Família de jovem morto em UPA de Santos denuncia negligência de funcionários

Lucca Morroni apresentou síndrome hepatorrenal; gestora nega omissão mas apura caso

10/10/2018 - 09:39 - Atualizado em 10/10/2018 - 15:56

Luca tinha 13 anos e veio a falecer no último dia 11, na 
UPA Central (Foto: Arquivo pessoal)

A morte de uma criança de 13 anos, ocorrida em setembro, dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central, no bairro Vila Matias, em Santos, gerou suspeita de negligência de funcionários do local. O caso veio à tona após divulgação, nas redes sociais, de vídeo com a família da vítima.

Lucca Morroni, de 13 anos, faleceu devido a uma síndrome hepatorrenal - uma alteração da função renal que ocorre em pacientes com insuficiência hepática, no dia 11 de setembro. Quem aponta omissão da equipe da UPA no caso é o pai do adolescente, Glauco Francisco Morroni. 

De acordo com Glauco, Lucca chegou à unidade por volta das 11h do dia 10 de setembro, em uma ambulância, com febre e dores na região do abdome, além de não conseguir andar e apresentar fraqueza. Ao chegar na UPA, os problemas começaram.

"Deveriam ter feito todos os processos de andamento para exame de sangue e tal, e já realizar a transferência para a Santa Casa, por exemplo. Ele estava muito amarelo, aparência que talvez tivesse que passar por alguma cirurgia, uma situação de vesícula, muitas dores no abdome. Ele estava muito mal, não conseguia nem andar. O estado dele era gravíssimo, mas tiraram ele da emergência. Fizeram ele passar pela triagem numa cadeira de rodas", contou.

Morroni explicou que, apesar da classificação do filho ser da cor vermelha - que necessita de atendimento imediato, o filho só foi para a emergência no período da noite, sendo que outros casos passaram à frente na fila de atendimento. Durante a madrugada, o estado de Lucca piorou.

"Meu filho estava gritando, sofrendo. Eles negaram medicamento, negaram socorro. Negaram todo tipo de tratamento. Me trataram com um descaso enorme. Falavam 'me desculpe, eu não posso fazer nada'. Eu queria falar com alguém da minha família para tirar o Lucca de lá porque iam matar meu filho, mas não me deixavam sair porque, segundo eles, se eu saísse, iria trazer vírus para a sala de emergência na volta. Também não deixavam eu usar celular lá dentro por causa dos equipamentos. Só que eles saíam o tempo todo da emergência, ficavam na área onde a ambulância encosta, todos fumando e rindo. É uma coisa fora de contexto. Meu filho gritando de dor e eles nada", relatou.

Glauco disse que, na manhã do dia 11, houve piora do quadro médico de Lucca. Neste momento, houve a troca do médico de plantão, e a nova profissional teria demonstrado espanto com a situação.

"Meu filho já estava gaspeando (com respiração difícil), indo a óbito. Imagina meu desespero. Ela (médica) olhou para todos e falou: 'Gente, pelo amor de Deus! Vocês demoraram demais!'. Ela olhou para o meu filho totalmente transtornada. Quando ela me viu, perguntou quem eu era e pediu para me tirarem de lá na hora. Já foi ligar para fazer a transferência. Ela conseguiu chamar a ambulância para fazer a transferência na hora, mas quando a ambulância chegou, meu filho já estava morto. Tudo em 24 horas", contou.

O pai do adolescente contou que pessoas que presenciaram o ocorrido se colocaram à disposição da família para testemunhar sobre a denúncia de negligência por parte da equipe da UPA Central. Ele explicou que não busca nenhum tipo de vingança contra a equipe da UPA Central, mas que quer justiça para que outras famílias não enfrentem casos semelhantes.

"Eu queria era meu filho de volta e isso não vou ter. Só não quero que mais casos como esse aconteçam e que essas pessoas não possam clinicar mais. Não é raiva. Perdoar até perdoo. Mas a justiça também tem que existir", finalizou. 

Gestora nega negligência e lamenta morte

Gestora da UPA Central disse que prestou toda a assistência ao paciente (Foto: Irandy Ribas/AT)

Procurada por A Tribuna On-line, a Fundação do ABC, responsável pela gestão da unidade de saúde, informou, por meio de nota, que prestou toda a assistência ao paciente e lamenta que o esforço dispensado não tenha sido suficiente para salvar sua vida.

A unidade de saúde também comunicou que aguarda resultados de exames enviados ao Instituto Adolfo Lutz, do Governo do Estado, que podem determinar a causa da morte. No entanto, teria sido relatado pela família, de acordo com a Fundação ABC, que o garoto já vinha apresentando problemas de saúde há pelo menos duas semanas, com histórico de passagens pelo Pronto-Socorro da Zona Leste.

Segundo a nota, o paciente deu entrada na UPA Central de Santos em 10 de setembro, às 11h05. Passou pelo sistema de Classificação de Risco às 11h17 e foi atendido pelo médico às 11h45. Em seguida, foi encaminhado para a sala de medicação para antibióticoterapia, hidratação e coleta de exames laboratoriais. A família foi orientada a permanecer com o paciente em observação na sala de medicação até a chagada dos resultados dos exames. Ao longo da tarde, o paciente foi reavaliado pelo médico responsável às 13h37 e às 14h02, quando foi solicitado exame de raio x e prescrita nova medicação.

O resultado do hemograma foi disponibilizado às 17h40, quando o médico solicitou a internação. No entanto, de acordo com a gestora, o paciente e o acompanhante não se encontravam mais na UPA. Somente às 20h30, paciente e familiar foram localizados novamente na unidade. O garoto foi direcionado imediatamente para a sala de emergência, foi novamente medicado e seguiu monitorado pelas equipes assistenciais da UPA.

Paralelamente, em função da especificidade do caso, a UPA solicitou vaga à Central de Regulação Municipal para transferência do paciente a um hospital com maior complexidade e com os recursos necessários para o atendimento adequado.

Às 7h30 do dia 11 de setembro, o paciente apresentou piora clínica significativa e evoluiu para o quadro de parada cardiorrespiratória. Todos os procedimentos de reanimação foram realizados, mas, infelizmente, o óbito foi constatado às 8h15.

A Fundação do ABC informou que o caso está sendo apurado internamente por duas comissões da UPA, ambas registradas no Conselho Regional de Medicina – Comissão de Ética Médica e Comissão de Óbitos –, no intuito de garantir que todos os procedimentos adotados seguiram os padrões técnicos estabelecidos.

Veja Mais