Em 3 anos, mais de 300 animais marinhos mortos na região haviam ingerido lixo

Balanço divulgado pelo Instituto Gremar aponta que as tartarugas são as mais afetadas

12/06/2018 - 15:59 - Atualizado em 12/06/2018 - 15:59

Tartarugas são os animais mais afetados pela ingestão
de lixo (Foto: Divulgação)

Entre setembro de 2015 e maio deste ano, 319 animais marinhos resgatados ainda com vida ou encontrados mortos nas praias da Baixada Santista haviam ingerido lixo. O número faz parte de um total de 1.465 animais atendidos no período pelo Instituto Gremar, que tem bases em Guarujá e Itanhaém, e integra o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS). 

Os mais afetados, de acordo com a bióloga responsável pelo Gremar, Rosane Fernanda Farah, são as tartarugas marinhas, principalmente as da espécie Chelonia Mydas (tartaruga-verde). 

Para se ter uma ideia, das 746 necropsiadas nos últimos três anos, foi constatada a presença de lixo no aparelho digestivo de 267. A causa mortis por ingestão de lixo também foi confirmada em outras 47 aves e cinco mamíferos, no mesmo período. 

Segundo a bióloga, devido ao avançado estágio de decomposição da maioria das carcaças encontradas pelo instituto, nem sempre é possível identificar o motivo da morte dos animais marinhos. Com isso, mais da metade dos que passam por necropsia acaba não tendo um diagnóstico determinado. Mas dentre os devidamente avaliados, ela revela que, sem dúvida, a ingestão de lixo é uma das principais causas de encalhe na região. 

Ainda conforme Rosane, há ocorrências de animais costeiros com presença de lixo no aparelho digestivo, porém, os de hábito oceânico são os mais afetados. 

Interação com o lixo também pode levar animais marinhos a óbito (Foto: Divulgação/Biopesca)

Lixo no mar

Estudos revelam que aproximadamente 8 toneladas de plástico são despejadas nos oceanos a cada ano. E o pior: caso não ocorra nenhuma intervenção para conter esse problema, a quantidade pode triplicar até 2025, conforme relatório britânico divulgado pelo Foresight Future of the Sea Report. 

O Instituto Biopesca, que também realiza o monitoramento diário das praias de Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe, apesar de não contar com um balanço de quantos animais marinhos morreram em decorrência da ingestão de lixo, afirma que pelo menos 80% das tartarugas resgatadas, em especial a verde, apresentavam algum tipo de resíduo em seu organismo. O mesmo também foi observado pelo Instituto Argonauta, que tem atuação nas praias do Litoral Norte. 

Segundo a organização, sediada em Ubatuba, em 2016, dentre os animais marinhos necropsiados,  15 aves, 149 tartarugas e dois mamíferos tiveram interação com lixo. Já no ano passado, a presença de resíduos foi constatada em oito aves, 96 tartarugas e um mamífero. Já nos primeiros meses deste ano, 15 tartarugas que morreram também tiveram interação com o lixo.  

Conforme o Instituto Biopesca, mesmo nos casos em que não há óbito, esses resíduos também podem ser altamente prejudiciais, causando problemas como inflamação do estômago e intestino, perfuração de algum órgão, redução da imunidade, dificuldade de defecação e obstrução. 

“Acreditamos que a população está um pouco mais sensibilizada com relação ao descarte incorreto destes resíduos nas praias. No entanto, o problema dos lixos nos oceanos e mares não se atém apenas à faixa de areia e se estende a temas que devem ser analisados com maior profundidade, envolvendo questões sociais, principalmente”, comenta o médico-veterinário Rodrigo del Rio do Valle, coordenador do Biopesca. 

Segundo o veterinário, a mudança dos hábitos de consumo, por sua vez, é uma das grandes armas existentes para combater o problema.  “O modo de consumo da sociedade moderna ainda está baseado no uso de materiais produzidos para logo serem descartados, sem grande possibilidade de reciclagem ou reutilização. Diante do cenário atual, é difícil afirmar que, em curto prazo, teremos perspectivas positivas pela frente, que os impactos vão diminuir”. 

Outros perigos 

Além da mortandade da fauna marinha, os plásticos descartados irregularmente no oceano têm chamado a atenção de pesquisadores para um outro problema: a contaminação por meio do bisfenol A. 

“Esses plásticos liberam substâncias semelhantes ao hormônio feminino (estrógeno), o que provoca a feminização de peixes. Já estão nascendo mais peixes fêmeas do que machos”, afirma o biólogo Walter Barrela, professor do curso de Mestrado de Ecologia Marinha da Universidade Santa Cecília. 

Segundo o docente, boa parte dos resíduos que chegam às praias de Santos é despejada irregularmente nas áreas de mangue. 

“Temos feito uma análise deste lixo e constatamos que em quase sua totalidade trata-se de lixo doméstico que é descartado diariamente. E, quanto mais lixo na água, maior será a probabilidade de animais marinhos se alimentarem destes resíduos”. 

Assim como o veterinário do Instituto Biopesca, o biológo também defende uma mudança de hábitos por parte da população. 

“Nós não podemos colocar o plástico como vilão porque ele revolucionou a nossa vida. Mas precisamos repensar o consumo destes materiais. Não precisamos eliminar ele do mundo, mas desenvolver uma consciência maior a respeito do seu uso. É preciso bom senso”. 

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