Três em cada quatro que atentam contra a vida são jovens

Estudo da OMS aponta que a taxa de suicídio entre 15 e 29 anos cresceu 10% em uma década no País

05/03/2018 - 08:00 - Atualizado em 05/03/2018 - 20:59

Tratado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como epidemia de proporções globais, o suicídio avança de forma avassaladora entre os jovens. Estudo da entidade revela que três, em cada quatro pessoas que atentam contra a própria vida têm de 15 a 29 anos. De assunto velado a tema de série, a taxa de suicídio nessa faixa etária disparou 10% em uma década no País.

Diversos motivos podem levar adolescentes e jovens a querer interromper a própria vida, e não apenas causas emocionais. Uma explicação pode ser alterações bioquímicas no circuito cerebral de “recompensa”. Essa descoberta faz parte do estudo feito no Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp). E serviu de tema da tese de doutorado do médico Pedro Mario Pan, sob a supervisão do professor Rodrigo Bressan. “Um adolescente com depressão pode perder a vontade de fazer suas atividades e a capacidade de sentir prazer, sintomas centrais desse transtorno mental”, diz Pan.

A amostragem abordou 750 crianças e adolescentes com idades entre nove e 16 anos. Elaborado a partir de exames de ressonância magnética, o estudo identificou alterações da conectividade no circuito cerebral de recompensa de crianças e jovens. A perda foi associada a casos de depressão após três anos de acompanhamento clínico. “Esse quadro pode potencializar, no futuro, casos de suicídio”, afirma.

Pan explica que as mudanças foram encontradas em uma região no cérebro responsável por integrar e processar informações cotidianas sobre recompensas e motivação – chamado de estriado ventral. Essa área é ativada com estímulos de prazer, seja comer um chocolate ou realizar uma atividade esportiva. “Quando um adolescente perde o interesse em ações que antes se sentia bem, como praticar esportes, se encontrar com amigos ou jogar videogame, os pais devem acender o sinal de alerta”, aconselha.

Pan afirma retomar o trabalho acadêmico com o mesmo grupo de jovens. A ideia é avaliar como eles se comportaram após a conclusão do ciclo inicial dos estudos. “Se confirmada a linha de pesquisa, os resultados podem ajudar a identificar o risco para depressão antes mesmo do início dos sintomas. Trata-se de um passo para alcançarmos a prevenção no campo da Psiquiatria”, garante.

O tema é tratado pela Organização Mundial da Saúde como uma epidemia. (foto: Shutterstock)

Obesidade

Outra tese de doutorado ideou que o aumento da concentração de leptina no sangue pode ter relação com a ocorrência de sintomas depressivos em adolescentes obesos. Trata-se de um hormônio responsável pela regulação do balanço energético do organismo. Em excesso, ele aumenta o apetite e reduz o gasto energético.O estudo foi realizado pela psicóloga Joana Pereira de Carvalho Ferreira, sob orientação de Ana Dâmaso, no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista.

O material foi realizado com 75 adolescentes obesos (30 do sexo masculino e 45 do feminino), com idades entre 13 e 19 anos. “Antes da terapia, 60% dos adolescentes apresentavam sintomatologia de depressão. Destes, 91% apresentaram redução dos sintomas após a terapia”, explica Joana. A psicóloga Milena Leal Macedo afirma existirem vários fatores que podem levar o jovem a cometer o ato de desespero. “Por ser uma fase de transição, alguns acham no suicídio uma forma de acabar com a dor que, para eles, nunca terá fim”, sustenta. 

Milena pondera ainda que as doenças mentais e o uso e abuso de substâncias químicas também podem ser considerados fatores de risco. “É importante estar atento a mudanças sutis (no comportamento), mesmo que os responsáveis entendam que os jovens tenham tudo para estarem ótimos”, aconselha.

Veja onde pedir ajuda

Centro de Valorização da Vida (CVV) tem atendimento 24 horas pelo telefone188, e-mail e chat, ambos no site www.cvv.org.br. Os postos do CVV na Baixada Santista para atendimento pessoalmente:

Santos

Rua Campos Melo, 189, Vila Mathias (atendimento das 8 às 18 horas)

Informações: 3234-4241

São Vicente

Rua do Colégio, 130, Centro (Atendimento 7 às 12 horas)

Informações: 3467-4111

Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) 

Atendimento por telefone: (11) 3256-4831. E-mail: comunicacao@abrata.org.br

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