Risco de erosão é alto em 51% do Litoral Paulista

Secretaria de Meio Ambiente do Estado aponta problema em todas as praias

10/06/2018 - 13:07 - Atualizado em 10/06/2018 - 13:07

Mais da metade das praias paulistas recebeu a classificação de risco ‘alto’ ou ‘muito alto’ de erosão em um programa de monitoramento da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. A situação já motiva obras e preocupa autoridades municipais.

Só para ter uma ideia, em outubro do ano passado a combinação de chuvas torrenciais com forte ressaca fez as ondas engolirem cerca de 150 metros da faixa de areia da Praia do Tombo, em Guarujá, provocando o desmoronamento parcial de construções e mudando o perfil do lugar.

A ressaca fez as ondas engolirem cerca de 150 metros da faixa de areia do Tombo, em Guarujá (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Mas essa situação não está longe de se repetir. “Não existe nenhuma praia fora de risco no Estado de São Paulo, porque o nível do mar está subindo e, quando isso acontece, esse é um dos primeiros impactos”, afirma a pesquisadora do Instituto Geológico Célia Regina Gouveia de Souza. Ela coordena o monitoramento, realizado a cada cinco anos desde 2002.

O mapeamento classifica os riscos de erosão costeira nas categorias ‘muito alto’, ‘alto’, ‘médio’, ‘baixo’ e ‘muito baixo’. Das 98 praias paulistas avaliadas, 51,5% estão classificadas com risco ‘muito alto’ ou ‘alto’.

O encolhimento da faixa de areia é causado por uma combinação de mudanças climáticas globais - que elevam o nível do mar e causam eventos meteorológicos extremos - e fatores locais, como a urbanização e outras interferências humanas. 

Nas categorias ‘muito alto’ e ‘alto’, encaixam-se 46,3% das 67 praias do Litoral Norte, 62,5% das 23 praias da Baixada Santista e 62,5% das oito praias do Litoral Sul. Das 98, mais de 35% estão na categoria de risco ‘muito alto’. Só duas praias no Estado aparecem sob risco ‘muito baixo’: Toque-Toque Pequeno e Santiago, em São Sebastião.

Santos

Algumas áreas extremamente vulneráveis à erosão costeira, como o bairro da Ponta da Praia, em Santos, já começaram a receber intervenções. 

A Prefeitura iniciou em janeiro a instalação de 49 ‘geobags’ - grandes bolsas de tecido geotêxtil com 300 toneladas de areia cada uma -, que formarão uma barreira de contenção de mais de 500 metros.

Em trechos da orla da Ponta da Praia, em Santos, foram instaladas 49 geobags como barreira (Foto: Luigi Bongiovanni/AT)

“É um projeto piloto, com instalação recente, que deve comprovar sua eficiência em alguns anos. Acreditamos que uma avaliação mais concreta deve ser obtida em 12 meses”, ressalta o secretário municipal de Meio Ambiente de Santos, Marcos Libório. 

O projeto tem base em nota técnica desenvolvida pelos professores Tiago Zenker Gireli e Patrícia Dalsoglio Garcia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e é acompanhado por especialistas da National Oceanic and Atmospheric Administration, da Universidade de Maryland (EUA).

“Esse tipo de obra é muito importante, porque é um tipo de intervenção mais planejada e flexível. Em geral, quando uma praia começa a sofrer erosão, prefeituras colocam anteparos rígidos, como muros, ou blocos de granito, o pior tipo de intervenção possível", diz Célia. 

Segundo a pesquisadora, o problema com os anteparos de pedra é que eles modificam o contexto da praia, agravando ainda mais a erosão. “As pedras não deixam a areia se fixar e ainda provocam a reflexão da onda, que bate na estrutura e joga mais areia para fora”.

Soluções

As obras inadequadas causaram problemas graves na Praia de Massaguaçu, em Caraguatatuba, segundo ela. “Havia um trecho de praia com erosão localizada e o problema está se alastrando lateralmente para o norte e para o sul”.

O Instituto Geológico está produzindo agora um guia de obras costeiras para orientar os gestores públicos. “As melhores soluções envolvem a alimentação artificial de praias”, diz a coordenadora. 

Outro projeto, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vai monitorar ao longo de quatro anos a Praia da Enseada, no Guarujá, e a Praia de Itaguaré, em Bertioga. Assim, será possível determinar a influência da urbanização no padrão de erosão costeira. “A ideia é estabelecer cenários de elevação do nível do mar”. 

* Colaborou Luiz Alexandre Souza Ventura, do Rio de Janeiro, especial para o Estadão Conteúdo

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