'A Forma da Água', uma fantástica história de amor

Filme de Guillermo del Toro chama atenção pela releitura do clássico 'O Monstro da Lagoa Negra'

01/02/2018 - 11:38 - Atualizado em 01/02/2018 - 12:34

Sally Hawkings faz o papel da faxineira Elisa, que se apaixona pela criatura (Foto: divulgação)

Acho que posso admitir que este é meu filme favorito dos indicados ao Oscar. Qualquer fã de ficção científica, fantasia ou terror é admirador do diretor mexicano Guillermo del Toro, que já foi indicado (como roteirista) por seu trabalho excelente no alegórico "O Labirinto do Fauno" (2006). À época, o filme levou os prêmios de maquiagem, direção de arte e fotografia, ou seja, Guillermo não levou nada!

No grupo de cineastas mexicanos, que parecem feitos para provocar o atual presidente norte-americano, Donald Trump, faltava justamente del Toro, que já ganhou dois Globos de Ouro: melhor diretor e trilha musical para o francês Alexandre Desplat. 

Mas acho importante relembrar alguns outros filmes dele, como o que o revelou, o terror mexicano "Cronos" (1993), o já americano "Mutação" (1997), o brilhante espanhol "A Espinha do Diabo" (2001), "Blade II – O Caçador de Vampiros" (2002), os legais "Hellboy" (2004) e "Hellboy 2" (2008), e os menos felizes "Círculo de Fogo" (2013) e "A Colina Escarlate" (2015). 

Pelo filme atual, ele ganhou o Grande Prêmio do Festival de Veneza e mais dois (um prêmio Digital e outro da Unesco).

Difícil é definir o gênero deste filme, que, para mim, tem certa semelhança com um monstro de minha infância, "Monstro da Lagoa Negra" (1954). Na verdade, uma criatura que lembra muito o protagonista deste filme, apelidado de "The Gill Man", inclusive por causa das cenas submarinas. Mas é certamente uma fantasia com toques de ficção científica, uma alegoria romântica que procura situar a ação ainda na virada dos anos 1940 e 1950.

As referências são obviamente as canções de época de filmes musicais, justamente dos estúdios produtores daqui a Fox, que comentaremos em detalhes mais abaixo. Afinal não é toda hora ainda que temos uma canção de nossa Carmen Miranda, que ouvimos cantar em off, Chic Chica Boom Chic! 

Curiosamente, embora seja uma love story com um monstro, não é a primeira vez que vemos cenas de nudez da mocinha, que, no caso, é muda e se expressa por sinais. Mas é a primeira vez que eu me lembro que um dito monstro do mar (na verdade, pelos diálogos ele veio do Amazonas!) tem um romance com a moça que seria latina chamada Elisa Esposito. 

Há um detalhe curioso: dizem que era Bruce Lee que dizia sempre que a água não tem forma (ou formato)! Isso pode explicar e ser a chave do filme, já que a sequência final deixa isso bem claro...

Há de se fazer antes de tudo o louvor com que é a textura da fotografia reproduzida e a cenografia com extremo cuidado em artefatos, figurinos, passarelas, uso de armas, e até preconceitos (numa lanchonete há a rejeição de um casal de negros e de um veterano artista, o ótimo Richard Jenkins, suspeito de ser gay!).

Para o papel do super-vilão, Richard Strickland, foi escolhido o virulento Michael Shannon, bom ator que agora está em todas. A melhor amiga da heroína recebeu interpretação da sempre simpática e eficiente Octavia Spencer! 

Atriz se destaca

É importante falar também da heroína, a inglesa Sally Hawkins, que passei a notar desde quando estrelou "Simplesmente Feliz", do grande Mike Leigh (2008). E que desde então fez Blue Jasmine, de Woody Allen, os clássicos "Grandes Esperanças" e "Jane Eyre", entre outros. É uma atriz que tem um estilo peculiar, mas que funciona especialmente bem aqui. Porque, como disse, é uma love story musical (há mesmo um número musical que ela estrela com dança e cenografia típica de Hollywood).

O resumo da história é o tradicional. Essa figura amazônica e anfíbia é aprisionada num misterioso lugar de pesquisas, onde passa a ser torturada (os russos, para complicar, também pensam em sequestrá-la). 

Elisa faz a faxina do lugar e o conquista oferecendo ovos e tratando-o com respeito (ao contrário do violento Richard, que chega a feri-lo). Naturalmente, a faxineira não poderá aceitar isso e tenta fugir com ele... Outra figura querida (ao menos eu simpatizo sempre com ela) é Octavia Spencer, que levou o Oscar por Histórias Cruzadas (2011) e depois foi indicada de novo por "Estrelas Além do Tempo" (2016), e agora por este "A Forma da Água", onde conquista o público por sua simpatia.

O filme se torna encantador, irresistível e romântico graças, principalmente, à trilha musical de clássicos (há também referências aos shows de televisão como "Dobbie Gillis"). O forte é envolver a trama com canções famosas e antigas, como "Babalu" (cantada por Caterina Valente), "You’ll Never Know", com Alice Faye, "Shenandoah" (famosa canção da Guerra Civil), "Betty Grable" (cantada e dançada no filme "Turbilhão", de 1943), "I Don’t Know Why", com o maestro Glenn Miller, Mr. Bojangles e Pat Boone. 

Há duas referências aos filmes em cinemascope, já no fim dos 1960, o que deixa a menção de data meio confusa. De qualquer modo são filmes da Fox, o bíblico "A História de Ruth" e o musical "As Noites de Mardi Gras", com Pat Boone. Tem até a marcha "Sempre Fidelis", a canção francesa de Serge Gainsbourg, a russa "Ochichornia" ("Olhos Negros"). E até mesmo a voz de Marilyn Monroe, em "How Wrong Can I Be"!

A verdade é que um filme desse gênero é um enorme risco. Ou você adora ou despreza. Eu fui capturado pelo monstro amazônico e pela love story tão fora do comum. Tomara que a Academia que o indicou para 13 Oscars também seja dessa opinião!

"A Forma da Água" ("The Shape of Water"). EUA, 17. Direção de Guillermo del Toro. 2h3min. Roteiro de Guillermo e Vanessa Taylor, baseado em historia de Guillermo. Com Sally Hawkins, Michael Shannon, Octavia Spencer, Richard Jenkins, Michael Stuhlbarg, Doug Jones e Morgan Kelly.

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