Vitória da Nigéria dá sobrevida a Jorge Sampoli e à Argentina

Equipe do contestado técnico precisa vencer e torcer por outro resultado para avançar

22/06/2018 - 18:59 - Atualizado em 22/06/2018 - 19:14

Sampaoli vem sendo fortemente criticado em seu país
(Foto: Juan Mabromata/AFP)

Jorge Sampaoli é o maior bielsista de todos. Fã confesso do estilo pessoal e de futebol de Marcelo Bielsa, o técnico assumiu a seleção argentina em junho do ano passado para superar o seu mestre. Se ainda tem chance razoável de obter isso, deve agradecer à Nigéria.

Os africanos recolocaram a equipe de Lionel Messi na briga pela classificação na Copa do Mundo com a vitória por 2 a 0 sobre a Islândia nesta sexta (22). A Argentina tem a oportunidade de evitar um vexame histórico: ser eliminado na fase de grupos do torneio. Algo que não acontece desde 2002.

O técnico naquele Mundial sediado por Coreia do Sul e Japão era Marcelo Bielsa. Ele tinha um elenco recheado de astros somado aos gols de Gabriel Batistuta e Hernan Crespo. Mesmo assim voltou para casa após empatar com a Suécia na última partida da chave, quando uma vitória asseguraria vaga no mata-mata.

Para avançar às oitavas de final, a Argentina terá de vencer a própria Nigéria na próxima terça, em São Petersburgo. Se a Islândia derrotar a Croácia, no mesmo dia, vai disputar com os sul-americanos a segunda posição do grupo D pelos critérios de desempate.

O primeiro é o saldo de gols. Não é o melhor dos mundos, mas é muito mais do que os argentinos pareciam destinados após a derrota por 3 a 0 para os croatas na última quinta, em Nijni Nvogorod.

Todos os jogadores, sem exceção, deixaram o estádio com o rosto da eliminação.

"É um trauma que não passa. Nós chegamos ao Mundial para sermos campeões. Havia time para isso. Sair tão cedo e daquela forma... Foi um pesadelo", confessa Batistuta, que disputava em 2002 sua última Copa do Mundo.

Aquela queda não afetou a adoração que o atual treinador da seleção sente por Bielsa. Um sentimento tão forte que na primeira vez que encontrou ídolo, ficou mudo. Não em sentido figurado. Sampaoli queria falar, mas as palavras não saíam.

Até Bielsa, apelidado de "El Loco" por causa de seu estilo e métodos pouco convencionais, achou aquilo muito estranho. "Ele é um visionário. Tudo o que implanta no futebol está vendo antes dos outros", elogiou Sampaoli.

Os resultados não importam. Porque o próprio Bielsa reconhece ser um treinador de poucos títulos. Seu discípulo é mais vencedor. Levou a Universidad de Chile ao título da Copa Sul-Americana de 2011, no que é considerado um dos melhores times do continente na década. Entrou na seleção chilena e a chegou à conquista da Copa América de 2015 sobre a própria Argentina.

Bielsa havia dirigido também o Chile e caiu nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2010 por 3 a 0 diante do Brasil. No torneio seguinte, em 2014, o mesmo aconteceu, mas com Sampaoli o time fez uma partida muito mais dura contra a então seleção de Luiz Felipe Scolari. Só perdeu nos pênaltis e depois de chutar uma bola na trave no último minuto da prorrogação.

Mas que ninguém diga a Sampaoli que ele superou Bielsa.

Não é apenas a El Loco que o atual treinador do selecionado argentino é ligado. Ele esteve no lançamento da escola de treinadores de Cesar Luis Menotti, campeão mundial de 1978, de quem volta e meia escuta conselhos. No caldeirão das rivalidades e vaidades pessoais do futebol do país, Sampaoli pende para o lado do "menotismo".

Assim como Bielsa já foi um dia, embora tenha conseguido escapar dessa pecha. É o oposto do "bilardismo", linha pragmática de Carlos Bilardo, vencedor da Copa de 1986 e vice em 1990.

Bilardo foi um dos maiores críticos da escolha de Sampaoli para dirigir a seleção na Copa do Mundo da Rússia.

Apesar da eliminação na fase de grupos, Marcelo Bielsa continuou no comando da Argentina e só saiu em 2004. Caso Sampaoli o iguale, há a promessa de continuidade do trabalho.

"Não importa que a equipe seja eliminada no início da Copa do Mundo. Jorge vai ficar. O ciclo dele vai até o Mundial de 2022", assegurou, antes mesmo da viagem à Rússia, o presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) Claudio Tapia.

Não deixa de ser irônico que uma das cobranças feitas a Sampaoli até agora é que ele abriu mão das próprias convicções. Falta-lhe acreditar no seu estilo de jogo e no esquema que crê ser o mais indicado para a seleção. Estaria ausente nele o espírito de loucura do seu mestre Bielsa.

Por causa da Nigéria, a Argentina e Sampaoli respiram aliviados e podem continuar vivos no Mundial. O que significaria ao treinador superar o seu ídolo mais uma vez.

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