Hospital São José completa 100 anos e voltará atender pelo SUS

Data será celebrada nesta quarta (26), quando a instituição assinará contrato de cinco anos com a Prefeitura de São Vicente

23/09/2018 - 15:00 - Atualizado em 23/09/2018 - 15:00

Decisão de construir hospital foi tomada por conta da crise de febre espanhola que País vivia (Foto: Divulgação)

A missão principal das santas casas é receber os mais carentes. Não por acaso, a maioria delas costuma carregar no nome a palavra “misericórdia” – do latim, “doar o coração a outrem”. Porém, prestar atendimento aos mais necessitados nem sempre é viável, culpa das limitações orçamentárias.

Prestes a completar 100 anos – na próxima quarta-feira (26) – o Hospital São José, em São Vicente, assina convênio de cinco anos com a Prefeitura da Cidade para que a entidade volte a atender pacientes do SUS, o que não ocorria desde 2011.

A Administração Municipal será responsável pela gestão de 32 leitos de internação, de cinco vagas de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e de duas salas de cirurgia.

“Depois do tsunami que passou por esta Santa Casa no início dos anos 2000, praticamente reconstruímos o hospital ao longo dos últimos 13 anos. Estamos diante de um nova fase”, frisou o provedor do São José, Carlos Gigliotti.

Um grupo formado por 15 médicos de diferentes especialidades também arrendou quatro das oitos salas cirúrgicas. Cinco UTIs também serão utilizadas pelo complexo.

Hoje, o São José mantém um pronto-socorro para atender pacientes particulares e de planos de saúde, assim como 70 leitos de internação.

O próximo passo do provedor é buscar recursos para reformar as alas C e D do complexo, o que permitiria a instalação de mais 100 vagas para internação. “Já temos o projeto pronto. Estamos dando um passo de cada vez. Temos boas perspectivas para o futuro. Fazemos um trabalho árduo em equipe para tentar colocar o São José em um patamar regional de onde jamais deveria ter saído”, disse Gigliotti.

Inovação tecnológica

Na próxima quarta-feira, serão inaugurados um novo laboratório e a clínica de oftalmologia do hospital. Além disso, a Mult Imagem fez um grande investimento e começará a fazer diagnóstico por imagens para pacientes particulares e de planos de saúde. A expectativa é que a unidade também possa atender ao SUS no futuro.

“O São José chegou a ser um hospital de ponta, com grandes equipes médicas e até residências médicas. É o único grande hospital de São Vicente. Ele será incrementado para atender melhor os pacientes da Cidade e vai se tornar o hospital de todo o Litoral Paulista mais bem aparelhado em diagnóstico por imagem”, garantiu o diretor da Mult Imagem, o médico José Carlos Clemente.

Conforme ele, os serviços de tomografia computadorizada, ressonância magnética, raio-X e ultrassom estarão à disposição 24 horas por dia.

Outros exames agendados, como mamografia e densitometria óssea (exame de imagem para diagnosticar a osteoporose), serão feitos somente em horário comercial.

Papel estratégico

O prefeito Pedro Gouvêa (MDB) destacou que ele e sua equipe trabalharam muito nos últimos meses para viabilizar esse convênio com o hospital. Mensalmente, serão repassados R$ 200 mil à instituição – esse valor já leva em consideração o aluguel pago pelo prédio onde fica a maternidade, que é gerenciada pela secretaria municipal de saúde.

“O São José é a nossa Santa Casa, salvou muitas vidas e está cravado no meio do Município. Sua história se confunde com a de São Vicente. Queremos utilizar os leitos de imediato, nos próximos dias. Vamos equipar rapidamente o centro cirúrgico para começar a operar”, frisou.

Essa medida integra um pacote de mudanças na saúde que a Administração Municipal pretende dar seguimento nos próximos meses. O Hospital Municipal (antigo Crei) passará por uma ampla reforma e a ideia é que ele seja gerenciado pelo Governo do Estado.

Diante disso, a Prefeitura pretende transferir o pronto-socorro (PS) do complexo para outro endereço, permitindo a ampliação do número de leitos (hoje são 90).

O PS deve ficar no imóvel ocupado pelo Centro de Especialidades Médicas, na Vila Margarida (Avenida Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, 425). Já essa unidade passaria para uma construção na Rua João Ramalho, no Centro.

Gripe espanhola

A campanha em São Vicente para a criação do Hospital São José foi lançada pelo jornal O Progresso, devido ao surto de gripe espanhola que assolava o Litoral Paulista. Como a Santa Casa de Santos, o único complexo de saúde da região, estava superlotado, muitos moradores vicentinos tinham dificuldades para conseguir atendimento.

Com a crise, Ofélia Chaves Meirelles, esposa do presidente da Câmara naquele ano, José Meirelles, organizou uma série de reuniões para viabilizar a empreitada com Maria das Dores Bensdorp e Maria José do Amaral Reippert.

A assembleia geral que resultou na fundação da Associação Protetora do Hospital São José ocorreu em 26 de setembro de 1918, na antiga sede do Legislativo (atual Paço Municipal).

Segundo a publicação Polianteia Vicentina, os primeiros atendimentos foram feitos no salão da Casa Paroquial da Igreja Matriz até a construção do novo prédio com a frente voltada para a Rua XV de Novembro, em junho de 1921.

Já a edificação atual, cuja entrada principal fica na Rua Frei Gaspar, foi concluída em setembro de 1930. Em fevereiro do mesmo ano, a unidade teve um papel fundamental no atendimento às vítimas da explosão de um depósito de dinamites instalado na Cidade. O complexo era mantido com a contribuição dos associados e com a arrecadação de recursos por meio de eventos.

Em 1939, a pequena subvenção repassada pela Prefeitura ao São José chegou a ser suspensa pelo então chefe do Executivo, Rodolpho Mikulasch, devido às dificuldades financeiras. Somente em janeiro de 1940, o pagamento das verbas foi normalizado para superar a primeira crise.

A maternidade foi inaugurada em 1952 e a primeira cirurgia ocorreu no complexo quatro anos mais tarde. O hospital chegou ao ponto de quase fechar as portas em razão dos altos encargos e da falta de verbas do poder público.

Nem mesmo uma campanha feita pelos comerciantes e pelos cidadãos evitou o pior, em novembro de 1960. Esse tipo de situação ocorreu por diversas vezes dali em diante.

Intervenção

Em 4 de janeiro de 1993, o prefeito Luiz Carlos Luca Pedro (PT), decretou estado de calamidade pública do Município e a intervenção do São José. Na ocasião, os funcionários estavam há 11 dias de greve pelo não pagamento do 13º salário.

A medida foi revogada em janeiro de 1997 pelo novo chefe do Executivo e atual governador Márcio França (PSB). Em 2002, um novo grito de socorro foi dado por mais de uma centena de sindicatos e entidades. A mobilização deu resultado: o Estado liberou uma verba emergencial para impedir o fechamento.

Em julho de 2004, os funcionários entraram em greve para reivindicar os pagamentos atrasados. As negociações duraram nove meses e algumas paralisações no atendimento foram registradas – a maior delas durou 57 dias consecutivos.

Em março de 2005, sob o comando de Carlos Gigliotti, foi possível reverter a situação. Um mutirão realizado pelos funcionários ajudou a colocar o hospital em ordem. A ação também contou com a ajuda de oficiais do Exército.

Em 2011, por conta das dificuldades financeiras e do atraso de repasses da Prefeitura e do Estado, o São José deixou de atender os pacientes do SUS. E, em julho daquele ano, a Administração Municipal passou a gerir a maternidade instalada no complexo.

Veja Mais