Prejuízo provocado por vândalos é de R$ 3 milhões na Baixada Santista

Cidades gastam o valor da construção de uma policlínica para consertar estragos e repor materiais danificados

20/08/2018 - 16:00 - Atualizado em 20/08/2018 - 17:39

Restaurador Leonardo Branco usa peça vandalizada para refazer estátua de comerciante (Foto: Rogério Soares/AT)

A estátua do comerciante Toninho Campos foi avariada. Ela ficava na Praça Barão do Rio Branco, no Centro de São Vicente, mas precisou ser retirada porque teve pernas, dedos e pescoço quebrados. E ela não é a única vítima. Por ano, as cidades da Baixada Santista gastam quase de R$ 3 milhões recuperando o patrimônio público atacado por vândalos. 

Para se ter uma ideia do dinheiro que é consumido pelo vandalismo, na construção da Policlínica da Areia Branca, em Santos, foram empregados R$ 2,1 milhões entre recursos municipais e estaduais, e no projeto inicial da Policlínica do Piratininga, inaugurada neste ano, previa-se um investimento de R$ 2,2 milhões.

Sem fundo

Santos é a cidade da região que mais gasta com a recuperação de patrimônio público depredado por vândalos. No ano passado, segundo a Prefeitura, foram cerca de R$ 1,3 milhão. Só na orla da praia foram usados R$ 240 mil em 2017. 

Além de limpar as pichações e restaurar os 126 monumentos existentes no Município, o poder público precisa recuperar os brinquedos e aparelhos de ginástica, que ficam na areia, bancos de madeira plástica e até as lixeiras de concreto.

São Vicente, por sua vez, precisa investir R$ 600 mil por ano para manter praças e monumentos em ordem. Bertioga é a terceira colocada nesse ranking. No ano passado, foram destinados R$ 480 mil a reparos. A Prefeitura diz que os principais alvos são tampas de bueiro e fiação elétrica de iluminação pública. Os materiais são arrancados para serem vendidos depois.

A iluminação de praças, ruas e avenidas também é o que dá mais dor de cabeça para Praia Grande. A Prefeitura ainda cita a troca de lâmpadas furtadas ou quebradas. Por ano, a conta chega a R$ 360 mil.

Guarujá informa que gasta, anualmente, R$ 87 mil com a manutenção de monumentos vandalizados. A Pérola do Atlântico, que fica na Rodovia Cônego Domênico Rangoni, perto da Prefeitura, é o principal alvo dos criminosos.

Em Itanhaém, a escultura de Leandro Lima, conhecido como Paulo Pica-Pau, também teve de passar por restauração recentemente. Além dela, a do Zeca Poitena são as mais visitadas e vandalizadas na Cidade. Ambas ficam na Boca da Barra. Por ano, o poder público gasta R$ 14 mil para recuperar o que é destruído.

As Prefeituras de Cubatão, Mongaguá e Peruíbe disseram que não sabem quanto gastam com vandalismo.

É crime

De acordo com o artigo 163 do Código Penal, destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia é crime e o autor pode pegar de um a seis meses de detenção ou ter de pagar multa. O Código Penal ainda fala em pena de detenção de seis meses a três anos ou multa no caso de “motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima”. A pichação está prevista ainda na Lei de Crimes Ambientais com pena prevista de três meses a um ano de detenção.

Haja resistência

Lembra da peça do Toninho Campos? Nem o cimento colocado dentro dela, justamente como uma forma de prevenção a ataques, resistiu à força de quem tem o prazer de depredar o que é de todos. Feita de fibra de vidro e resina, terá de ser toda refeita.

Ela já está no Centro Histórico e Geográfico de São Vicente aos cuidados do restaurador Leonardo Branco. O especialista, entretanto, descarta recuperar a peça, que pesa cerca de 300 quilos e precisou de seis homens para levá-la até lá. A solução é fazer uma nova imagem usando como modelo a existente, através de um molde de borracha de silicone.

Placa da Biquinha tem réplica; original em
bronze será preservada (Foto: Rogério Soares/AT)

Prefeituras trocam bronze por resina

O restaurador Leonardo Branco vê no dia a dia o impacto da ação dos vândalos. Ultimamente, ele tem sido requisitado por prefeituras para copiar peças de bronze e evitar que elas sejam furtadas. Ele reproduz tudo em resina e depois usa uma técnica de tinta preta com dourado que imita o metal nobre. 

Um exemplo é a placa da Biquinha, em São Vicente, inaugurada em 1933, e que será substituída. A original ficará protegida em um museu. Branco é também o responsável pela recuperação das estátuas de Toninho Campos e Walter da Banca, que ficam na Praça Barão do Rio Branco, em São Vicente, está sendo feita por Leonardo Branco.

Aprovado pela Associação Brasileira de Conservadores-Restauradores de Bens Culturais (Abracor), ele tem sido responsável por vários trabalhos na região.
 capela da Beneficência Portuguesa e a do Colégio Escolástica Rosa, uma parte interna da Casa da Frontaria Azulejada e alguns imóveis tombados.

Tudo começou em 1996, quando atuou como auxiliar do arquiteto responsável pela recuperação de imagens sacras da Igreja do Embaré, também em Santos. “Meu interesse foi crescendo e fui pegando trabalho sem parar. Primeiro, fazia pequenas intervenções. Depois, comecei a pegar imagens maiores”.

Para poder atuar na área, precisou de um certificado da Abracor. Como não dava pra fazer o curso de três anos no Rio de Janeiro, Branco enviou alguns trabalhos que serviam de comprovação para conseguir a chancela. “Sou auto-didata. Você tem sempre que ir se informando e se atualizando, porque é uma arte complexa. Se você foge das regras, comete um crime”.

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