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Leitura abre portas para jovens do Camp de Praia Grande

11/10/2018 - 14:33 - Atualizado em 11/10/2018 - 15:25

Ideia é desenvolver o pensamento crítico, a cidadania e as expressões escrita e verbal (Foto: Rogério Soares/AT)

Nas  páginas do jornal, Everton Vinícius dos  Santos Martins, de 17 anos, descobriu um espelho refletindo a vida real. O menino rueiro,morador  da Vila Sônia , em Praia Grande, que não tinha o hábito de ler, percebeu que o conhecimento e a leitura crítica eram fundamentais para a sua vida. É como se a ficha tivesse caído e ele percebido que seria como escolher em que editoria iria estampar a sua história. A de alguns jovens de sua idade, já viu reproduzida nas páginas policiais. A sua, decidiu escrever para um perfil de sucesso.

Everton é um dos 300 jovens, entre 15 e 17 anos, atendidos pelo programa Reflexão em Ação, do Centro de Aprendizagem Metódica e Prática de Praia Grande (Camp-PG). A ideia é promover um espaço para leitura e debate,desenvolvendo o pensamento crítico, exercício da cidadania e a expressão verbal e escrita. “Eu não gostava de jornal. Depois que tive que ler aqui, comecei a gostar. Vejo que em muitas notícias poderia ser eu ali. Gosto de me imaginar naquelas reportagens de superação e estudo”, conta o menino.

Carmen Diaz Sterque Manzo é orientadora social e a responsável por desenvolver o projeto em sala com os estudantes. Segundo ela, assim como Everton, a maioria dos jovens chega sem interesse pelo jornal. Mas eles não demoram em perceber que o que leem tem impacto no dia a dia. E, a partir daí, começam a se interessar.

 “Nós percebemos uma mudança gigantesca. Eles conversam melhor, conseguem se expressar de forma mais clara. Até a postura fica diferente”. E a mudança, na opinião de Carmen, está diretamente relacionada ao conhecimento que eles vão construindo. Quando têm e sabem o que dizer, o peito enche, a coluna fica ereta e a voz sai mais firme.

Compreensão

Ela explica que, semanalmente,eles leem e debatem notícias de jornal. Muitas vezes, utilizam os editoriais para as atividades. E deixam claro as regras: é liberado discordar. “A gente deixa bem claro que eles não precisam ter o mesmo posicionamento. Aliás, o objetivo é bem diferente. A gente quer que eles coloquem sua opinião e argumentem”. E aos poucos, o que eles fazem com as notícias, vão fazendo no dia a dia, e entendendo melhor o que é bom ou não para suas vidas. “Eles ganham confiança, amadurecem”,conta.

Everton sabe bem disso. Com a ajuda do projeto e das outras atividades do Camp, mudou. “Eu vivia na rua e era bagunceiro. Na verdade, minha mãe me colocou aqui, mas eu não queria vir. Queria ficar com as minhas amizades na rua”.

Depois de tanta insistência dos funcionários do Camp, exemplificadas com notícias do jornal – tanto para o bem quanto para o mal – Everton percebeu que era a hora de virar a página.“Teve um orientador que chegou e disse que se eu continuasse, minha vida não iria pra frente. Vi que eles estavam certos. Agora dou muito valor para tudo isso. Tenho três irmãos mais novos e sempre que vejo meninos da idade deles, penso: vai para o Camp”, diz sorrindo o menino que,agora, trabalha e sonha em ser engenheiro mecânico.

Além dos jovens

Mas o impacto não é apenas para os jovens. “Eu lia no jornal sobre a realidade de algumas famílias que viviam com pouco ou passavam necessidade. Trabalhando aqui, fiquei cara a cara com essa realidade. Mas é extremamente prazeroso vê-los superando dificuldades, crescendo”, diz Carmen emocionada. “Há um aluno que hoje tem 38 anos. Encontrei com ele esses dias e ele me falou: ‘poxa, hoje eu leio jornal por sua causa’. Isso faz valer a pena”.

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