Estudo da Unaerp Guarujá analisa rejeitos de Mariana, devastada pela lama

Professor coletou amostras de sedimentos da cidade afetada pela maior tragédia ambiental do Brasil

05/11/2017 - 11:47 - Atualizado em 05/11/2017 - 12:01

Com rompimento de barragem, lama arrasou Mariana (Foto: Rogério Alves/TV Senado/Arquivo)

Alunos e professores do curso de Engenharia Civil da Unaerp Guarujá realizam pesquisa com sedimentos coletados em nove pontos dos leitos dos rios e córregos da região de Mariana, em Minas Gerais. As amostras contêm areia e rejeitos de mineração, que ficaram após o rompimento da barragem da Samarco naquela região, ocorrido em 5 de novembro de 2015. O acidente foi o de maior impacto ambiental da história do Brasil e completa dois anos neste domingo (5). 

O trabalho é coordenado pelo professor Willy Ank de Morais, que é natural de Mariana e foi até a Cidade coletar pessoalmente as amostras. O objetivo é realizar análises físicas, mecânicas, morfológicas e identificar os componentes, para posteriormente verificar a possibilidade de aplicação adequada desse material pela engenharia civil.

O grupo de pesquisa fez a granulometria (determinação das dimensões das partículas) desses sedimentos. A ideia é que, ao final dos estudos, seja verificada a presença de materiais contaminantes nas amostras e de que modo os rejeitos podem ser usados para a fabricação de cimento, tijolos, argamassa e outros materiais. Se isso for viável, a própria população de Mariana poderia ser incentivada a retirar os sedimentos criar uma fonte de renda.

"Selecionamos para estudo a região que teve o impacto mais intenso, a mais ou menos 115 quilômetros do ponto zero (local da barragem). Armazenamos os locais exatos em coordenadas de GPS e vamos reamostrar esses pontos a cada seis meses para avaliar a evolução. Queremos saber qual a composição desse material", explica Morais.

Segundo o professor, o material também poderia ser usado para artesanato e objetos como bancos e assentos sanitários. Como as amostras têm muito ferro, também poderia ser usado para revestir paredes, transformando o revestimento em magnético. Pode ser usado, por exemplo, em obras em que se pretende fazer barreiras para sinal de celular, como prisões.

"Queremos dar uma opção para que os próprios moradores possam desassorear o rio. Usando para um fim econômico adequado, eles terão interesse, é como se fosse um garimpo controlado. Claro, não pode ser feito de qualquer maneira, a escavação precisa ter critério. É isso que estamos estudando".

Para o coordenador do curso de Engenharia Civil da Unaerp, Márcio Tavares, a pesquisa é fundamental para a universidade. "Gosto muito dessa área de pesquisa e a maioria dos alunos estão se aplicando. Muitos dão continuidade fazendo mestrados. Com certeza a pesquisa é um diferencial para o aprendizado e colaborar com a sociedade".

Grupo usa computador e lente para estudar as partículas (Foto: Irandy Ribas/A Tribuna)

Lama por toda parte

Há praticamente dois anos, a folha do calendário das casas de dois distritos de Mariana e um de Barra Longa (MG) foi virada pela última vez. O dia 5 de novembro de 2015 se eternizou nas paredes das casas que ficaram de pé em Bento Rodrigues, Paracatu e Gesteira. 

Desde então, a vida dos atingidos pela lama da mineradora Samarco está suspensa - tantos dias depois do rompimento da Barragem de Fundão, ainda se espera pelo reassentamento, pela indenização, pelo rio límpido, cujas ações de reparo, complexas, enfrentam atrasos e obstáculos que desafiam os órgãos envolvidos.

A espera e a mudança brusca de vida se transformam em depressão nas comunidades. Algumas pessoas não viveram para testemunhar as mudanças. Seus parentes apontam a tristeza como o agente catalisador dos problemas de saúde. São os novos mortos da tragédia de Mariana.

Rompimento de barragem é a maior tragédia ambiental do Brasil (Foto: Christophe Simon/AFP/Arquivo)

Quando os 39,2 milhões de metros cúbicos de rejeito avançaram pelo Rio Gualaxo do Norte (afluente do Rio Doce) e chegaram às ruas de Paracatu, um modo de vida foi soterrado. Para abrigar os moradores, a Samarco alugou residências na cidade de Mariana, de acordo com a disponibilidade do mercado. Os atendidos devem aguardar até que o novo distrito seja construído.

Embora a Comissão de Atingidos da Barragem de Fundão não tenha um levantamento de todas as vítimas, casos de depressão e morte pós-desastre, aconteceram.

O desemprego em Mariana passou de 20%. Há placas na Cidade pedindo a volta da Samarco. O prefeito Duarte Júnior (PPS) afirma que 89% da receita do Município vem da mineração e da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que caiu de R$ 11 milhões para R$ 8 milhões. Ele projeta nova queda, para R$ 6,5 milhões, no próximo ano, quando a Samarco, até hoje com atividade paralisada, zera o pagamento do imposto.

A Samarco e suas acionistas Vale e BHP Billiton, além da companhia contratada VogBR e 22 pessoas, entre dirigentes e representantes, respondem a um processo criminal pela morte das 19 vítimas de 5 de novembro de 2015. A acusação é de homicídio com dolo eventual. A ação é de responsabilidade do Ministério Público Federal.

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