A luta pela igualdade de gênero, no cinema, está só começando

As mulheres querem, além de homenagens, ver suas narrativas respeitadas dentro e fora da telona

08/03/2018 - 10:46 - Atualizado em 09/03/2018 - 09:52

Mulheres indicadas ao Oscar (Foto: Academia do Cinema/montagem do site Mulher no Cinema)

Neste Dia Internacional da Mulher, elas não querem apenas homenagens. “Acho importante que essa data exista, pois é um marco, mas fico preocupada por sermos lembradas somente nesse dia. Que as homenagens venham pelo nosso trabalho. Que consumam e falem sobre o que fazemos e sobre a nossa relevância para a sociedade”, defende a cientista social, pesquisadora e crítica de cinema Samantha Brasil. 

Com base nas premiações do Oscar 2018, no dia 4, mulheres do meio cinematográfico concluem que a luta contra a desigualdade de gênero no cinema ainda vai ser longa. 

As expectativas eram altas em relação ao reconhecimento do protagonismo feminino na sétima arte, mas os resultados decepcionaram: apenas seis mulheres receberam a estatueta (veja lista abaixo). Como observou a jornalista Luísa Pécora no site Mulher no Cinema, o 90º Oscar deixou um “gosto amargo” ao premiar três mulheres a menos do que no ano passado e metade do número alcançado em 2016.

“Esse número de mulheres não chega a significar nada especial, não é nem um terço da maioria. É puro preconceito masculino. Será medo de perder para elas?”, provoca o crítico de cinema de A Tribuna, Rubens Ewald Filho. 

Além disso, todas as ganhadoras (com exceção das atrizes) dividiram a vitória com colegas homens. 

Para Luísa, a cerimônia encerrou de forma “desastrosa uma temporada de prêmios que tinha sido eletrizante no que diz respeito às mulheres do cinema”. Afinal de contas, a expectativa era grande em relação a três boas notícias: pela primeira vez, em 90 anos, uma mulher, Rachel Morrison, disputava o troféu de Melhor Direção de Fotografia; Greta Gerwig era a quinta mulher a concorrer ao prêmio de Melhor Direção, e a primeira desde que Kathryn Bigelow ganhara a estatueta, em 2010 (por "Guerra ao Terror"); e Dee Rees era a primeira mulher negra a disputar Roteiro Adaptado.

Bem na fita

Iasmin Alvarez, de Santos, é diretora da Mostra
das Minas, que lança campanha (Foto: divulgação)

Produtora e criadora do festival Mostra das Minas - Mostra Livre de Cinema de Mulheres, em Santos, Iasmin Alvarez opina que o Oscar deste ano foi uma tentativa de “calar a boca das pessoas com indicações de consolação”. Para ela, até a indicação do "Lady Bird – A Hora de Voar" como filme dirigido por mulher (Greta Gerwig) foi um estereótipo, pelo contexto (passagem para a vida adulta de uma jovem em conflito com a mãe). 

“A real é que eu detesto a ideia do Oscar como referência, pois o prêmio é uma amostra de um cenário bem mais complexo, formado por uma elite masculina e branca. Eu adoraria ter uma fala mais positiva sobre, mas acho mais sinceras ações de festivais nacionais menores, porque agora existem muitas ações que são só ‘pra ficar bem na fita’”, critica Iasmin, que está lançando, hoje, campanha de crowdfunding no Catarse, para a realização da próxima Mostra das Minas.

Cineasta e professora de cinema do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), Raquel Pellegrini viu com otimismo a última cerimônia do Oscar: “Essa efervescência dos movimentos ligados à mulher e ao protagonismo feminino refletiu em Hollywood. A partir das denúncias de assédio, era importante que a indústria se manifestasse. Muita gente diz que a Academia tentou se aproximar das mulheres para minimizar os escândalos, mas tudo bem se for isso, porque é uma oportunidade das mulheres mostrarem que são tão capazes quanto os homens, seja na criação, na direção, na direção de fotografia ou na montagem. Isso acontece há muitos anos, mas antes não existia a voz, e hoje há”. 

Menor audiência

Porém, Raquel considera ser importante o cinema americano olhar essa questão de gênero de uma maneira mais profunda: “Existem mulheres talentosas nesse mercado, capazes de dialogar com grandes plateias de cinema”. Prova disso é a diretora Patty Jenkins, de "Mulher-Maravilha", que está fazendo uma revolução em Hollywood ao mostrar que uma mulher pode comandar uma produção de mais de U$ 100 milhões e produzir um blockbuster. 

Rubens levanta outra questão importante: diante da expectativa de uma festa engajada, a favor das minorias, dos negros, gordos, transexuais e das mulheres, esta foi a cerimônia de menor audiência de todos os tempos do Oscar. “Teve menos gente vendo porque representou tudo o que o americano médio não gosta e o presidente Donald Trump desmoraliza e faz piada”, declara o crítico.

Premiadas

>>Atriz

Frances McDormand, por "Três Anúncios para um Crime"

>>
Atriz coadjuvante

Allison Janney, por "Eu, Tonya"

>>
Cabelo e maquiagem

Lucy Sibbick, por "O Destino de uma Nação" (prêmio em parceria com Kazuhiro Tsuji e David Malinowski)

>>
Animação

"A Vida é uma Festa", produzido por Darla K. Anderson (prêmio em parceria com o diretor Lee Unkrich)

>>
Canção original

"Remember Me", composta por Kristen Anderson-Lopez (prêmio em parceria com Robert Lopez)

>>Curta de live-action

"The Silent Child", escrito por Rachel Shenton (prêmio em parceria com o diretor Chris Overton)

Fonte: site Mulher no Cinema

Antropóloga defende políticas

A carioca Samantha Brasil defende narrativas próprias das mulheres no cinema (Foto: divulgação)

Samantha Brasil tem contribuído bastante para o debate sobre a mulher no cinema. É curadora do Cineclube Delas, com foco no cinema realizado por mulheres; integrante das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema; do podcast Feito por Elas, que debate e divulga o cinema de diretoras; do canal A Lente Escarlate, que analisa filmes brasileiros; e colaboradora no site Delirium Nerd e no canal Sobre Elas.

Ela acredita que a pouca representatividade das mulheres não vai mudar só com a pressão social, por meio de movimentos internacionais de combate ao assédio sexual em Hollywood, como #meToo e Time’s up. “Eles não são suficientes para mudar uma cultura. É preciso ter algo mais impositivo, e isso vale para o Brasil, por meio de políticas que mobilizem esse quadro. Aqui, temos as cotas e, sem elas, seria impossível pensar em mudanças sociais”, exemplifica. 

Da cerimônia do Oscar, ela destaca o discurso emblemático de Frances McDormand, ao receber o prêmio de Melhor Atriz. “Foi o único discurso interessante daquela noite, que destacou o termo desconhecido cláusula de inclusão, pelo qual atores de maior peso na indústria podem pleitear a inclusão (de minorias) nos filmes”.

Para Samantha, o cinema é importante porque ajuda a formar nosso imaginário social e cultural. “As pessoas se moldam pelo que veem. O cinema reflete e constrói a realidade. É imprescindível às mulheres construírem suas narrativas sem serem pautadas por homens”.

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