Allison Janney fala sobre sua incrível caracterização para 'Eu, Tonya'

A atriz norte-americana vive a mãe durona da patinadora no gelo Tonya Harding, no filme

17/02/2018 - 16:02 - Atualizado em 17/02/2018 - 16:22

A atriz de 58 anos recebeu quatro Emmys por seu papel em "The West Wing" (Foto: divulgação)

Quem está acostumado com Allison Janney interpretando a secretária CJ Cregg na série "The West Wing" ficará surpreso om a transformação dela no filme "Eu, Tonya" ("I, Tonya"). No longa, que estreou quinta-feira nos cinemas. ela faz a mãe da personagem-título, LaVona Fay Golden, e está irreconhecível. Tal mudança lhe rendeu o Globo de Ouro e SAG Awards como melhor atriz coadjuvante. Aos 58 anos, é favorita na disputa do Oscar, que acontece em 4 de março. Em entrevista à Reportagem,ela falou um pouco sobre o seu papel, as influências e dificuldades em atuar em "Eu, Tonya". Acompanhe.


O que você sabia sobre Tonya Harding antes do filme?

Eu conhecia bem a história dela e de todos os envolvidos. Quando o incidente aconteceu, eu vivia em Nova Iorque e me lembro de ter sido um grande escândalo, que mexeu com todo o mundo da patinação no gelo, que sempre foi um esporte muito refinado. Simplesmente, não conseguiam acreditar que esse tipo de coisa (em 1994, Tonya Harding foi suspeita de mandar quebrar a perna de sua rival, Nancy Kerrigan) poderia acontecer nesse esporte. Fiquei fascinada com isso. Principalmente em ver como a imprensa classificou as personagens envolvidas como boas e más, uma vinda do lado pobre e a outra a princesinha da patinação no gelo, como se tudo fosse preto ou branco. Um escândalo que tinha competição, rivalidade e intriga. Venderam mais jornais.


Como criou a sua personagem?

Muitas coisas influenciaram a criação desta personagem, mas eu tenho que confessar que quem escreveu o filme foi um amigo meu, Steve Rogers, e por isso a personagem foi escrita especialmente para mim. Não deixa de ser engraçado que ele tenha criado este 'monstro' para mim. E chegou dizendo: “Sei muito bem que pode fazer o papel deste 'monstro'! (risos)”. Mas eu sei que ele entendia quem era aquela mulher e o que existia por trás daquelas técnicas horríveis de ser supermãe e que, certamente, escondiam alguma coisa que trazia dentro dela. Com a desculpa de que, para ser mãe, os fins justificavam os meios. 


Como abordou a personagem?

Eu tentei me impregnar da ideia de que queria que minha filha tivesse uma vida melhor do que a que eu tive. E também criar uma história de fundo de que, sem dúvida, LaVona veio de uma família abusiva e não teve uma infância maravilhosa. Steven escreveu para mim um ótimo monólogo no fim do jantar, em que eu digo que estava tentando dar a melhor vida que eu sabia à minha filha, sabendo muito bem que ela me odiaria por isso, mas eu teria tentado lhe dar algo que ela não aceitou. Não aceitou a oportunidade e arruinou-se por isso. Acabou cheia de raiva e ódio. Esse foi meu grande desafio ao fazer este papel: encontrar como eu faria aquela mulher horrível, que diz aquelas coisas terríveis para a filha. Eu precisava acreditar que era tudo para o bem dela, que eu fazia o melhor que podia. Enfim, essa é a versão de Tonya de sua mãe, com alguma licença poética por parte do roteirista Steven Rogers e eu também.

Allison, em cena do filme, como LaVona Fay Golden, mãe da atleta Tonya (Foto: divulgação)

Você acha que toda mãe que deseja transformar a filha em uma estrela, de alguma coisa, tem de ser cruel e uma péssima mãe?

