Intoxicação atinge 37 jovens por dia no Brasil, aponta balanço

Faixa etária mais atingida é a de 1 a 4 anos; medicamentos são os maiores causadores

17/07/2018 - 07:45 - Atualizado em 17/07/2018 - 22:32

O número é alarmante: a cada 40 minutos, uma criança sente os efeitos do uso incorreto de remédios no País. E aquelas com idade até 4 anos são as que mais estão sujeitas aos riscos da intoxicação pela exposição inadequada a medicamentos. As conclusões são de um levantamento inédito feito pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que revelou o impacto negativo desse problema para a saúde dos mais jovens.

O estudo mapeou todos os casos de abuso de medicamento em pessoas de 0 a 19 anos, de 1999 a 2016. De acordo com o Sistema Nacional de Informações Toxico-farmacológicas (Sinitox), mais de 245 mil casos de intoxicação foram registrados no período. O que dá uma média de 37 episódios a cada dia.

Nos últimos 18 anos, o mau uso de medicação provocou 240 mortes – sendo 31 delas no Estado de São Paulo, segundo local com maior incidência, atrás somente da Bahia (36 óbitos).

O pediatra Anthony Wong, do Departamento de Toxicologia e Saúde Ambiental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), argumenta que os números estão subdimensionados. Argumenta que faltam sistemas integrados nas unidades médicas e que o diagnóstico feito pelo médico às vezes é impreciso. “Nos Estados Unidos, intoxicação por medicamento leva mais de 2 milhões de crianças para os hospitais todos os dias. É a segunda causa médica entre os mais jovens”.

Wong aponta o grande número de casos de reações adversas que não são comunicadas às autoridades sanitárias ou médicas. Em parte, por serem consideradas brandas ou por se confundirem com sinais e sintomas de outros problemas de saúde.

Maior risco

O levantamento mostra que o risco de intoxicação é maior entre pessoas de 1 a 4 anos. “Mais da metade dos casos registrados referem-se a acidentes com crianças nessa faixa-etária. Elas são naturalmente muito curiosas e querem colocar tudo na boca, o que faz parte do desenvolvimento. Além disso, os medicamentos da linha pediátrica possuem embalagens coloridas e cheirosas, que estimulam os sentidos da criança”, diz a presidente da SBP, Luciana Rodrigues Silva.

Conforme a publicação, 130 mil crianças de zero a quatro anos receberam atendimento médico por mau uso de medicação no período analisado. Esse grupo também foi maioria em Santos, com 115 casos no ano passado (51% do total). “A intoxicação é 100% preventiva. O acidente só ocorre por descuido, geralmente dos pais”, comenta Wong.

Ele sustenta que a forma mais eficiente de evitar esse problema é não deixar medicação ao alcance dos mais jovens. “O principal é sempre armazenar fármacos e produtos de limpeza nos locais mais elevados, de preferência em armário com chave”, recomenda.

Influência

O segundo grupo mais atingido foi o de 14 a 19 anos, com 42.614 casos. Wong explica que nessa faixa-etária o adolescente já tem conhecimento dos riscos pelo consumo indevido de remédios, mas adota a automedicação por influência dos pais. Na sequência, aparecem grupo de crianças de 5 a 9 anos (32.668) e de 10 a 14 anos (24.282).

Luciana acrescenta que a intoxicação não acontece somente quando a criança ingere quantidade elevada de medicação ou gera reação adversa. O processo pode ser desencadeado no instante em que os pais decidem medicar seus filhos sem avaliação de um profissional ou com base em conselhos de amigos.

“Mesmo com a prescrição médica é preciso ter cuidado, pois as diferenças nas dosagens podem gerar complicações, em especial quando a medida é feita com base em uma colher de sopa, de sobremesa ou de café”.

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