Medo no trânsito é rotina na Vila Margarida, em São Vicente

Condutores são alvos de marginais no cruzamento da Rua Doutor Polydoro de Oliveira Bittencourt com a Rodovia dos Imigrantes

23/09/2017 - 09:00 - Atualizado em 23/09/2017 - 09:02

O termômetro marcava 24°C no final da manhã de sexta-feira (22). Apesar do calor já suficiente, nenhum motorista se aventurava a transitar com os vidros abertos pelo retorno de acesso a Praia Grande. No interior do veículo, a temperatura só não era mais intensa que a ansiedade de passar por aquele trecho e deixar para trás o pavor de ficar sob a mira de um revólver.

No cruzamento da Rua Doutor Polydoro de Oliveira Bittencourt com a Rodovia dos Imigrantes, condutores são alvos fáceis de marginais. Devido à baixa visão e aos buracos na via, os motoristas são obrigados a reduzir a velocidade.

Na manhã de sexta-feira (22), o policiamento foi reforçado naquele trecho. Uma viatura da PM permaneceu parada no final do viaduto Mario Covas, enquanto duas motos da Rocam faziam o patrulhamento ostensivo no trecho urbano da rodovia. Apesar do aparato, o ponto onde ocorreu o crime é considerado um dos mais moderados pela polícia. O trecho crítico, segundo a corporação, se concentra nas confluências com a Rua Mascarenhas de Moares e a Linha Amarela.

Risco Diário

Motorista profissional, Carlos (nome fictício) sabe dos perigos que rondam os cruzamentos com a rodovia. Em três ocasiões, ele quase foi vítima de assaltos. Na quarta vez, a sorte o abandonou. “Dois rapazes cercaram o carro para anunciar o assalto. Entreguei celular, carteira e aliança. Não há um dia que não tenho medo de passar por aqui”, diz.

Números explicam

A falta de segurança nas estradas que cortam São Vicente é um problema antigo. E as práticas usadas por marginais são velhas conhecidas da polícia. Números da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP-SP) ajudam a entender a situação. Enquanto a ocorrência de furtos cresceu, a de roubos caiu no primeiro semestre deste ano, em relação ao ano passado.

O número de furtos (quando não há o emprego de violência) cresceu 8,6% nos sete primeiros meses deste ano em comparação ao igual período do ano passado, no trecho da Rodovia dos Imigrantes. Entre janeiro e julho de 2017, o 2º DP (delegacia responsável por aquela região) registrou 478 delitos dessa natureza, frente a 440 no ano anterior. Já os roubos tiveram queda de 13,3%. Foram 735 registros de janeiro a julho desse ano, contra 848, no igual intervalo de 2016.

“Os viadutos que eliminaram o conjunto de semáforos que cortavam o trecho da rodovia contribuíram para essa queda”, defende o capitão André Bonifácio, porta-voz da PM na região.

Ele afirma que policiais são alocados de forma estratégica nos trechos de maior incidência de crime. O oficial sustenta ainda manter por tempo indeterminado o policiamento reforçado no trecho o qual os jovens praticaram a emboscada. E pede para que as vítimas registrem o Boletim de Ocorrência numa delegacia. “Com essas informações, podemos traçar os locais e horários que os delitos acontecem”.

México 70

A vendedora Joana (nome fictício) passa todos os dias ao lado do muro de concreto erguido no trecho final da Rodovia dos Imigrantes. A construção de três metros de altura separa a pista daquela que foi considerada a maior favela da região: a México 70. Segundo as investigações, maior parte do grupo de adolescentes que praticou o crime gravado em vídeo mora nessa localidade.

Quando se aproxima da construção apelidada como Faixa de Gaza (devido ao elevado índice criminal) ela fica nervosa. A moradora de Praia Grande, que trabalha no Centro de Santos, teme que alguém possa aparecer com uma arma. “É um pavor ficar sob a mira de um revólver”.

Assim como a vendedora, quem transita pela localidade não tem visão do que está atrás da fortificação. O muro separa os motoristas dos cerca de 25 mil moradores do México 70, núcleo populacional que cresceu no ufanismo da Seleção Brasileira comandada por Pelé, Jairzinho, Gérson e Tostão, que garantiu o tricampeonato.

Sem dados

Faltam dados oficiais atualizados sobre o local. Contudo, o Censo de 2010, do IBGE, indica que 15% dos moradores da localidade não têm nenhuma renda fixa. Já 20% sobrevivem com até um salário mínimo. E todos despejam seu dejetos no braço de mar que circunda a área, densamente ocupada.

Ainda de acordo com o IBGE, 28,5% dos lares são sustentados por mulheres. E 85% das crianças de 0 a 4 anos não frequentam creches, sendo cuidados por irmãos mais velhos. Essa faixa etária concentra 8,6% dos residentes daquela comunidade.

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