"O mundo tem jeito", diz André Trigueiro sobre prevenção ao suicídio

O jornalista da Globo esteve numa universidade santista no sábado e falou do tema

16/09/2018 - 09:36 - Atualizado em 16/09/2018 - 17:34

"O mundo tem jeito". A frase que dá início a esta matéria resume parte do recado que o escritor e jornalista André Trigueiro, da Globo, deixou no sábado (15), durante as duas palestras que deu na Universidade Católica de Santos (UniSantos). A primeira, sobre a questão ambiental e a urgência da sociedade encontrar soluções para os principais problemas que ameaçam o meio ambiente e os recursos naturais; a outra, sobre a prevenção do suicídio e os caminhos possíveis para reduzir as estatísticas, que já colocam a questão como de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

André Trigueiro está em Santos a convite do Centro de Valorização da Vida (CVV) de Santos, dentro da programação do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio. Como mantém na Globonews o programa ‘Cidades e Soluções’, Trigueiro também falou sobre as questões ambientais e como é possível, ao cidadão comum, envolver-se com a causa e “fazer parte dos caminhos da sustentabilidade”.

“Enquanto delegarmos essa responsabilidade apenas aos governos e políticos, estaremos testemunhando o risco de colapso”, disse.

"As redes sociais impõem a ditadura da alegria. Há uma compulsão em fotos bonitas o tempo todo" (Foto: Rogério Soares)

Como no livro Cidades e Soluções - como construir uma sociedade sustentável, de sua autoria, Trigueiro explica que boa parte dos conflitos e guerras mundiais ocorre por conta de escassez de recursos naturais, como a água. “Onde há escassez, precipita-se a guerra”. Longe do pessimismo, Trigueiro pondera que há, sim, um movimento crescente em busca de soluções e de uma mudança “da ordem estabelecida pelo setor produtivo”. Como exemplo, destaca a própria posição do Papa Francisco, que vem defendendo mais compromisso com o desenvolvimento social e a erradicação da pobreza, miséria e exclusão.

“Hoje, já vemos empresas incluindo em suas estratégias de negócios os objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS). Ainda é um movimento inicial, mas positivo porque até então a ordem era produzir a qualquer custo ambiental”.

Boas notícias

Jornalista há 30 anos e professor na PUC do Rio de Janeiro, Trigueiro também falou sobre a responsabilidade dos jornalistas equilibrarem o noticiário entre boas e más notícias. “Ninguém aguenta mais um noticiário só de violência, crise econômica, acidentes, tragédias. Há muita coisa boa acontecendo, só é preciso querer enxergá-las”.

André Trigueiro também é autor do livro Viver é a melhor opção - A prevenção do suicídio no Brasil e no mundo, e abordou o tema na palestra de sábado (15). Ele fez um alerta às pessoas para que não menosprezem sinais de tristeza profunda e permanente, e que procurem ajuda. “Uma das piores coisas para quem está deprimido é ouvir dos outros: você tem tudo, tem emprego, família, saúde, e fica aí largado, sem vontade de nada, enquanto tanta gente que não tem nada levanta e vai à luta”.

A depressão é uma das doenças mentais que podem desencadear pensamentos suicidas. “E é justamente por isso que podemos prevenir ao menos 90% dos casos. Só é preciso que esses males sejam tratados com a Medicina e a Psicologia”.

Trigueiro pediu especial atenção aos pais de jovens e adolescentes. “Temos uma geração que não consegue lidar bem com as adversidades. Eles precisam da presença de pai e mãe, da escola e dos amigos, mas não no mundo virtual. Estou falando do mundo físico mesmo, do contato e da conversa”.

Entrevista

O jornalista está em Santos a pedido do CVV, dentro da 
programação do setembro amarelo (Foto: Rogério Soares)

A Tribuna - Você sempre fala em palestras, entrevistas e artigos da urgência de se encontrar solução para os principais problemas das cidades. É possível destacar ao menos três desses principais problemas.

Eu tenho uma certa dificuldade de elencar porque as cidades têm configurações diferentes, mas vamos lá. Eu destacaria saneamento, mobilidade e construção civil.

AT - E por que esses três?

Saneamento não é apenas tratamento de esgoto. É destinação inteligente de resíduos. É impossível viver sem gerar resíduo. É impossível viver sem gerar esgoto. Então, a gente precisa cumprir a agenda mais básica e elementar que é não permitir que a cidade deixe de considerar a destinação correta do seu esgoto e de seus resíduos. Construção civil diz respeito a qualquer tipo de empreendimento, com qualquer finalidade. E esse é o setor que tem o maior impacto ambiental no mundo. Precisamos pensar que no século 21, as construções devem ser inteligentes: utilizar materiais menos degradantes, reaproveitar o entulho, promover ventilação e iluminação naturais,ter telhados inteligentes, eficiência energética, aproveitamento da água de chuva e da energia solar.

AT - E a mobilidade?

A cidade é movimento. O movimento empresta vitalidade à cidade. Então, o sistema circulatório da cidade não pode ser obstruído. Isso vai demandar um planejamento que compreenda prioridade em transporte público de massa,eficiente, barato e rápido, e o uso do transporte que não polua.Esse é um desenho que já funciona em algumas cidades do mundo. Ele demanda planejamento e ajustes periódicos das rotinas. Em tese, deveria permitir que os pedestres tenham segurança, que as bicicletas façam parte desse sistema e que o cidadão possa, em seus deslocamentos diários, perceber que a locomoção na cidade se resolve sem sacrifícios.

