Vacinação dos adultos na Baixada Santista é insuficiente

Campanhas contra doenças até então controladas na região, a exemplo da febre amarela, têm baixa adesão

16/07/2018 - 14:40 - Atualizado em 16/07/2018 - 14:40

Fake news atrapalham as campanhas, que têm baixa adesão entre adultos (Foto: Irandy Ribas/AT)

O morador da Baixada Santista não está sendo displicente apenas com as vacinas de seus filhos. A situação também está preocupante quando envolve a imunização de adolescentes e até mesmo de adultos e idosos.

É o que se conclui dos dados disponíveis no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde, o Datasus. De acordo com as informações reunidas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), as doses que devem ser aplicadas em adolescentes, adultos e idosos também têm baixa adesão.

Segundo especialistas em imunização, o mais seguro para a saúde pública é quando as taxas de vacinação são superiores a 95% da meta. Na prática, o risco de transmissão das doenças é maior nos municípios que têm coberturas abaixo desse patamar.

Situação de atenção

Os números mais preocupantes envolvem a imunização contra doenças que eram consideradas controladas até pouco tempo, como a febre amarela. Para se ter uma ideia, apesar de todo o alerta por conta de mortes causadas pelo vírus, a cobertura tem sido mínima — 0,14% em 2015, 0,11% em 2016, 0,83% em 2017 e, neste ano, 7,04%, segundo o Datasus.

Para a biomédica Regiane de Paula, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), do Estado, a baixa adesão à vacinação contra a febre amarela se deve a uma onda de fake news. “Foi um fator ruim. A gente trabalha muito contra isso, mas falta informação”.

A vacinação contra a gripe começou em abril e teve sucessivas prorrogações. Apesar disso, desde o início de julho, o Estado alega que já ultrapassou a meta de imunizar 10,7 milhões de paulistas.

Fazem parte do público-alvo da campanha idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas (como diabetes e hipertensão), além de trabalhadores da saúde, professores, grávidas, puérperas (mulheres que tiveram filhos em até 45 dias) e indígenas. A Secretaria Estadual de Saúde admite que ainda é preciso vacinar 786 mil crianças e 150 mil grávidas, que seriam os grupos prioritários menos atendidos na campanha.

Sem cultura de prevenção

Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o pediatra Renato Kfouri, o contexto envolvendo a proteção contra a gripe tem dinâmicas muito complexas. “No caso dessa vacina, há uma relação muito íntima com a gravidade da temporada. Quando tem uma temporada de circulação de vírus com mais mortes, e mais mídia, o alcance é maior”.

De acordo com o profissional, em 2016, por exemplo, o País atingiu 90% da meta de vacinação em apenas três semanas. “Neste ano, nem em três meses. Para mim, o ser humano tem muito isso de só se preocupar em prevenir quando tem a sensação de risco, quando há o perigo”.

Contra a gripe

Diversas vezes postergada, a campanha de vacinação contra a gripe é considerada fundamental por médicos ouvidos pela Reportagem. Tudo porque a imunização reduz bastante o risco de adoecimento e de internações por conta de gripe.

Coordenadora da Vigilância Epidemiológica de Santos, a enfermeira Ana Paula Valeiras diz que há desinformação, apesar de meses de campanha. “Muita gente acha que a gripe é um vírus só. Outras que não vão tomar porque ficam doentes. São mais de 200 tipos”.

Além disso, ela argumenta que a vacinação é fundamental para diminuir a internação de pessoas que, mesmo vacinadas, vierem a ficar gripadas, sofrendo menos. Com a vacina, o número de hospitalizações que evoluem para o caso mais sério é muito menor”, aponta.

Segundo recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), a vacina de 2018 previne a população alvo contra o vírus Influenza tipos A (H1N1 e H3N2) e B. Por isso mesmo, é possível que o indivíduo seja imunizado e, ainda assim, venha a ficar gripado.

Aliás, esses vírus são considerados causadores de versões mais severas da doença, que podem evoluir para casos mais graves, sobretudo nas pessoas mais vulneráveis. Entre elas estão os idosos, quem convive com doenças crônicas, com enfermidades respiratórias, gestantes, crianças e mães de partos recentes.

O último boletim do Ministério da Saúde aponta que, até 6 de julho, foram registrados 4.226 casos de influenza em todo o País, com 745 mortes. Do total, 2.538 casos e 495 óbitos foram por H1N1. Em relação ao vírus H3N2, foram registrados 889 casos e 127 mortes. Além disso, foram 317 registros de influenza B, com 44 mortes contabilizadas.

Até 30 de junho deste ano, foram notificados 1.370 casos paulistas, atribuíveis ao influenza e 243 óbitos. Somente neste ano, na região da Baixada Santista foram registrados 15 casos e seis mortes. Não há qualquer anormalidade em relação à gripe segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

E até contra o câncer

Uma vacina contra o câncer de colo do útero. Só de ouvir falar em doses de uma pequena injeção que sejam capazes de atuar contra o câncer, os olhos brilham de esperança. Esse não é um assunto do futuro. A imunização já existe e está sendo ignorada pela população.

Inserida no calendário oficial de vacinação em 2015, a vacinação contra o vírus HPV é uma das que têm a menor adesão do público-alvo. Atualmente, a vacinação é recomendada para meninos e meninas.

No público feminino, o início da vacinação é aos 9 anos. No masculino, a recomendação é a de vacinar meninos de 11 a 14 anos. Para a Secretaria de Estado de Saúde, a baixa adesão à vacinação contra o HPV é resultado da falta de informação por conta de eventos adversos esporádicos de reação à vacina — a cobertura não atinge nem 3% da meta.

Sem citar o nome de Bertioga, a diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica estadual, a biomédica Regiane de Paula, lembra de garotas que alegaram reação à vacina. “Quando foi introduzida, esses eventos foram importantes, porque a imprensa deu bastante enfoque. Isso causou um dano muito grande e, por isso, as coberturas são baixas. Leva um tempo para poder reparar o que aconteceu”.

Ela considera que o fato em Bertioga funcionou como “rastilho de pólvora”. “Depois, ficou claro que não houve nenhuma reação. É uma questão cultural. A vacina é uma prevenção ao câncer do colo de útero, que é um dos que mais matam mulheres no País”.

Desinformação

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o pediatra Renato Kfouri, explica que há outro rumor atrapalhando. Como o HPV é transmitido por via sexual, há quem tema a vacina por isso. “É uma vacina que é contra o câncer e as pessoas se preocupando em não se vacinar por causa de sexo. Se for nessa linha, nenhum bebê seria vacinado contra hepatite B no momento do nascimento. É uma desinformação grande”.

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