No Dia da Mulher, especialistas alertam para obsessão em torno da aparência

Busca incessante pelo corpo perfeito pode causar malefícios para a saúde

08/03/2018 - 08:07 - Atualizado em 08/03/2018 - 08:07

Busca excessiva pelo corpo perfeito pode trazer malefícios à saúde da mulher (Foto: Shutterstock)

Atire a primeira pedra a mulher que nunca se sentiu insatisfeita com a aparência e decidiu, de repente, que estava na hora de mudar aquele antigo corte de cabelo. Ou aquela que, após vestir uma roupa mais apertada, se rendeu a alguma dieta milagrosa só para se estar bem consigo mesma. Afinal, que mulher não deseja se sentir bonita?

A resposta é: todas. Mas, neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, o alerta serve para os casos em que a busca incessante pela beleza pode causar até mesmo malefícios à saúde. Segundo especialistas ouvidos por A Tribuna on-line, há casos em que a vaidade se transforma em obsessão.

Segundo a psicóloga Thalita Lacerda Nobre, doutora em psicologia clínica pela PUC de São Paulo, o desejo de estar bonita é natural, mas, em excesso, pode provocar transtornos mentais e físicos. Conforme a especialista, não aceitar a própria aparência tem sido cada vez mais comum entre as mulheres mais jovens.  

“Muitas não estão felizes com o que enxergam no espelho por causa dos padrões que a sociedade criou, onde ninguém é valorizado internamente. E a frustração para quem não está dentro desses padrões acaba sendo muito grande”, afirma.

Cirurgias plásticas

A insatisfação com relação ao corpo é tanta que colocou o Brasil em segundo lugar no ranking mundial de cirurgias plásticas. E o mercado feminino é bastante expressivo nesse universo.

Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), em pesquisa mais atual sobre o tema, realizada em 2015, foram 1,2 milhão de cirurgias plásticas no País. Destas, 85,6% realizadas por mulheres.  

No Brasil, a intervenção mais comum é a rinoplastia, cirurgia que remodela e diminui o tamanho do nariz. No levantamento aparecem ainda abdominoplastia, blefaroplastia (cirurgia de correção palpebral), lipoaspiração e colocação de próteses nas mamas.

Cirurgião plástico chama a atenção para a obsessão
em torno da aparência (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Cirurgião plástico há 27 anos, Wilson Novaes também chama a atenção para a obsessão em torno da aparência, que nos últimos anos ganhou mais força com a internet.

Pesquisa divulgada em janeiro deste ano pela Academia Americana de Cirurgia Plástica Facial e Reconstrutiva, dos Estados Unidos, mostra que houve um aumento de 55% nos procedimentos estéticos no rosto, em 2017, com o objetivo de “sair bem nas selfies”. 

De acordo com o levantamento, 33% dos interessados estão em busca de retoques discretos. Além disso, 57% dos pacientes das clínicas nos EUA disseram que desejavam mudanças no rosto para ganharem promoções ou se sentirem mais competitivos no mundo do trabalho.

“O mundo está em uma transição inevitável. Os valores humanos mudaram e a parte estética, e principalmente as alterações na aparência, estão em alta. Um exemplo disso é a quantidade de pessoas que postam suas fotos em redes sociais usando programas de retoques”.

Na avaliação do especialista, essa motivação pela busca de um procedimento cirúrgico não é correta. "O objetivo maior da cirurgia plástica é permitir ao individuo não apenas o embelezamento, mas melhorar sua auto-estima”, explica Novaes, que ressalta ainda cerca de 1% da população sofre da síndrome da distorção da imagem, também chamada de dismorfobia ou transtorno dismórfico corporal. 

“Esse é um distúrbio psicológico que faz as pessoas não se enxergarem como realmente são. E algo em torno de 10% das pessoas que fazem cirurgia plástica sofrem desse distúrbio. Por isso, por mais resultados que você consiga obter em uma cirurgia plástica, ou até mesmo em procedimentos estéticos, a pessoa nunca estará satisfeita com o resultado”. 

Atividade física

Mas, de onde vem essa busca pela perfeição, principalmente por parte do público feminino? Para o educador físico Thiago Arias, ao mesmo tempo em que hoje as pessoas estão mais conscientes sobre a importância da prática de uma atividade física para uma vida saudável, o excesso de informação as torna mais impacientes e intolerantes com relação ao resultado. 