AT - Há muito tempo se fala em sustentabilidade. Você sente que essa é uma consciência crescente entre as pessoas?

Não tenho dúvida nenhuma de que está crescendo, sim. Ele nasce de baixo pra cima, gera inquietação do sistema, incomoda o setor produtivo que até então considerava uma externalidade os impactos ambientais decorrentes do processo produtivo. Agora já vivemos uma sofisticação das ONGs, que deixaram de ser românticas e se capacitaram, seus quadros passaram a ser profissionais e propositivos. Até na classe política, ainda que menos por convicção e mais por conveniência, vemos um ajuste do discurso, que passou a ter um viés ‘ecologicamente correto’ presente. Isso é uma mudança de cultura.

AT - O Planeta tem tempo para corrigir o rumo antes de perecer?

Não se muda a cultura por decreto. Temos um timing da crise ambiental sem precedentes que deveria despertar em nós o senso de urgência para mudanças em um período curto. Mas isso é um processo. Não se vira essa chave de uma hora para outra. Pensar coletivamente é algo que afronta os valores da sociedade de consumo que, por definição, é individualista, egoísta. Agente está falando de um protocolo civilizatório que precisa acontecer rápido. É angustiante acompanhar esse processo, sim. Quanto mais informação a gente acumula, mais se entende o risco do colapso, que já está acontecendo em alguns setores. O nível dos reservatórios de água no Brasil, por exemplo, está alarmando o setor elétrico. Se vai dar tempo ninguém sabe, mas quem tiver tempo para se informar vai entender a urgência da mudança. Corrigir o rumo não é um capricho, é o determinismo lógico. Se a gente quiser sair do século 21 ao menos da mesma forma que entramos, a gente tem que mudar muita coisa.

AT - E aí entra o papel da imprensa em inserir de forma permanente e didática as questões relacionadas ao meio ambiente.

A imprensa, por natureza, prioriza as questões factuais, do dia a dia. O meio ambiente acaba ficando em segundo plano. Hoje, eu não tenho a menor dúvida que o aquecimento global é o maior desafio ambiental do século 21. O desafio do jornalista bem informado é inserir esse tema nos factuais do dia a dia. O furacão que hoje ameaça os Estados Unidos, por exemplo, é uma boa chance de falar sobre aquecimento global.

AT - É uma percepção de alguns apenas ou cada vez mais as pessoas estão buscando formas mais simples de viver, maior contato com a natureza e mais qualidade de vida?

Eu sinto isso também e vou dar um exemplo. É impressionante como tenho percebido uma quantidade grande de jovens com adesão voluntária ao veganismo e vegetarianismo. E isso não é por parte dos pais. É opção deles próprios. Além disso, os jovens hoje já não têm como antes o sonho de comprar um carro. 2018 já vai entrar pra história como o ano em que a humanidade despertou pra gravidade do derrame indiscriminado de plástico na natureza. Muita gente acordando pra essa realidade de que o plástico é um dos vilões da história. Importante destacar a posição do papa Francisco também, que é um chefe de Estado, e que se posiciona contra o atual modelo de desenvolvimento vigente que, segundo ele, não erradica a fome e a miséria, e destroi, devasta e depreda o meio ambiente.

AT - Como se estabelece uma relação entre a forma que vivemos hoje e os males da alma, já que falar sobre isso também é uma das vertentes do seu trabalho?

Quando a gente fala que crise ambiental é uma crise ética, a gente tá falando de um comportamento mórbido da nossa espécie que despreza o risco de destruir o lugar que nos dá a vida, o ecocídio. O suicídio é uma extensão desse aspecto mórbido de desprezo ou de uma tentativa desesperada de resolver o problema liquidando a vida. Não é sinal de saúde estar bem adaptado a um planeta doente, diz um pensador. Importante dizer que o suicídio é o ato extremo e desesperado de alguém que está doente, e que se for percebido antes, pode ser evitado. É, sim, uma questão de saúde pública. 

AT - Há alguns meses, em entrevista a A Tribuna, Jacques Conchon (falecido em 15 de julho passado) disse que vivemos em uma sociedade de surdos. Você também sente assim?

Trigueiro - Concordo e colocaria isso nos seguintes termos. Não há esperança para a humanidade se a gente não aprender a viver em comunidade, com projetos coletivos que vão além dos interesses individuais. O ambientalismo, por definição, alcança esse projeto coletivo, quer você fale de transporte coletivo, qualidade do ar. Na era da globalização, a gente percebe que essa visão pragmática da vida como sendo algo que relaciona acumulação de bens e posses,prestígio,status, fama está introjetado na sociedade. Isso explica um pouco das razões que podem levar ao suicídio e também explica a crise ambiental em que estamos mergulhados.

AT - Ou seja, há uma relação muito próxima entre as questões mais íntimas do homem e o meio ambiente.

Trigueiro - O meio ambiente começa no meio da gente. O suicídio é um desastre ecológico, talvez o pior de todos, porque estamos falando de vida. Quem fala de meio ambiente, fala de vida. Quem fala de prevenção do suicídio tá falando de vida.

AT - E o que dizer a um familiar que perdeu alguém que se suicidou e que se sente culpado por isso?

Trigueiro - A culpa é um sentimento humano e que nos acompanha sempre,mas ela deve ser combatida, porque é injusta. Não é possível prever esse tipo de episódio.Não se culpe.Avida continua, e a melhor maneira de ajudar quem partiu nessas circunstâncias é ressignificar a vida, porque nós continuamos aqui. 

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