018 - 13:09

Impossível não se lembrar de vários filmes de ação ao assistir La Casa de Papel (Foto: Divulgação)

Joe, o gangster veterano de Cães de Aluguel, sabia a regra básica dos assaltos cinematográficos. Primeiro, os negócios. Depois, a diversão. Mesmo assim, Joe se dá mal na estreia de Quentin Tarantino na direção, porque há um imperativo ainda maior nesse tipo de filme: regras têm de ser quebradas a qualquer preço. Os ladrões, em algum momento, terão de pôr todo o plano infalível a perder – ou por conta de sua própria incapacidade de se enquadrar nos compromissos mais elementares, ou porque são tontos a ponto de acreditar que planos infalíveis existem.

A série La Casa de Papel se tornou um grande sucesso na Netflix seguindo à risca todas as convenções testadas e aprovadas dos filmes de roubo. A produção espanhola não deixa de fora nenhum clichê, nenhum desenvolvimento previsível da trama, só que faz tudo isso piscando para o público. 

O autor da série, Álex Pina, não só tem consciência de que cada recurso que pegou emprestado de outras histórias será reconhecido, como em alguns momentos cita, explicitamente, a fonte de inspiração. Quando os criminosos se confrontam, apontando armas uns para os outros, a referência a Cães de Aluguel é óbvia, mas um deles tem o cuidado de lembrar que aquilo não é um filme do Tarantino, caso a audiência tenha alguma dúvida. 

La Casa de Papel usa suas influências para construir um conto pós-moderno típico. É um filme de assalto no qual os personagens são conscientes das obras que fizeram desse um dos subgêneros mais eficientes do cinema policial. 

A quadrilha usa máscaras não porque isso tem, de fato, alguma grande importância no enredo, mas porque é o recurso mais manjado de todos os tempos, desde o ‘noir’ Os Quatro Desconhecidos (1952), até O Plano Perfeito (2006), de Spike Lee (de onde foi tirada a ideia dos reféns misturados com os bandidos), passando por Caçadores de Emoção (1991). E porque dá margem ao tipo de discussão inútil e, por isso mesmo, divertida que Tarantino inventou, também em Cães de Aluguel, sobre cultura pop. 

Por que máscaras (que a série tornou icônicas) de Salvador Dalí? Quem é Salvador Dalí?, pergunta um dos assaltantes. Que outras máscaras de pintores famosos o bando vai usar?, tentam adivinhar os policiais. Outro espanhol, como Goya e Velázquez? Ou o americano Andy Warhol, das latas de sopa Campbell’s?

Nada disso, claro, tem a ver com a história em si, que trata de uma tentativa rigorosamente inverossímil de roubo ao que seria a Fábrica Nacional de Moneda y Timbre da Espanha. A ação é planejada nos mínimos e impossíveis detalhes por um suposto gênio do crime conhecido como Professor. 

Sim, todo os integrantes do grupo são identificados só por apelidos que se referem a nomes de cidades, mesmo depois que isso deixa de ter qualquer função prática. Não importa. É mais um efeito Tarantino, que identificou seus ladrões em ‘Cães de Aluguel’ apenas por cores.

A série respeita, acima de tudo, um mecanismo fundamental dos filmes policiais. O roubo em si não passa de um pretexto engenhoso para justificar o conflito entre os personagens. 

La Casa de Papel jamais se desvia dessa premissa de ouro. Coloca um grupo de desajustados numa situação que precisa ser controlada por leis que eles são incapazes de seguir, e extrai toda a (melo)dramaticidade possível dos conflitos inerentes a esse ponto de partida. 

O fato de cada desdobramento ter uma solução forçada para acomodar a continuidade da trama (quando um personagem precisa saber falar uma língua estrangeira pouco convencional, o roteiro não hesita em fazer com que ele fale tão bem quanto um nativo) é um detalhe irrelevante perto da tensão e do ritmo com que a ação é conduzida. Esse é o principal mérito de La Casa de Papel, fazer com que o público releve todas as inúmeras falhas lógicas num enredo propositalmente complicado – lição aprendida com o brilhante Os Suspeitos (1995), de Bryan Singer.

A segunda temporada da série estreia dia 2 de abril, aproveitando o impacto da primeira, que chegou em dezembro e ganhou força sem nenhum grande esforço promocional da Netflix. Esse sucesso é saudável. Um olhar diferente como o europeu (ou sul-americano, ou asiático), representa no mínimo um desejável indício de diversidade estética. Mesmo quando os autores prestam tributo às suas fontes de inspiração, garimpadas direto do coração da indústria cinematográfica.

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