Mais barato, EAD é alternativa para quem busca diploma universitário

Apesar da estagnação no Ensino Superior, em 2016, modalidade a distância tem apresentado crescimento

07/09/2017 - 12:15 - Atualizado em 07/09/2017 - 12:15

Procura por ensino a distância tem crescido no País, conforme dados do Semesp (Foto: USP Imagens)

Pela primeira vez em 11 anos, o total de matrículas no Ensino Superior apresentou estagnação no País. De acordo com dados do Censo Nacional da Educação Superior de 2016, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) no último dia 31 de agosto, foram registradas 8,05 milhões de matrículas em cursos de nível superior no ano passado, ante 8,03 milhões em 2015, o que representa uma variação de apenas 0,2%. 

Mas, apesar da desaceleração, um dado importante tem chamado a atenção: o aumento de ingressantes nas graduações a distância. Conforme dados do censo, a modalidade teve alta de 21,4% nas novas matrículas, passando de 694,5 mil em 2015 para 843,1 mil em 2016. A porcentagem do total de universitários estudando hoje por meio do EAD no Brasil é de 28,2% - em 2006, eram 10,8%. 

Na Baixada Santista, conforme informações do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), o cenário não é diferente. Apesar da pesquisa mais recente da entidade se referir ao ano de 2015, o  total de novos alunos matriculados em cursos a distância também tem apresentado crescimento. No período de 2014 a 2015 ficou em 4,3%, passando de 10,8 mil para 11,3 mil. 

Um dos aspectos que mais pesam na escolha pela modalidade a distância, além da própria flexibilidade de estudos, é o financeiro. De acordo com o professor doutor Marcelo Alves Cruz, diretor de Educação a Distância da Universidade Santa Cecília (Unisanta), as mensalidades de um curso universitário EAD podem ser até 75% mais baratas do que nos cursos presenciais. Além disso, é possível atender a um número maior de estudantes e levar o ensino, em muitos casos, para regiões onde o acesso presencial é dificultado. 

“É uma questão de inserção. O EAD tem permitido àquelas pessoas que nunca puderam ter acesso a um curso superior essa possibilidade. A inserção e o acesso ao Ensino Superior se tornaram possíveis para muito mais estudantes”. A expectativa, segundo Cruz, é de que, em cinco anos, o número de vagas em EAD ultrapasse o presencial.  

Menos burocracia, mais cursos

Em maio deste ano, o MEC publicou um decreto flexibilizando as regras para a oferta de EAD no Ensino Superior, aperfeiçoando procedimentos, desburocratizando fluxos e reduzindo o tempo de análise e o estoque de processos.

A portaria possibilita o credenciamento de instituições de Ensino Superior (IES) para cursos de educação a distância (EaD) sem o credenciamento para cursos presenciais. Com isso, as instituições passam a oferecer exclusivamente cursos EAD, na graduação e na pós-graduação lato sensu, ou atuar também na modalidade presencial. Outra inovação é a criação de polos de educação a distância pelas próprias instituições já credenciadas para esta modalidade de ensino. 

“Com esse decreto, vamos ter um movimento de expansão muito grande do EAD. A tendência é de cursos, que hoje só são oferecidos de forma presencial, passem a ser ofertados de maneira híbrida, com aulas presenciais e a distância, para no futuro, fazerem essa migração para o modelo a distância”, comenta Cruz. 

Hoje, conforme dados do Censo Nacional da Educação Superior, os cursos presenciais representam 95% (32.704) do total de cursos, ficando apenas 5% (1.662) para os cursos a distância. 

Conforme o diretor-executivo do Semesp, Rodrigo Capelato, apesar do aumento na procura pela modalidade a distância, nem todos os cursos superiores podem ser oferecidos desta forma, segundo o MEC.

“Em 2016 foram criados 676 novos cursos presenciais e 189 na modalidade a distância. Os cursos mais procurados foram Pedagogia, Administração, Serviço Social, Ciências Contábeis e Gestão de Pessoas/Recursos Humanos”, comentou. 

Perfil do estudante
 

No ano passado, com o objetivo de identificar quais as principais motivações que levam um aluno a ingressar, permanecer ou abandonar um curso EAD, uma pesquisa foi encomendada pelo Semesp à Folks Netnográfica e à Num.br. O levantamento, de acordo com Capelato, apontou que o EAD não é para todos, mas para aquelas pessoas que estão querendo fazer faculdade e não têm condições de cursar de forma presencial, em geral por questões de tempo, deslocamento ou dinheiro. 

