Ação entre amigos ergue um espaço cultural dedicado ao circo

Galpão no Estuário, em Santos, batizado de Porto Circense, e vai abrigar apresentações e oficinas

11/12/2017 - 10:19 - Atualizado em 12/12/2017 - 10:20

O novo espaço é gerido por coletivos como O Bando e Komboio Cultural (Alexsander Ferraz/AT)

Quem passa todos os dias ou mora na Rua Almirante Cochrane quase esquina com a Av. Mário Covas, no bairro do Estuário, em Santos, deve ter notado um movimento diferente naquele pedaço. Um grupo de gente jovem e madura, com um visual diferente, cabelos compridos, cavanhaque, tatuagem e roupas despojadas, entrando e saindo de um galpão no número 404. 

Dias atrás, eles foram vistos arrumando o entorno, cortando mato, varrendo e colhendo a sujeira alheia. Ganharam copos d’água gelada e agradecimentos dos vizinhos. “Tem um senhor japonês que passa as manhãs sentado na frente da casa. Ele contava nos dedos para o dia da abertura do espaço”, conta o artista Sidney Herzog, referindo-se ao Porto Circense, a nova casa do circo e do teatro de rua na Cidade.

A festa de inauguração do espaço começou no sábado (9) e continuou no domingo (10), com espetáculos, shows, brincadeiras e um cabaré de variedades do circo, com artistas nacionais e internacionais e apresentações na rua e dentro do Porto Circense. 

O espaço funciona num galpão de 520 metros quadrados, com dois pavimentos, pertinho do Cais. Foi erguido pelo empresário santista Mário Silva, com o objetivo de transformar o prédio num centro cultural. 

Desde outubro, o galpão está ocupado por dezenas de artistas independentes, dos grupos O Bando (circo) e Komboio Cultural (cênico-musical).

Mário Silva é empresário e ajudou a erguer o Porto 
Circense (Foto: divulgação)

“Eu era sócio de uma transportadora e usava o terreno de fundo do prédio para estacionar os caminhões. Quando desfiz a sociedade, aquele espaço ficou ocioso e eu tinha vontade de ocupá-lo com artes. Tenho um amigo, o Raphael Neves, que é produtor cultural. Ele me apresentou os artistas do circo”, conta Mário (leia mais abaixo).

Neves conheceu o empresário em 2014. “Mário era meu aluno de informática. Nossa amizade continuou e, um dia, ele me mostrou o galpão e contou sobre sua ideia. Escrevi um projeto e apresentei os artistas para ele”, lembra o produtor. “O Sidney também é meu amigo e eu sei da dificuldade dele e seu grupo em conseguir lugar para treinar e ministrar cursos. Apresentei o galpão para eles, que adoraram”. 

O envolvimento do empresário com os artistas foi além da oferta do espaço. Junto com o acrobata aéreo e integrante d’O Bando, Fausto Branco, Mario construiu uma estrutura de ferro para sustentar equipamentos de acrobáticos, como tecidos e argolas, que ficam instalados no segundo andar do galpão. Sustenta até oito artistas. “É o maior equipamento do gênero no Estado”, orgulha-se o empresário. 

Quando A Tribuna visitou o Porto Circense, na quarta-feira (6), o galpão estava movimentado, com artistas e aprendizes chegando para dar os últimos retoques na manutenção do espaço, antes da inauguração. 

“Hoje em dia, somos uma família. Não existe hierarquia. Tudo é decidido em grupo”, declara Neves.

Mais informações no Facebook (/PortoCircense) e no celular 99713-3593.

O sonho de seo Mário Silva

Filho de portugueses, santista, 60 anos, seo Mario, como é chamado, passou a infância entre Coimbra e Lisboa, em Portugal. Nunca perdeu o sotaque. Ex-integrante do Movimento de Ação Secundarista (MAS) dos anos 1970, sempre gostou de se envolver com atividades políticas e culturais em Santos. Com o Porto Circense, quer frequentar os cursos no local e dar vazão ao lado artístico. “Toco flauta e estou estreando como palhaço”, revela ele, que é formado em Engenharia Mecânica e gosta de construir coisas. Avô, quer ver sua netinha correndo pelo galpão que ajudou a levantar.

Fundação Settaport: apoio de peso

O Espaço Porto Circense também recebe apoio da Fundação Settaport, de Santos, que atua, há dez anos, na área da responsabilidade social. “Desenvolvemos projetos próprios. Nesse momento, temos 1,2 mil pessoas participando de nossos programas na área do esporte, qualificação profissional, geração de renda e meio ambiente”, explica a gestora responsável pelos programas, Naira Alonso.

Sidney Herzog mobilizou fundação com o seu 
trabalho voluntário (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Além dos programas, a fundação apoia iniciativas da sociedade civil. “O Porto Circense está sendo uma delas”, destaca Naira, que foi uma das pessoas responsáveis por fomentar a arte circense em Santos, há mais de dez anos. “Conheci o (artista d’O Bando) Sidney Herzog quando coordenava a Oficina Cultural Regional Pagu, quando implantei, no prédio da Cadeia Velha, a Primeira Escola Livre de Circo. O Sidney foi nosso aluno, ele e seu 'bando' construíram uma linda carreira nesse segmento”, conta.

Há mais de cinco anos, foi Sidney quem procurou a Fundação para oferecer aulas de circo, como voluntário, na Praça Rubens Ferreira Martins, no Estuário, numa quadra onde a entidade desenvolve atividade esportiva com jovens e crianças. “O filho dele, por coincidência, é nosso aluno”, comenta Naira, que vai se sentar com Sidney para combinar como serão as aulas de circo para as crianças atendidas pela Fundação, no Porto Circense. “Temos mais de 600 crianças. Oitenta são do Estuário. Esse espaço vai oferecer aulas mais elaboradas de acrobacia, aéreos (tecido, lira e trapézio), malabares. Também vamos colaborar com a infraestrutura e segurança do bairro, envolvendo empresas privadas e poder público”, promete ela.

Oportunidade

Wesley Gonçalves está desempregado e começou a 
fazer malabares (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

“Eu perdi um emprego de balconista e estou com muito tempo livre. Soube daqui por um amigo meu e venho pedalando todos os dias, de São Vicente. Estou ajudando em várias coisas e, em troca, aprendendo malabares” 

Wesley Gonçalves
22 anos, aprendiz


 


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