Em busca de novos sorrisos

Projeto Caravana do Riso leva tratamento odontológico, e humano, a pontos distantes da Baixada

11/10/2018 - 19:54 - Atualizado em 11/10/2018 - 20:16

Onde a caravana chega, uma multidão se junta; as crianças se animam com o entretenimento (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Poucos segundos. O tempo crucial de hesitação entre os verbos observar e agir. A decisão que gera toda a diferença para quem faz e, principalmente, a quem recebe. Nesse grupo de amigos de Santos, não houve dúvida. “Resolvemos parar de reclamar e fazer a nossa parte. É muito fácil se esconder atrás daquelas frases prontas tipo ‘a sociedade está ruim mesmo. Que pena,ninguém se ajuda...’, e depois virar as costas e sair andando. Nos cansamos disso”.

O depoimento é da dentista Bárbara Garcia Lima, 27 anos. E resume a personalidade dos integrantes do projeto Caravana do Riso , que leva atendimento odontológico a áreas afastadas da Baixada Santista, como os bairros Quilombo, Caruara, Ilha Diana e Monte Cabrão, em Santos. Efetivo desde 2016, os voluntários garantem: em dois anos já receberam muito mais sorrisos do que sequer puderam dar. “É tão incrível, porque pra gente é algo muito simples. Um pequeno gesto. Mas na vida deles faz toda a diferença”.

Tudo pelo riso

O projeto, que faz uma ação a cada sete semanas, conta com 95 voluntários cadastrados. Por vez, participam de 40 a 50. “São muitos fixos. Outros, rotativos, que se alternam de acordo com o tamanho do evento”. Dentre os atendimentos oferecidos, o grupo prioriza situações emergenciais. “Ou a gente atende com o intuito de sanar a dor do paciente, idosos, crianças... Ou reintegrá-lo socialmente, como no caso de uma pessoa que não consegue arrumar emprego pela má condição dos dentes”. Ainda no início de setembro, a Caravana estacionou pela primeira vez no Morro da Mineira, região próxima ao Monte Cabrão, em Santos.

A turma chegou à moda antiga, batendo de porta em porta e chamando o povo para o Bar do seu Raimundo, onde emprestaram a estrutura de banheiros, cadeiras e mesas. “Muitas vezes, não dá para contar com redes sociais em bairros mais simples. Então, a gente vem uma semana antes, faz uma divulgação, conversa com as pessoas na rua e indica o local do atendimento. No dia,  relembramos todo mundo”.

No sábado do evento, um pequeno e curioso grupo de adultos, e outro, bem maior, de crianças, se amontoavam para conhecer a novidade. “Uma ideia muito boa. Se ajudar na minha prótese já fico feliz”, diz a dona de casa Damiana Feitosa, 50 anos. “Coloquei há um mês pelo sistema público, mas não deu muito certo”. Para a criançada, nem o  barulhinho do motor de alta rotação – aquele tão temido aparelho do dentista – tirava a graça do programa.

Que o digam as primas Brenda Silva Aragão e Raíssa Maria Silva Aragão, de 12 anos. “Não dá medo. E é ótimo que eles venham até aqui, porque nem sempre a gente tem condições de ir à Cidade para se consultar”, explica Brenda. Já Raíssa diz que a iniciativa pode inspirar mais ações como do tipo. “Se todo mês houvesse algo assim, também para cuidar do coração e diabetes, seria ótimo”. DEMOCRÁTICO A quem bate a vontade e faltamos conhecimentos odontológicos, muitos outros papéis podem ser ocupados no projeto além do de dentista.

“Temos advogados, administrador e se até um pessoal de Informática. É bem democrático”, afirma Bárbara. A recepção e animação da garotada ficou por conta da advogada Fernanda Sampaio, 27 anos, e do desenvolvedor Alexandre Cortez, 46 anos. “Não existem barreiras quando você se propõe a ajudar de coração”, diz Fernanda. “Só a satisfação de estar aqui e fazer algo para mudar a realidade de alguém que precisa mais do que nós... Isso é o mais importante. Esquecer um pouco dos nossos problemas e pensar no próximo”. Alexandre, dando vida ao palhaço Tio Cortez, acredita que a solidariedade é o que nos torna mais humanos.“Venho aqui para retribuir a alegria, a saúde e as coisas boas que Deus me concede. É uma sensação de transformar essas vidas”.

Próprio Bolso

Os atendimentos da Caravana não são tão frequentes quanto os voluntários gostariam, porque o investimento é pago por eles próprios. “Não somos formalizados como ONG ainda, nem temos qualquer tipo de incentivo. Às vezes, conseguimos descontos ou ajudas pontuais de lojas de material odontológico, mas nunca é uma certeza”, conta Bárbara. Algumas vezes por ano, o grupo realiza festas para arrecadar valores. “No último, levantamos R$ 2 mil.

Foi com esse dinheiro que viemos para o Morro da Mineira.Recentemente, também compramos uns equipamentos. “Agora, faremos um evento para cobrir o custo”. Mas nem os gastos desanimam o grupo.  Pelo contrário, estimulam a continuar acreditando que vale a pena. “Criamos páginas com o nome Caravana do Riso no Facebook e no Instagram para divulgar o trabalho e conseguir patrocínio”.

Quem é? Projeto Caravana do Riso

Oque é? Grupo de voluntários que visita bairros e comunidades distantes na Baixada Santista para tratamento odontológico

Onde é? www.facebook.com/caravanadoriso/

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