“Geralmente são pessoas mais velhas, que não puderam fazer uma graduação quando jovens e hoje têm família e um trabalho, mas precisam buscar uma qualificação profissional melhor”, comenta.  

Entre os principais benefícios da modalidade a distância ele cita a flexibilidade, acessibilidade, além da economia de tempo e dinheiro. 

Já entre os aspectos negativos, segundo o diretor-executivo do Semesp, o estudo apontou que ainda existe muitos preconceito com o ensino a distância. “A desinformação e o preconceito geram desconfiança e insegurança nos potenciais alunos e a qualidade da oferta contamina a percepção da validade do método. Há ainda relatos de dificuldades em dominar a plataforma e da falta de contato presencial com professores e tutores”.

“Da mesma forma que existem cursos presenciais bons e ruins, existem cursos a distância que também são bons e ruins. Não existem dois cursos de uma mesma graduação, as grades são iguais, o diploma é o mesmo, o que muda é a modalidade, que não é presencial. Isso tende a mudar a perspectiva de quem vai optar pelo curso a distância. Essa imagem de que o curso é mais fácil não existe. Precisa ter disciplina e organização. A grande vantagem, porém, é a mobilidade que o curso permite”, comenta. 

Estudante conseguiu estágio com curso EAD

Estudante de Pedagogia, Soraia Cristina Mineiro Batista, de 44 anos, afirma que, ao contrário do que muitos pensam, estudar a distância, muitas vezes, exige mais do aluno do que em um curso presencial. Isso porque, segundo ela, cabe ao estudante organizar melhor o seu tempo e ter disciplina para cumprir tarefas e prazos.

Com formação em magistério,  Soraia conta que a decisão por ingressar em um curso EAD surgiu após exigências do mercado de trabalho. “Muitas escolas exigem graduação e acabei descobrindo que a faculdade a distância tinha um valor mais em conta”.

Por mês, a estudante desembolsa R$ 183,00. Em um curso presencial na mesma instituição, o preço da mensalidade seria em torno de R$ 670,00. “Vale muito a pena porque tem a mesma grade curricular que a presencial. É um erro o aluno achar que só vai aprender se estiver em uma sala de aula”, comenta a estudante, que após ingressar na universidade, passou a fazer parte de um grupo de estudos virtual.

Soraia diz que o EAD exige muito mais do aluno do que um curso presencial (Foto: Irandy Ribas / AT) 

“Nós, do EAD, criamos um grupo no WhatsApp onde discutimos todo o conteúdo que é disponibilizado na aula. Embora seja pouco valorizado, ele é tão importante quanto o curso presencial. As vantagens é que você, além de disponibilizar um recurso financeiro bem menor, pode adequar o horário dos estudos às suas necessidades”.

Como no curso a distância o estudante fica responsável por controlar o seu aprendizado, Soraia conta que reserva o período da noite para colocar os estudos em dia. E nem mesmo fim de semana e feriados ficam de fora quando o assunto é estudo.

“A cada semana, tenho que assistir às videoaulas, responder questionários, participar de fóruns. Há todo um planejamento até o dia da prova, que é presencial. No EAD, assim como em um curso presencial, há prazos. Se engana quem pensa que o curso é mais fácil”.

E para aqueles que ainda não tomaram coragem em ingressar em uma universidade a distância, Soraia dá o exemplo. Ela conta que foi graças ao curso que conseguiu retornar ao mercado de trabalho após ter sido desligada de seu antigo emprego.

Desde maio deste ano, ela integra o quadro de funcionários de uma escola particular de Santos e já sonha com uma especialização ao término do curso de graduação.

“Consegui este estágio remunerado graças à faculdade, que tem convênio com o CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola). Na escola onde trabalho, até brigam comigo quando falo que sou estagiária. Eles falam que sou parte da equipe. Quando acabar o curso, penso em me especializar em pedagogia hospitalar”.

O interesse na área, segundo ela, surgiu por também já ter formação como auxiliar de enfermagem. “Na escola onde trabalho, a dona ficou encantada com essa possibilidade de dar aula a crianças hospitalizadas. Existe então a chance da instituição ser pioneira com esse tipo de trabalho”, comemora. 

 

Veja Mais