No SUS, três em dez pacientes faltam às consultas agendadas

É o que aponta levantamento feito por A Tribuna junto às secretarias de Saúde das nove cidades da região

16/09/2018 - 07:41 - Atualizado em 16/09/2018 - 07:46

Pacientes se queixam da demora no atendimento médico
no SUS (Foto: Nirley Sena/AT)

Três de cada dez consultas marcadas no Sistema Único de Saúde (SUS), na Baixada Santista, deixam de acontecer porque o paciente faltou ao encontro com o médico. É o que mostra levantamento feito por A Tribuna junto às secretarias de Saúde das nove cidades da região.

O problema acontece em 30% das consultas agendadas na rede pública de Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Peruíbe, Santos e São Vicente. Até o fechamento desta edição, Mongaguá e Praia Grande não responderam aos questionamentos da Reportagem.

Na região, de acordo com as prefeituras, a cidade que tem a maior taxa de pacientes faltosos é Cubatão — onde 40% das consultas marcadas deixam de acontecer por causa da falta do paciente. Em Santos e Bertioga, o índice de faltas atinge 30% dos agendamentos, número bastante semelhante ao de Guarujá, com 28,33%. São Vicente, Itanhaém e Peruíbe ficam entre 20% e 25% do total.

Conta-gotas

De um lado, as prefeituras locais afirmam que a falta prejudica o atendimento da população e impede que usuários que necessitem do atendimento tenham seu direito atendido. Na vida real, porém, pacientes reclamam do longo tempo de espera até que sejam atendidos pelos serviços.

As administrações de cidades como Santos afirmam que a espera média por consulta não ultrapassa 40 dias. Por exames, chega a quatro meses. A Tribuna apurou, no entanto, que há casos que superam essa situação tida como ideal.

Dois usuários do Ambulatório de Especialidades (Ambesp) da Avenida Conselheiro Nébias relatam ter esperado cinco meses por uma consulta. No caso mais demorado, um deles aguarda há um ano por uma ressonância magnética.

É o caso do comerciante Gildo Vieira Filho, de 62 anos. Morador do Morro José Menino, ele faz acompanhamento em três especialidades: pneumologia, endocrinologia e ortopedia. “As consultas demoram três meses. Precisa ser mais rápido isso, principalmente para marcar exames. Estou há um ano esperando para fazer a ressonância da coluna”. 

A empregada doméstica Luiza de Lima, de 40 anos, é mãe de Pietra, de 2 anos e seis meses. A criança tem bronquite e ela conta que foi muito difícil conseguir uma consulta com um pneumologista. “A gente vai na policlínica, passa pelo atendimento com o pediatra... Enquanto não conseguia a consulta, ela precisou ser internada duas vezes”. 

Agora que a bronquite foi descoberta, a menina precisa passar pelo profissional a cada 75 dias. “Enquanto a gente não conseguia o atendimento, ela tomou muito antibiótico. Depois do encaminhamento, as coisas estão mais controladas”.

A balconista Ednalva do Nascimento, de 48 anos, faz acompanhamento com ortopedista, cardiologista e clínico no Ambulatório das Especialidades. Recentemente, ela teve problema para conseguir marcar uma radiografia do tórax. “Demorou mais de três meses só para agendar”.

Rapidez

Como nem tudo é ruim, a feirante Maria de Fátima Fernandes, de 60 anos, relata uma boa experiência no serviço. “Precisei do atendimento de ortopedista. Faz 15 dias que quebrei três dedos do pé. Fui direto para a UPA Central. Depois de algum tempo de espera, já fizeram o raios X, viram a fratura e engessaram”. 

Ela conta que já foi encaminhada para o ambulatório para o retorno, que aconteceu na quinta. “Aguardei um pouco pelo atendimento e o médico pediu um novo raios X para ver como ficou tudo. Agora, espero conseguir uma vaga logo”.

Situação afeta cofres públicos e as filas 

As administrações das cidades reclamam que o costume de os pacientes faltarem em consultas e exames traz prejuízo aos cofres públicos e impede as prefeituras de zerarem as filas pelos atendimentos.

É assim que explica o chefe do Departamento de Atenção Especializada de Santos, Devanir Paz. No Município, as faltas de pacientes representam, em média, 20% do total de consultas marcadas.

Geralmente, para ter acesso a uma consulta de especialista no Sistema Único de Saúde (SUS) em Santos, é preciso que o paciente passe por um médico generalista, em uma das policlínicas. A partir daí, ele é encaminhado a um dos dois ambulatórios de especialidades (um na Vila Mathias e outro na Zona Noroeste).

Agora, o clínico geral registra o encaminhamento no prontuário eletrônico desse paciente. É aí que entra em cena, no caso santista, a Central de Agendamento municipal.

Em Santos, as especialidades com fila de espera maior são neurologia (90 dias), oftalmologia (40 dias) e cardiologia (30 dias), segundo Paz.

De acordo com a chefe do serviço de regulação de Guarujá, Patrícia Cordeiro, a questão das faltas dos pacientes é multifatorial. “Elas estão ligadas ao próprio cidadão e à importância que ele dá para o seu exame ou consulta”.

Tentativas para resolver

Para reduzir as filas e dar mais agilidade no processo de marcação de consultas e exames, a Prefeitura de Santos criou a Central de Agendamentos no ano passado. “É ela que organiza as demandas que vêm das policlínicas”, observa Paz.

Em 2017, o Município também criou um telefone para se comunicar com os pacientes. No 0800-100836, é possível cobrar o posicionamento na espera e até remarcar quando a pessoa perceber que não irá.

Para o técnico da Prefeitura de Santos, o ideal é que as pessoas liguem com tempo hábil suficiente para colocar um novo paciente na vaga aberta. “Faltar por si só gera um desperdício. O médico que estava ali para atender fica ocioso e a pessoa volta para a fila”.

Formato diferente

Em Guarujá, os agendamentos acontecem de outra maneira. Sempre aos dias 1º e 15 de cada mês, a Prefeitura abre as agendas. “Assim que completamos o limite de consultas disponíveis, as pessoas que não conseguiram ficam para a próxima agenda, na quinzena seguinte”, explica Patrícia Cordeiro.

Na cidade, o atendimento inicial acontece em uma das unidades de saúde da família referenciadas para a região em que a pessoa mora. É a unidade que faz a tratativa com a central de regulação e, depois, avisa ao paciente as consultas e os exames agendados.

Para Patrícia, a conduta do clínico geral é muito importante. “Ele só deveria mandar para o especialista quando esgotou todas as hipóteses. Isso acaba gerando uma demanda grande nos nossos ambulatórios de especialidades”.

Para reduzir o índice de faltas em Bertioga, a prefeitura pretende implantar o Cartão Cidadão, documento que permite o acompanhamento de exames e consultas. A ideia é usar um aplicativo, que vai alertar com mensagens SMS sobre as consultas e os exames.

Cubatão espera reduzir filas graças a um contrato firmado com uma empresa que fará exames. Em Itanhaém, um estudo está sendo feito para a implantação de uma classificação de riscos no sistema municipal.

Veja Mais