Nove em cada dez casos de estupro são cometidos por conhecidos das vítimas

Levamento da PM revela que a maioria dos casos acontece dentro da casa das vítimas

18/02/2018 - 18:09 - Atualizado em 18/02/2018 - 18:49

Levantamento revelou que em 36,3% dos casos, acusados são parentes das vítimas (Foto: Shutterstock)

Ela tinha 16 anos quando foi arrastada para dentro de um carro, em Mongaguá, e estuprada por três homens. Quase quatro anos depois, maior de idade e empresária, ainda sente o trauma ao falar no assunto. “Me senti muito culpada, fiquei com medo de ser julgada por estar com roupa mais curta, com medo do que meus pais pensariam. Fiz muito tratamento psicológico e só quero esquecer isso”, relata a jovem.

O caso da então adolescente aconteceu na Avenida São Paulo, uma das mais movimentadas da Cidade, às 19 horas de 20 de agosto de 2014, e não resultou em prisões até hoje. De lá para cá, as ocorrências de abuso sexual na Baixada Santista só aumentaram. Porém, o estupro em via pública é exceção. A maioria dos casos acontece dentro da casa das vítimas, e os criminosos são conhecidos.

Levantamento qualitativo feito pelo coronel Rogério Silva Pedro, comandante da Polícia Militar (PM) na Baixada Santista e no Vale do Ribeira (área do CPI-6), com base nos estupros cometidos no mês passado na região, mostra que apenas 6,7% têm como autores pessoas desconhecidas. Isso quer dizer que 93,3% são pessoas que se relacionam com a família da vítima.

Do total, 36,3% são parentes das vítimas; 23%, conhecidos (amigo da vítima ou dos pais); 12%, companheiros ou ex-companheiros das mães; 10%, padrastos ou madrastas; e 1,7%, pessoas que trabalham para a vítima (babás, cuidadores). A maioria das vítimas – 68% – é de crianças ou adolescentes até 14 anos (estupro de vulnerável), e 85% das ações criminosas acontecem dentro das residências da pessoa abusada. 

“De cada 100 ocorrências, menos de sete são pessoas não identificadas, um número muito baixo, o que é um alerta para os pais: fiquem muito atentos aos seus filhos, a quem frequenta a sua casa, às mudanças de reação da criança quando vê determinada pessoa”, orienta o coronel.

Crime crescente

Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) mostram que foram registrados 351 estupros, em 2017, nas nove cidades da Baixada Santista. O número é 17,4% maior do que em 2016, com 299 ocorrências do tipo.

A delegada Fernanda dos Santos Sousa, titular da Delegacia da Mulher (DDM) de Santos, acredita que sempre aconteceram muitos casos. A quantidade de registros é que aumentou recentemente, por causa de mais orientação e informação das vítimas.

“Não era registrado nessa proporção porque, muitas vezes, a vítima tinha medo, vergonha, e acabava se submetendo àquela situação por longos períodos sem narrar os fatos. Por isso, a informação é tão importante. A criança tem que ter apoio, tanto na escola quanto dos responsáveis, para que ela possa verbalizar o abuso”.

Principais autores: homens

Para a delegada, a prevenção é possível. “Conseguimos coibir, deixando as crianças em ambientes seguros, devidamente acompanhadas por pessoas que tenham referências. É complicado deixar em vizinho, na casa de parente distante. Se é menina, deve-se evitar que fique com adulto do sexo masculino. Não é preconceito: temos que dar essa orientação porque, com base em números, os principais autores são homens. É preciso vigilância”.

Fernanda comenta que o abuso sexual acontece em todas as classes sociais, mas é mais visto em famílias mais pobres, por dificuldades para deixar as crianças em locais seguros. Embora as ocorrências nas ruas sejam menores, a delegada ressalta que precauções são necessárias.

“Por incrível que pareça, temos muitos casos de mulheres que pegam caronas com indivíduos desconhecidos, após uma saída noturna ou na rua mesmo. É evitar esse tipo de coisa. E, se puder, não andar sozinha, mas sempre acompanhada de uma amiga ou familiar, o que evita esse tipo de abordagem”, indica.

Notificações

A Prefeitura de Santos informa que os casos de violência sexual são notificados (comunicados) pelas unidades de saúde, assistência social e educação para a Seção de Vigilância Epidemiológica (Seviep). No ano passado, foram 112 notificações, das quais 90 casos em mulheres e 22 em homens. Desse total, 89 ocorrências foram com menores de 18 anos.

Ao todo, uma de menor de 1 ano de idade; 13 casos de 1 a 4 anos; 15 casos de 15 a 18 anos; 23 casos de 5 a 9 anos de idade; e 37 casos de 10 a 14 anos. Santos conta com o Programa de Atenção às Vítimas de Violência Sexual (Paivas), trabalho intersetorial na rede municipal de saúde com equipe de atendimento multiprofissional no Instituto da Mulher e Gestante.

As pessoas vítimas de violência sexual na Cidade devem procurar, imediatamente após a ocorrência, atendimento no Pronto-Socorro da Zona Noroeste (Rua Agamenon Magalhães, s/nº, Castelo). Nessa unidade, que funciona todos os dias e 24 horas, será iniciado o tratamento com terapia antirretroviral – combinação de medicamentos para evitar o contágio do HIV e outras infecções – e feito o encaminhamento para serviços como o Centro de Controle de Doenças Infectocontagiosas ou o Instituto da Mulher e Gestante. Nesse último, oferece-se atendimento médico, psicológico e de assistência social.

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