Jovens que param de estudar cometem mais delitos, diz especialista

Seminário realizado por A Tribuna debateu os caminhos da reeducação de menores infratores da Fundação Casa

06/10/2017 - 09:05 - Atualizado em 06/10/2017 - 09:07

Seminário complementa caderno publicado em AT sobre a Fundação (Fotos: Vanessa Rodrigues/AT)

Entre os 8.645 internos da Fundação Casa que estão matriculados nas aulas oferecidas dentro da instituição, apenas 5,3% frequentam a série condizente com a idade que têm. Levando em consideração apenas as unidades do Litoral, a porcentagem é ainda menor. De 462 internos matriculados, somente 3,8% não apresentam distorção idade-série.

Os números foram apresentados na quinta-feira (5) pela superintendente pedagógica da Fundação Casa, Marisa Fortunato. Ela participou dos debates do seminário A Região em Pauta que teve como tema a radiografia dos internos da Fundação Casa. O encontro complementa o caderno especial publicado por A Tribuna, em 3 de setembro, sobre o tema. O seminário de quinta contou com a abertura do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Seminário contou com a presença do governador Geraldo Alckmin, que abriu o evento

A superintendente garante que "a adolescência é o período que mais se morre, então é importante falarmos sobre isso. Nesse cenário, é preciso pensar na educação".

Os dados mostram que os jovens que param de estudar, cometem mais delitos", diz Marisa Fortunato

Para Marisa, os dados são fundamentais para que se desenvolvam políticas públicas preventivas em relação à violência entre jovens. “A maioria dos internos está nos anos finais do Fundamental. Um menino de 17 anos que está na 6ª série não consegue frequentar as aulas regulares com crianças e vai para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Por isso, a importância da EJA estar bem estruturada”. 

Em um dos painéis foi debatida possíveis mudanças no ECA

O censo inédito realizado pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT) mostrou que a maioria dos internos nas unidades da Baixada tinham histórico de insucesso escolar ou evasão. 53,7% dos entrevistados, por exemplo, estavam fora das salas de aula antes de serem internados. 

“A questão da juventude não pode ser discutida só pela Fundação e pelo Judiciário. Quando eles vão para a internação, a grande maioria já está um período fora da escola. A Educação é um fator que pode contribuir para mudanças sociais”, afirma. No entanto, Marisa reconhece que hoje a área vem enfrentando desafios, principalmente para estimular e evitar que os jovens, em especial os mais vulneráveis, larguem a escola.

Busca Ativa

E na tentativa de evitar a evasão escolar e distanciar os jovens da criminalidade, especialistas apontam que é fundamental haver programas eficazes de busca ativa. Em Santos, segundo a chefe da supervisão de Ensino da Secretaria Municipal de Educação, Monica Croce, é o orientador quem acompanha o aluno na aprendizagem e também na frequência escolar, tentando identificar, quando necessário, os motivos que o afastaram das aulas.

“Claro que temos dificuldades de cumprir a questão da busca ativa. Até porque sabemos que há locais em que a escola não consegue entrar e quando nossos recursos se esgotam, fazemos a Ficha de Comunicação do Aluno Infrequente (Ficai) e encaminhamos para o Conselho Tutelar”.

Seminário abordou caminhos para a reeducação de menores infratores

Porém, para o presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Santos, Edmir Nascimento, há um erro na forma como a Ficai vem sendo trabalhada na cidade. O principal motivo é tentar chegar às famílias por meio de cartas, telegramas e telefones.

“Hoje, ninguém vai à casa dessas crianças. Em 2015, com recursos do Fundo (do CMDCA), desenvolvemos, como piloto, o Projeto Colibri. E o êxito foi grande porque as visitas eram à noite ou aos sábados e domingos”, detalha. Nascimento garante que a importância do projeto fazer parte do orçamento da Prefeitura já foi colocada ao Executivo. Além disso, a iniciativa está na lista a ser deliberada pelo conselho para receber verba do fundo da entidade e passar a vigorar em 2018. “Porém, a ideia é atender toda a cidade, inclusive as escolas do Estado”, afirmou Nascimento que disse ainda que esta é uma alternativa importante para reverter a questão da evasão escolar “com uma busca afetiva, qualificada e não apenas no papel”.

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