"A grande maioria das pessoas não está bem consigo", diz filósofo

Entrevista com Tiago Amorim, que lança o livro "Por que não somos felizes?". pela Simonsen

16/11/2016 - 11:17 - Atualizado em 16/11/2016 - 13:55

O filósofo paranaense mudou-se para Portugal
em agosto deste ano (Foto: Divulgação)

Um livro aparentemente pequeno e com uma capa divertida guarda grandes reflexões acerca de um dos temas mais importantes da Filosofia: a felicidade. Mas o título, provocativo, lança uma questão amarga: "Por que não somos felizes?". 

A pergunta parte de observações, leituras e constatações do autor, Tiago Amorim, com base em suas aulas e atendimentos individuais como filósofo. Segundo ele, de maneira bem genérica e resumida, as pessoas estão infelizes porque fizeram escolhas importantes na vida sem escutar o eu substancial, aquilo que são de verdade, lá no fundo, e são condenadas a suportar uma existência infernal (termo retirado do livro). 

Suas ideias são baseadas em dois filósofos espanhóis, Julián Marías e José Ortega y Gasset, que ajudaram a tirar a Filosofia do abstracionismo em que estava, nos anos 1940 e 50, e trazê-la de volta à vida cotidiana. 

Amorim, que tem 33 anos, nasceu em Telêmaco Borba, no Paraná, e se mudou para Curitiba, onde se formou em Direito, com especialização em Psicopedagogia. O estudo da Filosofia foi fora da universidade, em cursos de extensão. Hoje, faz mestrado em Antropologia no Instituto Universitário de Lisboa, onde mora com a mulher e dois filhos. Seu site é avidahumana.com.br

Por que decidiu escrever sobre felicidade a partir do ponto de vista de que não somos felizes?

Essa ideia vem de uma percepção da realidade e da minha leitura de mundo. Também parto do princípio de que não somos felizes baseado em meu trabalho de atendimento realizado no Brasil e agora em Portugal. Atendendo a homens e mulheres que buscam um sentido para a vida, percebi que a grande maioria das pessoas não está bem consigo, com suas escolhas, com o caminho que está trilhando. A maioria tem uma espécie de urgência interior para fazer algo a respeito, mas alguns desistem e se acostumam a uma vida inferior, a uma existência infernal sobre a qual falo no livro. 

O livro aborda a eterna busca de si mesmo. Ser feliz é saber quem somos?

A tese do livro é essa, felicidade é a posse de si. Mas como chegamos a essa posse? Há diversos meios de saber quem você é. Felicidade não pode ser confundida com estados passageiros de alma, como alegria. Felicidade tem algo de mais permanente, mas não quer dizer que uma pessoa seja feliz ou infeliz sempre. É resultado de um balanço e tem a seguinte equação: o quanto eu conheço de mim mesmo, se esse conhecimento confere com a realidade e se as escolhas que fiz, ao longo da vida, respeitaram e atenderam aos anseios desse eu substancial, do que sou lá no fundo. 

Então, ser fiel a si mesmo traz felicidade?

Sim. Se na maior parte das vezes fui fiel a mim mesmo, então eu posso dizer que sou feliz, ainda que

O livro tem 168 páginas e custa R$ 39,90

tenha problemas financeiros, no trabalho ou com minha família. Pois isso são dramas da vida e ninguém pode achar que felicidade é ausência de drama. Um dos filósofos que mais cito no livro, Julián Marías, diz que felicidade é o impossível necessário, algo que você está constantemente buscando.

Em que momento uma pessoa se perde de si? Será que é ao assumir tantos papéis sociais ou ao deixar a infância?

A literatura é bastante fecunda na abordagem do paraíso perdido, desse paraíso existencial que se chama infância. Mesmo que uma criança não tenha a melhor infância do mundo, ela tende a colorir o que acontece com ela. Ainda que maltratada pela vida, é menos ácida na percepção da realidade. Tudo para ela é mítico e tem um lirismo que na vida adulta se perde, seja pelas amarguras, pelas experiências ruins acumuladas ou pela descoberta de possibilidades como as falsificações, que são a mentira, os enganos de si mesmo e dos outros e as maldades nas quais vamos nos tornando especialistas. 

Deixamos de ser felizes na adolescência?

As crianças têm envelhecido muito rápido. Uma criança de 11 ou 12 anos, hoje, já é velha, e a adolescência é justamente a fase de quebra com esse paraíso, como se fôssemos expulsos dele. É o momento em que se toma consciência de que o pai não é um super-herói, de que a mãe tem um monte de problemas e defeitos, de que as pessoas não são obrigadas a gostar da gente. A forma como reagimos a essas constatações pode definir muitas coisas na nossa vida adulta. 

Podemos dizer que perdemos a essência do que somos ao deixar a infância?

Quando somos criança, temos pouquíssimas dúvidas a respeito de nós mesmos. Podemos até mudar de ideias, como em relação à profissão, todo dia. Um dia quero ser bombeiro, em outro, médico ou dentista, mas a cada dia, falo com uma intensidade que só uma criança tem. Quem vê uma criança brincando, sabe o que estou falando. Ela está absorta naquela atividade. Quando nós crescemos, perdemos a capacidade de nos deixar absorver pelo momento, pela presença total. Permitimos personagens dentro de nós, a estar num ambiente e fingir que estamos gostando, a falsificar as relações.

A gente joga toda nossa energia no trabalho, tanto que respondemos quem somos por meio do que fazemos. Será que não reduzimos, assim, nossas fontes de felicidade?

É uma das grandes perturbações do homem atual, desde que o mundo mudou no sentido em que as pessoas passaram a se referir umas às outras a partir de sua função social. Eu, por exemplo, sou vocacionado a ensinar e não tenho a menor dúvida disso. Quando me apresento como professor, não estou falseando nada, porque dar aulas é um aspecto importante da minha vida. O problema é assumirmos trabalhos que não condizem com o que somos, seja por dinheiro ou necessidade. Daí o trabalho passa ser um tormento e a atuar contra o sujeito, que exerce um personagem das 8 às 18 horas e, no momento em que bate o cartão da empresa, se sente livre, que trabalha 11 meses esperando o 12º que são suas férias. Isso é de uma tristeza atroz.

As redes sociais virtuais nos definem ou colaboram ainda mais para a infelicidade?

Eu uso muito as redes sociais para divulgar meu trabalho e publicar pequenos textos. São bons instrumentos dependendo da forma que usamos. O problema é que as pessoas estão se projetando nisso. Facebook, Instagram, Snapchat projetam as piores coisas do nosso núbleo narcisístico, nossa vaidade, nossa forma farsesca de ser. Os perfis nas redes sociais são personagens que criamos, pois não consigo captar como substancial uma coisa que é definida como virtual. Se as pessoas vivem mais na virtualidade, elas perdem a intimidade com o mundo, com o suor das coisas, com a substância do que elas são.

Veja Mais