Epidemia de dengue assombra a Baixada Santista

Condições climáticas favoráveis ao mosquito e falta de cuidados formam coquetel para o pior

25/10/2015 - 10:50 - Atualizado em 25/10/2015 - 11:13

Luta para vencer o mosquito da dengue continua

A luta para vencer o mosquito Aedes aegypti, o transmissor da dengue, parece ser cada vez mais inglória. O próprio Ministério da Saúde já alertou sobre uma nova epidemia de dengue no próximo ano. 

Além das condições climáticas favoráveis para a proliferação do mosquito no próximo verão e da inserção do vírus tipo 4, a falta de cuidados por parte da população e a ausência de ações políticas efetivas para amenizar o problema contribuem para um cenário pessimista para o próximo ano.De janeiro a 15 de outubro, foram mais de 17.600 casos confirmados e 15 mortes, segundo dados das prefeituras e do Grupo de Vigilância Epidemiológica da Baixada Santista (GVE 25). Ainda estão em investigação nove falecimentos, que podem ter sido provocados pela enfermidade.

Além disso, já foi o tempo em que a dengue dava uma trégua no inverno. Desde julho, foram 120 casos confirmados e pelo menos uma morte.

Prevenção
Na avaliação do biólogo e professor de Ecologia e de Saúde Pública do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), Fábio Lopes Corrêa da Silva, a região já vive uma situação de “pré-epidemia” por possuir uma grande infestação de mosquitos Aedes aegypti. “A perspectiva para o próximo ano é de que tenhamos uma epidemia de grande vulto, principalmente se o vírus tipo 4 começar a circular na região”, destacou o especialista, que atua há 20 anos nessa área.

O docente entende que a população precisa “tomar as rédeas da situação” para impedir a infestação de mosquitos. Além de cobrar maior vontade política dos gestores para resolver o problema, entende que é “criminosa” a atuação de alguns agentes de controle de vetores, que chegam a burlar dados sobre as visitas domiciliares.

“Nada vai cair do céu. Não dá para ficar esperando a vacina, porque muitas pessoas terão reação alérgica e o vetor pode passar aos seres humanos outras doenças, como a chikungunya”, destacou.

Na visão dele, os insetos transgênicos também não representam a tábua da salvação: o investimento por habitante seria de US$ 60 (R$ 240,00). Além de ser um custo alto para as prefeituras, que não poderiam interromper as demais ações de vigilância, esses insetos vivem só quatro dias e têm dificuldade para conseguir atrair as fêmeas.

Em alerta
A diretora regional da GVE 25, a infectologista Iraty Nunes Lima, explicou que não houve a interrupção de casos de dengue na Baixada Santista durante o inverno, o que não era tão comum no passado.

“Todos os municípios, sem exceção, tiveram registros. Isso representa um fato positivo, porque as pessoas demonstraram que estão preocupadas, mesmo nessa ‘baixa temporada’. Elas tiveram o diagnóstico correto pelas equipes. Mesmo nessa leva de julho para cá registramos um óbito provocado pela doença”, afirmou.

Ela confirmou que o vírus da enfermidade predominante nos primeiros meses deste ano foi o do tipo 1, segundo o Instituto Adolfo Lutz. A médica destacou que o vírus 4 começou a circular na região em meados de 2011.

“A população precisa estar vigilante o tempo inteiro. A Baixada Santista tem todas as condições para a proliferação do mosquito, devido ao calor, à umidade e à grande circulação de pessoas, por ser uma região turística”, explicou.

Previsão
As condições climáticas na Baixada Santista serão favoráveis à proliferação do Aedes aegypti, segundo as previsões do Instituto Somar, instituição que informa a Defesa Civil do Estado. A meteorologista Thaize Baroni explicou que o verão será mais quente e chuvoso do que os dos últimos dois anos na região, mas os índices devem ficar abaixo da média histórica do período. “Por causa do efeito do El Niño (fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento fora do normal das águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico Equatorial), a tendência é de que tenhamos um índice pluviométrico maior, porque as frentes frias costumam chegar com mais facilidade. Por outro lado, elas não devem trazer temporais tão intensos”.

Santos pode ter centro de referência
A Prefeitura de Santos e o Centro Universitário Lusíada (Unilus) estudam fazer uma parceria para a criação de um Centro de Referência de Dengue, no novo Centro de Saúde Escola da instituição, no Macuco.

Conforme o infectologista e professor de Medicina do Unilus, Marcos Caseiro, a ideia foi inspirada no modelo criado pela Prefeitura de Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro.

A ideia é ter um ambiente organizado e preparado para atender pacientes com suspeita da doença e de outras enfermidades, como zika e chikungunya. “Esse centro poderá fazer exames e obter os resultados em tempo real”.

Drones
Santos informou que as visitas casa a casa e os mutirões são agendados a partir da análise semanal de infestação de mosquitos nos bairros. Isso é medido graças às armadilhas instaladas na Cidade (461, no total).

Nos próximos meses, está prevista a utilização de drones para fazer a vistoria em imóveis desabitados ou abandonados. As ações educativas e palestras em empresas, escolas e condomínios são contínuas. Nas áreas com alta infestação de mosquitos, a nebulização será intensificada no verão.

A Prefeitura garante que a rede de saúde está preparada para atender os casos. Durante o ano, são feitas palestras, discussão de casos e esclarecimento de dúvidas com os profissionais das redes pública e particular. No próximo dia 11, haverá o 2° Fórum Municipal de Dengue, na Associação Paulista de Medicina.

Veja Mais