"Nós vivemos numa sociedade de surdos", diz fundador do CVV

Em entrevista, Jacques Conchon fala sobre trabalho de entidade na prevenção ao suicídio

04/11/2017 - 08:11 - Atualizado em 04/11/2017 - 08:22

O engenheiro Jacques André Conchon é um dos fundadores do CVV (Foto: Arminda Augusto/A Tribuna)

No início dos anos 60, as estatísticas incomodavam o engenheiro Jacques André Conchon: quatro suicídios por dia no Estado de São Paulo. "Era preciso fazer alguma coisa", diz o engenheiro, hoje com 75 anos. Foi com essa preocupação que ele ajudou a fundar, em março de 1962, o Centro de Valorização da Vida (CVV), que este ano completou 55 anos.

Nesta entrevista, concedida em seu escritório na Capital, Conchon fala sobre os desafios de criar um organismo que, longe de pretender resolver os problemas das pessoas, se dispõe a apenas ouvi-las, acolhê-las e "dividir a carga", como diz. Fala também da importância de manter vivo o espírito humano e cooperativo nas empresas e do que aprendeu na vida durante os anos de voluntariado.

O senhor tinha apenas 20 anos quando ajudou a fundar o CVV. O que moveu um jovem assim, tão novo ainda, a pensar na criação de um organismo com esse foco, de ouvir os outros?

Eu sempre tive um idealismo a flor da pele, um impulso natural de me sentir útil à sociedade. E naquela época, os jornais apontavam que o Estado de São Paulo tinha quatro suicídios por dia. Eu senti que era hora de fazer alguma coisa, ajudar de alguma forma. Não sabíamos direito como, mas a tal oportunidade de ser útil surgiu naquele momento. Eu e meus amigos começamos a nos aprofundar no tema, estudar as estatísticas, ver se eram mais homens ou mulheres, qual a faixa etária...

E qual era a faixa etária que predominava?

Naquela época era mais pra cima, tipo 28 a 35 anos. Começamos a viver mais a essência do problema, visitando sobreviventes do suicídio, tentando entender o que havia acontecido com eles. Aí, recebemos um material falando sobre um trabalho que era desenvolvido na Inglaterra, dos samaritanos, e aí pensamos: aqui está o que estamos procurando. É algo assim que queremos fazer. O problema estava visível, patente: a sociedade apresentava um ponto de dissonância, de desarmonia.

Como assim?

Cometer o suicídio é um ato extremo, sinal de que algo vai mal na sociedade. Hoje, olhando pra trás, vejo que a própria sociedade já estava naquela época buscando uma acomodação no sentido de prestar um amparo para essas pessoas. O que quero dizer é que o clima já era favorável à criação de um organismos assim naquela época.

O senhor fala em quatro mortes por dia naquela época. Dados mais recentes falam em aumento de 10% nos casos entre 2000 e 2012. Pioramos na arte de ouvir as pessoas?

Nós ainda vivemos num mundo de surdos. Quando uma pessoa tem um abalo forte interior, que a descompense a ponto de pensar em suicídio, ela clama por socorro. E são poucos aqueles que se dispõem a ouvi-la. Muitos sequer sabem interpretar o apelo. Então, passam direto, se negam a uma conversa mais próxima ou, então, minimizam a dor com frases feitas, como "deixa disso", "isso é bobagem", "tamanho homem com esse tipo de coisa". Vivemos ainda num mundo de surdos.

Estamos em uma sociedade cada vez mais conectada, em que se pode falar com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora do dia. Mas isso não está ajudando a aproximar, de fato, as pessoas. Está?

A tecnologia é só um meio. Se nós em um contato telefônico, por Skype ou WhatsApp mandamos uma simples mensagem sem qualquer sentimento, emoção, não vai encontrar eco em um coração desesperado. Então, o que está faltando é o conteúdo "pessoa", de pessoa pra pessoa.

O que mudou na sociedade, de 50 anos para cá, que parece estar fazendo as pessoas mais depressivas, mais propensas a cometer o suicídio? Ou será que havia muita subnotificação dos casos naquela época?

Existia sim a questão da subnotificação. As famílias procuravam ocultar a causa morte, pediam para colocar morte acidental para evitar esse estigma. O tema era tratado de uma forma muito silenciosa. Hoje, as notícias chegam a família querendo ou não. O que falta no relacionamento humano é coração, ou seja, que seja realmente um humano relacionamento. Em outras palavras, de coração para coração.

