Idoso que conseguiu emprego após reportagem apela por mais uma chance

Eurico Andria, de 75 anos, conta que acabou dispensado após os 45 dias da experiencia

12/09/2018 - 07:43 - Atualizado em 13/09/2018 - 10:29

Seu Eurico tinha a esperança de melhorar de vida, mas voltou ao desespero de antes (Foto: Rogério Soares/AT)

"Vou tentar não falar muito, porque posso começar a chorar aqui". A frase é do aposentado Eurico Andria, 75, cuja história, contada por A Tribuna On-line em junho de 2017, emocionou os internautas. Sem emprego e em dificuldades financeiras, ele despertou a atenção de uma jovem estudante, que chegou a fazer um apelo nas redes sociais. A ajuda veio, a vida melhorou, mas tudo voltou ao que era antes.

A história do aposentado começou graças a um post que viralizou nas redes sociais, publicado pela estudante de Odontologia da Universidade Santa Cecília (Unisanta), Bárbara Maia Romano, que se solidarizou com Eurico e buscou ajuda. Procurado, ele contou à Reportagem, na ocasião, sobre as dificuldades que estava passando.

Em meio ao desespero, disse que seu aluguel estava atrasado, pois não conseguia nenhum trabalho para sobreviver, e que dependia de amigos e conhecidos até mesmo para se alimentar - chegou a comer bananas por vários dias seguidos, pois era o que havia conseguido por meio de um vizinho. Seu medo era o de ter que morar na rua, e de não conseguir lidar com essa realidade.A comoção em torno de seu caso fez efeito e, um mês depois, o aposentado conseguiu um emprego - mas o que parecia um final feliz durou, infelizmente, muito pouco.

45 dias

Segundo Eurico, sua vida hoje é praticamente igual ao que era antes das reportagens do ano passado. Um cenário bem diferente do que sonhava, quando começou a receber as ligações e convites de empresas lhe oferecendo uma oportunidade.

"Recebi alguns convites na época, e aceitei o que achei a melhor. Comecei como ascensorista e uma semana depois fui para a portaria. Mas, 45 dias depois, fui chamado. Achei que era para me efetivar, só que quando vi, foi pra me demitir. Eles explicaram dizendo que o prédio não tinha o movimento esperado", contou o aposentado.

Ele diz que ficou triste. Formado em Economia pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), ele disse que, na época, tinha a esperança de evoluir na empresa. "Esperava começar por baixo, mas ir procurando meu espaço, galgando posições", explicou.

"Relações públicas"

Diante da falta de opções, restou a Eurico voltar a fazer os bicos de antes. Ele não chama o serviço de "panfletagem", e sim de "relações públicas", pois sempre conversa com as pessoas antes de entregar o material.

Ele conta que faz esse trabalho há 10 anos, desde quando se aposentou, para complementar sua renda. Mas, no início, não foi fácil para o aposentado aceitar a tarefa.

"Quando me aposentei, não achei emprego. Então uma pessoa me convidou para fazer panfletagem, mas eu neguei, pois tinha vergonha de "entregar papelzinho", sendo graduado. Eu achava que as pessoas iam dar risada de mim. Foi aí que essa pessoa respondeu que ou eu aceitava, ou procurava meus amigos para me ajudarem. E quando estamos nessa situação, não temos amigos", desabafou.

Sem escolha, Eurico começou a panfletar. E, por trabalhar bem, começou a receber indicações, e graças a isso consegue sobreviver, mesmo recebendo um salário mínimo de aposentadoria. Mas sua vida está longe de ser confortável - pelo contrário.

"Tem dias que aparece bastante serviço, mas em outros não tem. Aos fins de semana, por exemplo, não trabalho. Quando chove ou está frio, ninguém quer parar para receber o material ou conversar", revela. Além disso, há quatro anos ele recebe o mesmo pelo trabalho, que começa cedo e vai até o fim da noite. "Eu ganho R$ 25, menos do que pagam para os mais jovens, que muitas vezes jogam os panfletos fora mas chegam a ganhar R$ 35 por dia", afirma.

Crise

Recentemente, para contornar a situação, Eurico fez um empréstimo consignado que, segundo ele, desconta quase R$ 400 de parcela de sua aposentadoria. Com o que sobra, ele paga o aluguel de sua casa, R$ 550. O resto, fica por conta das "relações públicas". Mas esse mês, a situação que já era crítica ficou insuportável.

"Esse mês, para piorar, aconteceu um erro no banco, que me descontou mais do que devia, e eles dizem que só vão me reembolsar mês que vem. Mas meu aluguel venceu ontem (dia 10), e eu só paguei R$ 150. Eu entrei em parafuso, e estou desesperado", contou.

Para o aposentado, a grande agonia é a de não saber como será o seu futuro. Por isso, finalizou seu depoimento com um apelo simples: ele quer uma oportunidade de trabalho. "Quem tem emprego fixo sabe o quanto pode gastar pois sabe quanto ganha. Eu não sei o que é isso, e não sei mais o que fazer", lamenta.

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