Evasão escolar recua no Brasil; cidades da Baixada atuam para recuperar alunos

Entre 2010 e este ano, taxa caiu de 2% para 1,1% no Ensino Fundamental Público

19/11/2017 - 20:27 - Atualizado em 19/11/2017 - 20:28

Damião da Silva vai a campo saber o que leva a criança a deixar a escola (Foto: Alexander Ferraz A Tribuna)

Ao longo dos anos, o País vem reduzindo a taxa de abandono escolar. Em 2010, por exemplo, nos anos iniciais do Ensino Fundamental público (redes municipal e estadual), a taxa era de 2%, aumentando para 5,3% nos anos finais e 11,5%, no Ensino Médio. Ano passado, os números caíram para 1,1%, 3,5% e 7,5%, respectivamente. A redução, porém, não significa que esta é uma questão solucionada. Pelo contrário. Principalmente quando se percebe que por trás das frias estatísticas estão crianças, jovens e suas histórias. 

Na Baixada Santista, a taxa de abandono escolar na rede pública (municipal e estadual) é de 1,63%. Isso representa pouco mais de 4 mil estudantes longe dos bancos escolares em 2016, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), compilados pela organização QEdu. É praticamente como se todos os estudantes do Ensino Médio da rede estadual de Cubatão – que ano passado tinha quase 4.500 matrículas –, simplesmente, deixassem de ir à escola.

Segundo o QEdu, a evasão escolar acontece quando o aluno abandona a escola ou reprova em determinado ano letivo, e no ano seguinte não efetua a matrícula para dar continuidade aos estudos. 

Fatores

Diversos fatores influenciam. Falta de interesse pela escola, dificuldades de aprendizado, doenças crônicas, problemas com transporte escolar, falta de incentivo e a necessidade de trabalhar, principalmente no Ensino Médio. Na região, a taxa desta etapa, comparada com os anos iniciais e finais, é a maior: 3,8%.

Para o chefe da área de Educação da Unicef no Brasil, Ítalo Dutra, um dos instrumentos que as redes precisam desenvolver para conseguir chegar a esses alunos, e barrar o abandono escolar, são ações de busca ativa. 

Para ele, essa é uma ferramenta poderosa tanto para diminuir a evasão, quanto para construir políticas públicas para a garantia de direito de crianças e jovens. Isso porque, explica, Dutra, quando se identifica o motivo do aluno ter deixado a escola, é possível melhorar toda uma rede de atendimento.

Programas de busca, como o de Itanhaém, auxiliam 
contra a evasão (Foto: Alexander Ferraz/A Tribuna)

Positivo

O município de Itanhaém conseguiu estruturar o Programa Social Escolar, que vem rendendo bons frutos. Isabela Monzu é coordenadora de uma escola da rede municipal da Cidade e, na última terça-feira, chegou à sede do programa com uma pasta que reunia as tentativas de contato do colégio com os pais de um dos alunos que está faltando muito.

O Programa Social Escolar tem o objetivo de encontrar e analisar os casos de alunos infrequentes, depois que a escola tentou contato e não conseguiu. Coordenado por Damião Avelino da Silva, o trabalho teve início em 2005. 

Começou com ele indo de ônibus ou a pé até a casa das famílias. "Depois ganhei uma bike", brinca ele. Hoje, a equipe localiza os alunos faltosos, chega até as casas, inclusive em horários alternativos, e identifica os problemas, servindo como ponte entre as famílias e os serviços da Prefeitura.

"Essa é a forma mais efetiva da gente ter o aluno de volta. Muitas vezes, a escola não consegue resolver a questão por meio de um contato telefônico. Ter uma equipe para ir até a família, sentar, conversar, é fundamental", analisa Isabela.

Atendimento

Os agentes do programa são divididos por região e passam nas suas respectivas escolas uma vez por semana para dar algum tipo de retorno ou saber se a escola tem algum novo caso. “Às vezes, os pais nem sabem que a criança está faltando. Às vezes, é problema de doença ou financeiro. Por isso, o atendimento do passe e do ônibus escolar também é vinculado a nós”, explica Damião.

Outras vezes, diz ele, os alunos estão envolvidos com drogas ou sendo aliciados pelo tráfico. Daí, o trabalho do grupo é ainda mais importante e urgente. “Porque se demora muito, a gente já não consegue fazer esse aluno voltar”. Nesse trabalho, o grupo encontra até mesmo crianças em idade escolar que nunca foram à escola.

Demais cidades

Em relação às redes municipais, assim como Itanhaém, Praia Grande também tem uma equipe, no caso as pedagogas comunitárias, que vai até a casa dos alunos quando a escola não consegue contato depois de faltas consecutivas. Em Bertioga, a orientação é que alguma representante da própria escola faça isso. 

De acordo com Mongaguá, o município não dispõe de um mecanismo específico de busca de alunos evadidos. No entanto, parte dos problemas acabam sendo identificados por equipes da Assistência Social.

Cubatão, por sua vez, informou que "comumente" a ação de busca ativa é realizada pelos orientadores educacionais. Mas não deu detalhes sobre as atividades.

Em Santos, o sistema é realizado por meio da Ficai, a Ficha do Aluno Infrequente. Em parceria entre a Seduc e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, a Ficai é preenchida pela orientadora educacional da escola e encaminhada ao Conselho Tutelar que, para localizar as famílias, realiza telefonemas e envia telegramas.

Em Peruíbe, ao ser verificada a frequência irregular, as unidades escolares realizam a convocação da família. Quando necessário, acionam o Conselho Tutelar.

Guarujá e São Vicente

Conforme a Secretaria de Educação de Guarujá, as orientadoras educacionais, em parceria com os Centros de Referências de Assistência Social (Cras) e demais órgãos fazem o diagnóstico de evasão em toda a rede municipal. 

Uma das ações é o projeto Quem Falta Faz Falta!, desenvolvido por meio do plano de ação a cada bimestre. 

São Vicente não respondeu até a última atualização desta reportagem. 

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