E por que isso é tão difícil?

Talvez porque tenhamos sido programados para reprimir emoções. O jargão "homem não chora" é típico. É comum, diante de um impacto emocional, a pessoa desabar e depois pedir desculpas, como se precisasse pedir desculpas por chorar, mostrar sentimentos. Lamentavelmente, é uma cultura que desenvolvemos e por isso chegar fundo no coração das pessoas não é tão fácil. As pessoas se fecham, se reprimem, têm vergonha, acham que é sinal de fraqueza, não estão abertas para isso.

Para Jacques, é preciso saber ouvir o outro, mais do que falar (Foto: Arminda Augusto/A Tribuna)

Há 55 anos, não preocupava o fato de vocês não serem especialistas no assunto, não teremos conhecimento técnico de como lidar com as situações emocionalmente críticas das pessoas?

Claro! Nossa grande preocupação era: será que não vamos estar prestando um desserviço? E muitos diziam pra tomar cuidado, que era um campo perigoso. Nós procuramos especialistas, mas as opiniões eram muito divididas. Uns achavam que seria um serviço muito importante; outros diziam que isso era para especialistas, não para leigos como nós. Estávamos temerosos, sim, nos passos que íamos dar. E o que deu a certeza de seguir em frente? Porque um dia caiu nas nossas mãos um jornal londrino, que falava do trabalho dos samaritanos, e o título do artigo era "Pessoas comuns podem salvar vidas. Como? Oferecendo amizade". Pronto, ali estava a chave para o enigma. Ali deixamos de ter dúvidas. Um dia perguntei ao Chad (Chad Varah, fundador do Samaritanos de Londres) se o voluntário poderia cometer um erro. E ele disse: "pode se ele não se limitar à condição de apenas amigo. Mas se ele ficar apenas nessa condição, jamais".

O senhor falou que naquela época a faixa etária dos suicídios era mais velha, 28, 30 anos. Dados recentes também apontam que 30% dos casos são cometidos por jovens em faixas etárias mais baixas. Que avaliação o senhor faz disso?

Olha, eu volto a dizer, nós não somos especialistas em psicologia social, nosso campo é outro. Mas o que está acontecendo bate fundo na alma. Minha opinião pessoal é que existe na juventude um desencanto...

Desencanto por quê?

Por tudo. Ele deve se perguntar: o mundo está caótico, para que eu vou chegar lá? Não sei, mas essa é minha opinião pessoal.

E o que dizer aos pais no sentido de fazer com que esse filho jamais perca a esperança?

Manter os canais de comunicação com esse filho sempre, sempre abertos. Só isso. Permitir a qualquer momento que esse filho queira conversar, que ele terá liberdade para isso. O grande problema é que, dentro dos lares, essa comunicação nem sempre existe. Da mesma forma que nós vivemos numa sociedade de surdos, dentro dos lares também existe um mudismo total.

Nos 25 anos em que o senhor foi voluntário do CVV, lembraria de algum caso em especial que tenha sido muito marcante?

Teve um que me tocou bastante. Uma senhora ligou para agradecer. Disse "você não sabe a alegria que eu estou vivendo hoje. Nasceu meu primeiro neto". E eu fiquei ouvindo. E ela contou que, anos atrás, estava num momento de total desespero e planejava se matar, quando então soube do trabalho do CVV. "Eu achei que me matando iria contra o idealismo desse grupo, então desisti da ideia", me contou a senhora. E graças ao CVV ela estava vivendo naquele momento a alegria de poder segurar no colo o primeiro neto. Aquele relato me emocionou muito.

Muitos ligam e não dizem nada também.

Sim, muitos. Eu lembro também de um senhor que foi pessoalmente ao posto. Ele entrou, chegou à sala e simplesmente desabou. Chorou muito, por muito tempo. Quando acabou, se recompôs, enxugou as lágrimas, agradeceu e foi embora, sem dizer absolutamente nada. Eu me limitei a ficar ao lado dele, só isso. E era tanto sentimento que eu também me emocionei. Havia ali um pedido de socorro, de libertação.

Mas se a pessoa não fala, não põe pra fora o que a incomoda, como pode ter alívio na dor?