Num certo aspecto até que é bom você ter alguém que vai ficar do seu lado, dizer o que tem que fazer. Aquilo que chamam de tough love (amor disciplinador), lembrando também que mães que tentam ser sua melhor amiga, às vezes, não são as melhores mães, Às vezes, os muito jovens não precisam de um bom amigo, precisam de uma mãe, alguém que os discipline mas sem chegar ao ponto em que chegou a LaVona. Eu tenho que acreditar que ela estava fazendo aquilo que achava que era melhor para a filha, que iria lhe dar uma chance de ter uma vida melhor e não se importava como iria conseguir aquilo. Foi uma coisa difícil para mim, mas eu tinha que acreditar 100% que ela fazia aquilo pensando no bem da filha e na oportunidade de fazê-la sair daquelas circunstâncias. E isso tudo é muito triste.

Como você criou o visual da personagem? Chegou a encontrar a verdadeira LaVona antes de rodar o filme?

Não tivemos o luxo de conversar com ela antes. LaVona não apareceu nos lugares onde filmamos. Bem que eu tentei, mas não consegui encontrá-la em lugar algum. Claro que, atualmente, ela tem um nome diferente, e foi por isso que não a achamos. Mas tínhamos cenas filmadas onde se via LaVona em casaco de peles com o pássaro, o penteado. Como ela tem uma aparência incrível, chamamos a nossa figurinista, Jennifer Johnson, que é tão brilhante, e ver o que ela podia fazer. Claro que tinha o tal do pássaro (que ficava pousado no ombro da personagem) porque eu me apaixonei (risos).

Como foi trabalhar com um pássaro no seu ombro?

Havia uma especialista em treinar pássaros que veio no dia anterior de rodarmos essa cena. Ela tinha quatro pássaros e eu fui conhecê-los. Mas foi o menorzinho, que eu coloquei no meu ombro, que parecia mais confortável lá, super à vontade e até se divertindo. Isso que me fez decidir e escolhê-lo com o meu parceiro (risos). Achei que, se eu ficasse olhando constantemente para ele, iria me deixar desconfortável. Por isso, resolvi ignorá-lo. E acabou sendo como se o pássaro me obedecesse e achasse tudo muito normal (risos), e o tempo todo ele ficou beliscando minha orelha (risos). Na verdade, eu adorei contracenar com o pássaro porque, às vezes, quando você está fazendo uma cena, se acha toda dona de si, importante. E esse pássaro simplesmente me deixou mais humilde, mais verdadeira.

É verdade que LaVona estava realmente gravando as conversas?

Isso é fato real. Tonya disse que sua mãe fez isso. Aconteceu na pista de patinação. Rodar essa cena foi realmente interessante para mim, porque era muito confusa com o que ela iria fazer. Era quando Tonya iria superar o recorde. Durante a cena, tive muito cuidado de ficar íntima e expressar o amor para sua filha. O interessante é que ela não se sente confortável fazendo isso, em expressar amor pela filha. Então, fez tudo de uma maneira manipuladora e, quando vai abraçar a filha no fim, sente-se desajeitada com o abraço. Ela é completamente desajeitada em dar um abraço. Com qualquer coisa física, como a proximidade de uma filha que a ama. Não sabe retribuir. E, em vez disso, vai para um gravador. Essa foi uma das cenas mais difíceis de interpretar. 

Como foi trabalhar com Margot Robbie?

Ela foi incrível. Fiquei tão impressionada com ela. Não tivemos muito tempo para rodar o filme. Foram 30 dias e 170 cenas, mas ela estava sempre disposta. A cena em que eu tenho que jogar a faca nela, ensaiamos apenas cinco minutos antes de rodar. Eu disse: ‘Querida, a gente tem que fazer de qualquer jeito’. Ela concordou, dizendo ‘Vamos lá, venha com tudo, não tenha medo!’ Sua coragem me permitiu enfrentá-la e fomos em frente. Todo mundo que estava no filme acreditava no roteiro e queríamos fazer o melhor possível. Todo mundo se dedicou ao máximo. 

Assista ao trailer:

Fonte: Paoula Abou-Jaoude, especial para A Tribuna, de Los Angeles
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