Cemitério Israelita de Cubatão será revitalizado ainda neste ano

Projeto prevê visitas guiadas ao local que guarda muitas histórias

08/02/2018 - 15:56 - Atualizado em 08/02/2018 - 16:22

A estrela de Davi na entrada indica que o local pertence ao judaísmo (Foto: Rogério Soares/AT)

O Cemitério Israelita de Cubatão – o primeiro do gênero a ser tombado no Brasil como monumento de preservação permanente – passará por uma ampla reforma a cargo da Associação Cemitério Israelita de São Paulo – Chevra Kadisha. O objetivo: realizar visitas guiadas no local ainda neste ano.

O monumento, onde estão sepultados 55 polacas e 20 homens do leste europeu que viviam nas redondezas do Porto de Santos, fica em uma área do Cemitério Municipal de Cubatão isolada por um portão com inscrições da religião e a estrela de Davi. 

Para evitar que visitantes ingressem pela entrada geral do cemitério cristão, a intenção da Chevra Kadisha é solicitar à Prefeitura a abertura de um novo acesso por um portão a ser colocado no muro em frente à Rua José Vicente.

Autor do laudo técnico que levou ao tombamento do cemitério pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão (Condepac), o arquiteto Rubens Alves de Brito diz que os representantes da associação deverão anunciar ao prefeito Ademário Oliveira (PSDB) a intenção de valorizar a preservação da história do local e criar uma visita guiada. A ideia também é instalar um painel contando a saga das pessoas ali sepultadas. 

Brito, que preside o Condepac, explica que não haverá desfiguração da área tombada. A meta é divulgar a presença dos israelitas no Brasil.

Dos mais antigos

A história do cemitério judaico se confunde com a da presença judaica na Baixada Santista. Em 1929, a Associação Beneficente e Religiosa Israelita de Santos instalou o primeiro cemitério na área anexa ao antigo cemitério cristão de Cubatão, onde fica hoje a refinaria. 

No início dos anos 1950, os corpos sepultados tanto no cemitério cristão quanto no israelita foram removidos para as duas necrópoles erguidas lado a lado na Rua José Vicente.

Na área de 800 m² anexa ao cemitério municipal estão preservadas 75 lápides – 55 de mulheres e 20 de homens, em alas separadas. O túmulo mais antigo data de 1924, e o mais recente de 1966.

Em agosto de 2010, o cemitério foi tombado pelo Condepac, na época presidido pelo historiador Welington Borges, tornando-se o primeiro cemitério israelita do País a ser considerado patrimônio histórico.

História

A importância histórica está relacionada ao fato de que a maioria das mulheres e de homens de origem judaica, teria atuado na prostituição no cais santista. As chamadas “polacas” eram imigrantes do leste europeu. O levantamento (entre 1930 e 1967) foi realizado pela professora de História da escola Usina Henry Borden e da escola estadual Afonso Schmidt, em Cubatão, Evânia Martins Alves.

O estudo indica que um véu de mistério encobre parcialmente a história dos judeus na Baixada Santista, marcada por episódios como o da máfia que agia no tráfico de mulheres brancas judias, destinadas à prostituição, as chamadas polacas. 

Elas e os cáftens (donos dos prostíbulos), bem como os suicidas, eram enterrados em locais específicos. Um deles era o Cemitério Israelita, levado de Santos para Cubatão no início do século 20. A tese foi publicada na edição 72 (maio de 2000) da Leopoldianum, Revista de Estudos e Comunicações da Universidade Católica de Santos (UniSantos), segundo o site Novo Milênio. 

Evânia teve o interesse sobre o cemitério despertado ainda criança, ao ouvir as histórias contadas pela bisavó. “Registrar a presença dos judeus na Baixada Santista, através de um cemitério de polacas na cidade de Cubatão, era o meu objetivo, além de mostrar o estado de abandono em que (o local) se encontrava em 1991”, contou em reportagem publicada por A Tribuna. 

Cemitério guarda lápides de 55 polacas e 20 homens do leste europeu (Foto: Rogério Soares/AT)

Sepultados na Capital

Atualmente, os judeus falecidos na Baixada Santista são sepultados em cemitérios judaicos como o do Butantã ou da Vila Mariana, ambos em São Paulo.

A Chevra Kadisha – Associação Cemitério Israelita de São Paulo – é a instituição responsável pela administração dos cemitérios israelitas no Estado – dois na capital (Vila Mariana e Butantã), um no município do Embu e o outro de Cubatão. 

Também oferece serviço funerário para a comunidade judaica. Foi criada em 1923, três anos após a inauguração do primeiro campo santo judaico de São Paulo, o Cemitério Israelita da Vila Mariana. 

Até então, os judeus eram sepultados nos cemitérios municipais nas tradições da religião. Os despojos dos mortos, uma vez sepultados, não devem e não podem ser tocados, de modo que toda sepultura de um israelita deve ser perpétua, para que em tempo algum possa ser revolvido o lugar, retirados os ossos, ou nela ser feito outro sepultamento. 

Polacos

Dentre os cemitérios de polacos, os mais próximos da região (além do local em Cubatão) são um em São Paulo, o Chora Menino (desativado), e o de Inhaúma, no Rio de Janeiro – há ainda o registro de um em Salvador (BA), embora não haja cemitério israelita nessa cidade. 

Veja Mais