Apenas o fato de saber que tem alguém ali, disponível, disposto a dividir a carga ou dividir o silêncio. É um tipo de apelo, mas silencioso. Daí que nós aprendemos com a vida a valorizar o silêncio. Também existem pessoas que, num estado defensivo, têm muito medo de se expor e ficam em silêncio.

O que se aprende sendo voluntário do CVV?

O princípio fundamental é a aceitação. Aceitação da outra pessoa, do jeito que ela é e não como deveria ser segundo padrões sociais. Os voluntários precisam fazer uma revisão permanente de sua pauta conceitual, porque o que dificulta a aproximação dos seres humanos é o preconceito. Outra coisa é a compreensão. Não é compreender a pessoa, é compreender com a pessoa. São duas coisas completamente diferentes. Compreender com ela é o que faz a aproximação, sentir como ela está sentindo. É isso que ajuda a dividir a carga que a oprime.

Como é possível multiplicar essa filosofia do CVV, de ouvir o outro, dentro do mundo corporativo, onde a corrida por bater metas, ser eficiente e produtivo tem muito mais importância?

A ideia que sempre nos ocorreu é que o objetivo primeiro de uma empresa é o bem estar das pessoas que trabalham ali e não o lucro. O lucro vem como consequência. Então, primeiro o bem estar dos funcionários. Depois, o bem estar dos clientes e fornecedores. Terceiro, como consequência, o lucro. Lá fora o que acontece é exatamente a inversão. Quantas vezes a pessoa liga pro CVV e diz que não consegue mais dormir. E por quê? Porque está preocupada com a meta que precisa cumprir, com a carreira que vai ficar ameaçada se não chegar lá, enfim......O plano de metas vivido pelos funcionários das grandes corporações é tão ameaçador que não raro encontramos certas distorções de caráter. O indivíduo parte pra mentira e pra desonestidade para cumprir a meta. Se ele age de forma contrária ao que rege os princípios sociais, ele se fere também, ele se atinge. Depois, tudo isso contribui para também se cobrar, se deprimir, se isolar.

E a concorrência desgasta, deprime..

Exatamente. O que há é uma concorrência absurda e uma cooperação zero. A competição desgasta, isola, deprime, ele se sente excluído ou se exclui dos demais.

É impressão ou se está falando mais sobre isso, tanto pela imprensa como por parte de entidades, universidades? E se sim, isso é bom?

A sociedade é um organismo vivo. E quando existe uma descompensação, ela se organiza para compensar. O que está havendo é uma reação natural da sociedade face a uma descompensação muito séria, que está levando as pessoas ao suicídio.

O senhor diria que estamos caminhando para uma sociedade melhor, até por conta desse movimento de busca pela compensação?

A duras penas, sim. Pagando um preço elevado, mas sim. Do jeito que as coisas vão, só há dois caminhos possíveis: ou para uma guerra cruel, de extermínio mesmo, ou para a pacificação, para a compreensão, para um tratamento entre os seres humanos com mais nobreza, dignidade. E eu acredito nesse segundo caminho.

Pessoas mais bem sucedidas têm mais tendência à depressão, ao isolamento?

Veja, em algumas grandes empresas ainda é comum haver elevadores separados para a diretoria e para os demais funcionários. E aí esses diretores perdem a oportunidade de logo cedo, com os elevadores cheios, darem um bom dia, terem um contato mais próximo com cada um que trabalha ali. Vão promovendo um isolamento auto-imposto, não se identificam com os funcionários, com o vizinho. Se isolam. E isso é uma receita infalível para a depressão, para o sofrimento.

Com toda essa bagagem que o senhor adquiriu no contato com as pessoas, o que a vida ensinou ao cidadão Jacques Conchon?

Eu continuo aprendendo. A grande lição que existe é que há uma necessidade premente de sermos úteis à sociedade. A doença que impera na sociedade é o desamor, e é em decorrência dele que surge a maioria dos outros problemas. A vida nos traz lições importantes. Devemos aproveitá-las para que se amplie a capacidade de lidar com o ser humano. E outra coisa que aprendi: a saber ouvir. Mais do que saber falar, saber ouvir.

Por que ser voluntário do CVV?

Porque é uma valorização do tempo. É um tempo qualitativo de excelente nível, nunca esquecendo que relação de ajuda é um processo a dois. Eu não posso dizer "eu ajudo", mas eu posso dizer "nós nos ajudamos". Nesse processo a dois, o crescimento é mútuo. E isso não tem preço.

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