'A memória é uma forma de combate', diz diretora portuguesa

Joana Craveiro está, se apresenta nesta quinta e sexta, no 5º Mirada, em peça sobre ditadura

06/09/2018 - 10:42 - Atualizado em 06/09/2018 - 10:48

Cena do monólogo (Tuna TDV)

O incêndio que acabou com 20 milhões de itens do acervo do Museu Nacional, no último domingo, no Rio de Janeiro, será lembrado na peça "Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas", da diretora, dramaturga e atriz portuguesa Joana Craveiro, que se apresenta, nesta quinta (6) e sexta-feira (7), às 19 horas, dentro do 5º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, no C.A.I.S. Vila Mathias. 

“Vou fazer menção ao incêndio no meu espetáculo”, avisou ela, em entrevista para A Tribuna. Mas, na maior parte do espetáculo, Joana vai falar sobre outra tragédia: a ditadura salazarista, que durou 48 anos e levou 1,5 milhão de portugueses a saírem de Portugal, e só terminou com a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. 

A atriz conta que a montagem nasceu da vontade de refletir sobre memória e políticas da memória em Portugal. Ela ressalta que pensou nesse tema durante o período em que o país estava mergulhado na crise financeira, que durou de 2010 e 2014, e da qual ainda não saiu completamente.

“Foi um tempo em que Portugal estava mergulhado numa depressão, quando 300 mil jovens saíram do país para procurar trabalho no estrangeiro. Eu tinha começado meu doutorado em Londres e passei a refletir sobre a memória da revolução. Candidatei-me a conferências internacionais de história, para apresentar ensaios sobre as partes que compõem o espetáculo (que é feito de palestras performáticas)”, conta Joana. 

A atriz ressalta que queria abordar numa história que não tinha sido contada: a das pessoas comuns, indo além das narrativas oficiais de militares e políticos. “Essas memórias estavam ficando apagadas num tempo (de crise) em que não interessava lembrá-las”, reconhece ela.

Para Joana, refletir sobre a ditadura é importante, porque Portugal ainda não a superou: “Ainda somos marcados por isso, porque tudo está muito próximo no tempo. As gerações de meus pais e avós viveram a ditadura. Ainda encontramos traços dessa ditadura. Há uma cultura do medo e da vigilância. Também há muita ignorância e despolitização. São marcas que perduram”. 

"Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas" é um espetáculo com cerca de cinco horas, com intervalo em que o público participa de uma ceia com a atriz. O C.A.I.S. fica na Rua Rangel Pestana, 184. Os ingressos custam de R$ 15,00 a R$ 50,00, no site sescsp.org/mirada ou Sesc Santos, telefone 3278-9800.

Nesta quinta (6), também estão no Mirada o argentino "Topografias de Cuerpos Inconquistableis", no Doca Valongo (18h); o chileno "Nimby (nosotros somos los Buenos)", no ginásio do Sesc Santos (19h); o equatoriano "Funeral para la Ideia de un Hombre", no Teatro Guarany (21h); o mexicano "Del Manantial del Corazón", no Arcos do Valongo (19h); e o peruano "Mucho Ruido por Nada", no Coliseu (21h). 

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