“Não é incomum você encontrar pessoas que querem, da noite para o dia, atingir um objetivo. Por mais que a atividade física seja importante, é preciso respeitar os limites físicos”. Uma outra febre são as digital influencers do mundo fitness, diz ele. Por mais positivo que esses perfis possam parecer, segundo Arias, acabam dificultando o trabalho de um orientador físico, já que muitas mulheres acabam ficando condicionadas à opinião dos outros e esquecem que cada corpo é um corpo. 

“É preciso respeitar a individualidade biológica e por isso, o nosso trabalho é tão importante. É claro que a rede social motiva muitas mulheres a terem hábitos mas saudáveis, mas ela não informatiza. Quem vai demonstrar e direcionar o melhor treinamento é o professor de educação física”.  

Empresária criou programa de emagrecimento
em Santos (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Resgate da autoestima

Quem conversa pela primeira vez com a empresária Giselle Martins talvez nem imagina que ela tem 50 anos, cinco filhos, é avó e já passou por muitas adversidades na vida. 

Vaidosa, ela mantém uma alimentação balanceada. Faz atividades físicas regularmente e tem a bicicleta como sua principal aliada para se locomover por Santos. O que poucos sabem, porém, é que antes de uma vida tão regrada, a empresária também passou pelas mesmas incertezas de tantas outras mulheres.

Há quatro anos, a santista, que atuava como fisioterapeuta, sofreu um acidente de trabalho que lesionou sua coluna. Foram seis meses em uma cadeira de rodas e o medo de um dia não poder voltar a andar. E, se não bastasse a frustração de nunca mais poder exercer a profissão, vieram 18 kg a mais, eliminados com um programa de emagrecimento que ela mesma criou e se transformou em um novo ofício.

“Gosto de dizer que sou uma guerreira e que, no meio de uma adversidade, tive coragem de colocar a Dieta Vitória em prática. Meu filho, que mora em Vitória, teve um problema gravíssimo de saúde. Foi um momento dificílimo, e que eu precisava ajudá-lo”.

Sem recursos financeiros para auxiliar o filho que havia adoecido, a empresária, então, decidiu transformar o programa de emagrecimento em uma nova fonte de renda e, assim como no antigo ofício, continuar ajudando aqueles que mais precisavam. Dessa vez, porém, a reabilitação seria outra: a do resgate da autoestima.

“Eu sempre gostei muito disso, de despertar a força dentro das pessoas. E pensei: se eu emagreci, porque não ajudar outras pessoas que precisam? Chamei uma amiga, que é nutricionista, e colocamos o programa em prática, dentro de casa”.

Em quatro anos já foram mais de 10 mil pessoas atendidas e muitos quilos eliminados de maneira saudável. “Todo mundo quer um milagre, mas a reeducação alimentar é um processo, que não é só da comida, vem da cabeça também. É preciso ter um equilíbrio. Por isso, ver essas mulheres alcançando seus objetivos, resgatando essa força dentro delas, me deixa muito feliz. Aqui, elas se permitem. Deixam de cuidar um pouco dos outros e passam a olhar mais para si e entender que elas podem tudo. Quer milagre maior do que poder dar à vida?”.   

Pela clínica já passaram pessoas que não precisavam de reeducação alimentar, explica a empresária. No entanto, até mesmo nos casos de obsessão por um corpo perfeito, houve a orientação de profissionais especializados.

“Esses casos aqui não são maioria, mas temos um trabalho de coach, onde orientamos o que é melhor para cada pessoa. Às vezes não é necessário introduzir uma dieta, mas indicar uma alimentação mais funcional e saudável, para que essa mulher se sinta bem e perceba que ela é linda e que cada corpo é diferente do outro”. 

Por fim, a empresária ressalta que aceitar e aproveitar cada etapa da vida também pode ser a chave para se tornar mais leve e feliz. “Eu emagreci, mas meu braço é mole. Mas qual o problema nisso? Eu tenho 50 anos. Por que isso me enfeia? Minha beleza está dentro de mim. O que nós precisamos sempre vestir é o nosso melhor sorriso e não há problemas em envelhecer. Faz parte da vida”.   

Veja Mais