Antunes Filho estreia peça de Jean-Luc Lagarce em São Paulo

Depois de apresentar a peça no 5º Mirada, diretor fica em cartaz no Sesc Consolação

21/09/2018 - 11:46 - Atualizado em 21/09/2018 - 11:59

Antunes Filho ficou encantado com a beleza da escrita de Lagarce (Foto: Bob Sousa/Divulgação)

Pelas suas mãos passaram grandes atores como Eva Wilma, Raul Cortez, Giulia Gam e Luis  Mello, assim como textos de grandes autores, de Eurípedes e Shakespeare a Lima Barreto e Nelson Rodrigues. Aos 88 anos de idade e mais de 60 de carreira, Antunes Filho é um desses 'nomões' do teatro,da mesma geração de Zé Celso Martinez Corrêa, mas no extremo

oposto ao dionisíaco diretor do Teatro Oficina: Antunes, do CPT, é cerebral, metódico, mas

sem deixar de ser entusiasmado e provocador. 

Antunes (leia, abaixo, entrevista com o diretor) participa do Mirada – Festival  Ibero-Americano de Artes Cênicas desde 2010, quando apresentou, em primeira mão, sua

adaptação para o livro "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.

Na quinta edição do festival (que foi do dia 5 ao 15), o diretor estreou nacionalmente,

ontem, sua adaptação do texto do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce (1957-

1995): "Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse" ("J’étais dans ma maison

et j’attendais que la pluie vienne"), escrita em 1994. 

O texto, já traduzido para o português, foi apresentado ao diretor do CPT por uma das atrizes do grupo. Encantado pelo que chama de “nova dramaturgia”, Antunes decidiu montar

aquele texto poético, cheio de monólogos e lacunas, num embate que durou um ano.

Na peça, cinco atrizes se revezam em cena. Quatro delas (uma mãe, suas duas filhas e uma anciã) representam mulheres de uma mesma família, à espera do caçula que é expulso de casa, após uma briga com o patriarca. Cada mulher narra a história à sua maneira.

O espetáculo entra em cartaz, nesta sexta (21), no Teatro Anchieta, do Sesc Consola-

ção (Rua Doutor Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo), onde fica até 16 de

dezembro. Ingressos a R$40,00.


Leia entrevista com Antunes:

"Eu adorei e embarquei na nova dramaturgia com esse texto"

Inquieto e entusiasmado. Estes foram os adjetivos que a jovem assistente de direção Luana

Frez usou para descrever o diretor Antunes Filho, em entrevista para A Tribuna. Ela o ajudou

no processo de montagem do texto de Jean-Luc Lagarce, e garantiu que foi uma experiência

intensa e muito compensadora realizar este trabalho com ele. Antunes também falou com

a Reportagem e demonstrou muita alegria por ter conseguido finalizar este que foi um dos

textos mais desafiadores de sua carreira. Leia entrevista com o diretor:


Em meio a tantas peças que falam de ditaduras, colonialismo e revoluções no 5º Mirada,o

senhor vem falar de esperança. Por quê?

Mas eu falo de esperança mostrando uma cultura estranha, que estamos vivendo de novo,

que é a do patriarcado.(pausa) Mas eu não quero explicar a peça. Cada um que assisti-la

vai criar sua narrativa particular. Cada espectador tem que ser detetive. Isso é que é interessante na nova dramaturgia. Lagarce é um dos autores franceses mais representados na França e fora dela, e não o conhecemos praticamente. Ele nos mostra que precisamos nos habituar a ver as coisas com outros olhos. É um outro tipo de dramaturgia. Não é aquele teatro de causa e efeito.

Soube que este texto o desafiou muito como diretor. Em que sentido?

Desafiou-me muito, terrivelmente! Fiquei uma no montando e remontando essa peça. Eu

a refiz umas três ou quatro vezes. Ela é feita de grandes bifes. Sabe o que é bife em teatro?

São os diálogos feitos de grandes monólogos, que costumamos chamar de bifes. Ele (Lagarce) não dá nome a personagens, não revela onde a ação se passa e como passa. Ele não dá uma colher de chá! Não tem indicação de nada. Você tem que se matar com bifes enormes para cada ator. Cada um pega a palavra e blá, blá, blá. Mas é encantador o que Lagarce faz. Tem algo de Shakespeare nele. Foi isso que me fez montar a peça, pela maravilha que é a escritura dele.


Como descobriu esse texto de Jean-Luc Lagarce?

Deram-me para ler. Eu li, adorei e embarquei na nova dramaturgia por meio desse texto. É encantador. É envolvente. Agarra o espectador e vai levando-o com a palavra. O autor

trata bem o ser literário. Mas trata de maneira seca. Seu texto é vinho seco, não é vinho doce não! 


É para paladares exigentes?

Todo mundo tem paladar exigente, mas tem que descortinar, cutucar.Se você descortina,

aguça, a pessoa mostra que tem paladar apurado. Não é uma peça difícil. Cada um vai interpretando do seu jeito e isso é que é legal. Lagarce mostra que todo mundo é

artista,como dizia Duchamp. 

De que maneira?

Quando o espectador tem que preencher as lacunas do texto, pois a peça se faz nos

intervalos e no final. Fico contente em não ter desistido desse texto. Lagarce usa muito o

recurso dos três ‘x’ entre parênteses, indicando que devemos preencher aquelas lacunas

com a imaginação. 

Como o senhor resolveu essas lacunas na montagem?

Fiquei louco! Estava quase indo para o hospício. Não é possível! Fui cutucando e cutucando

eu achei. Dá samba isso! Cutucando eu achei!

Veja Mais