Moradores do Itararé, em São Vicente, relatam insegurança

Morte de passageiro em ônibus por bala perdida expõe rotina de medo dos munícipes

11/07/2018 - 07:57 - Atualizado em 11/07/2018 - 08:22

Tentativa de assalto contra casal de turistas resultou em bala perdida que causou morte (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Os frequentes assaltos e furtos contra pedestres e ciclistas instauraram clima de insegurança na Praia do Itararé, em São Vicente. Sistema de iluminação precário, quiosques abandonados e efetivo policial insuficiente são convites às práticas delituosas e apontados por moradores como problemas crônicos na área.

A situação eleva o risco para quem se aventura em trafegar pela ciclovia da orla vicentina, uma das mais movimentadas da região. O cenário descrito por moradores e turistas ficou evidente na segunda-feira (9), feriado da Revolução Constitucionalista.

A tentativa de assalto contra um casal de turistas que passeava de bicicleta acabou em tragédia. Um disparo atingiu o passageiro de um ônibus intermunicipal que passava pela Avenida Ayrton Senna, próximo à divisa com Santos, no instante da ação criminosa.

O tiro acertou o abdômen de Eleomiro Fernandes Filhos, 47 anos. Ele foi encaminhado em estado grave ao Hospital Municipal de São Vicente (antigo Crei), e deu entrada na unidade médica com parada cardiorrespiratória. O homem não resistiu aos ferimentos e morreu instantes depois do incidente. A Polícia Civil ainda investiga a autoria do crime.

Reforço

A ocorrência se deu em meio aos ajustes e estudos para aplicação de uma lei estadual com promessa de reforço policial para a Baixada Santista nos finais de semana e feriados prolongados – ocasiões em que a população flutuante na região se eleva.

Segundo relatos de moradores, em dupla ou em grupos, jovens abordam vítimas e anunciam assalto na ciclovia ou no calçadão ao lado, utilizado para a prática de caminhadas ou corridas. O objetivo é levar bicicletas ou bens pessoais, como carteiras, celulares e relógios.

Pesquisa

O episódio também reflete uma pesquisa recente do Instituto Sou da Paz, que colocou a Cidade entre as 80 mais expostas à violência no Estado de São Paulo.

O levantamento do Índice de Exposição a Crimes Violentos (IECV) levou em consideração os boletins de ocorrência de homicídio, estupro e crime patrimonial em 138 municípios paulistas em 2017.

“Foi horrível. A gente sai para passear e, de repente, volta para casa sem nada. Ficamos reféns da violência”, desabafou a paulistana Ana Paula Matos, vítima do assalto na ciclovia vicentina. Ela estava em um dos 242.508 veículos que desceram a Serra rumo ao Litoral no final de semana, segundo a Ecovias, concessionária do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI).

Ciclovia

Relatos de furtos ou assaltos ocorrem na extensão de toda a ciclovia que percorre a orla vicentina. O medo de se tornar alvo de assaltantes faz com que moradores do entorno mudem seus hábitos.

A dona de casa Maria Alice Fonseca não sai de casa portando joias, dinheiro ou qualquer objeto que possa despertar a atenção dos criminosos. “Ainda carrego comigo o celular, Mesmo assim, fica escondido e eu fiz seguro no aparelho”.

Já a pensionista Regina Célia dos Santos evitar circular pela imediação após as 18 horas. “Não saio de casa à noite. Quando preciso, chamo um Uber. Falta iluminação (na orla). Até mesmo o pessoal do quiosque é assaltado. A gente está à mercê dos criminosos”.

Síndica de um condomínio no Itararé, ela sustenta ter ido pessoalmente no batalhão da Polícia Militar para pedir reforço no efetivo para o local. “Cansamos de ver assaltos e até assassinatos sem nada fazer”. Ela também cobrou melhoria na iluminação pública.

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas (Sedup), está em curso projeto para a melhoria na iluminação da ciclovia do Itararé. Sem informar uma data de conclusão, a pasta informa investir R$ 10 milhões para revitalização do sistema na orla, que inclui as demais praias vicentinas.

O aposentado e morador da Capital, Wagner Luiz Hypolito observa que a presença de policiais nas praias de São Vicente é intensificada apenas na temporada. “Em janeiro, quando estive aqui pela última vez, me sentia mais seguro. Por ser férias (escolares) e ter um número considerável de turistas, deveria ter mais policiamento agora também”, diz.

Proprietária de um apartamento no Itararé há 17 anos, a funcionária pública Maria Cecília Hypolito evita caminhar no calçadão portando bens pessoais. “Nunca fui vítima de assaltos, mas a gente vê e escuta esse tipo de ocorrência sempre”, revela.

Respostas

Em nota, a Prefeitura de São Vicente diz pedir ao Governo do Estado aumento do efetivo policial na Cidade. Garante que a Guarda Civil Municipal (GCM) mantém uma viatura estacionada no local durante o dia, e realiza rondas regulares, à noite. Na manhã desta terça-feira (10), A Tribuna não viu nenhum agente municipal naquela imediação.

A Administração garante que, dos 162 guardas municipais, 76 estão autorizados a usar arma de fogo (revólver e pistola) em serviço e fora dele, por meio de autorização judicial. E aguarda a iniciativa Jovens em Exercício do Programa de Orientação Estadual (Jepoe), do Governo do Estado, que vai atender jovens de 16 a 18 anos em situação de vulnerabilidade social com formação profissional e cidadã. A ação é aposta para a diminuição dos índices de violência envolvendo esta faixa etária.

A Secretaria de Segurança Pública, procurada para se posicionar sobre a sensação de insegurança dos munícipes no bairro, declarou que houve queda nos casos de roubo (18%) e furtos (7,3%) em São Vicente, de janeiro a maio deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado. A SSP ressalta também o aumento do policiamento nos finais de semana, na região. O novo esquema está em vigor desde 15 de junho. No primeiro final de semana, foram deslocados 258 policiais militares e 50 viaturas.

Mas como a própria SSP havia divulgado para A Tribuna semana passada, o objetivo é utilizar as 6.240 vagas mensais para a Jornada Extraordinária de Trabalho Policial Militar (Dejem) nesse reforço. “ A Polícia Militar ainda realiza patrulhamento ostensivo e preventivo na cidade por meio de programas de policiamento estratégicos, inclusive com uso de bicicletas”, relata a nota de nesta terça-feira.

Já sobre o caso da bala perdida no Itararé, a SSP afirma que “a Polícia Civil está investigando e as diligências são realizadas pela Delegacia de São Vicente, visando identificar e prender os autores do crime”.

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