Corpo de universitário agredido por seguranças é sepultado em Santos

Cerimônia ocorreu na Memorial Necrópole Ecumênica; Lucas Martins de Paula estava internado há 22 dias, em coma

30/07/2018 - 15:53 - Atualizado em 30/07/2018 - 19:01

Lucas era quartanista de Engenharia Elétrica
(Foto: Reprodução/Facebook)

Em meio a sentimentos de dor e revolta, familiares e amigos se despediram nesta segunda-feira (30) do universitário Lucas Martins de Paula, de 21 anos. O jovem, que morreu na noite de domingo (29), 22 dias depois de ter sido agredido por funcionários do bar e casa noturna Baccará, no Embaré, em Santos, foi velado e sepultado na Memorial Necrópole Ecumênica. 

Lucas estava internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) da Santa Casa de Santos. Durante os 22 dias que esteve hospitalizado, o rapaz passou por cirurgias para drenagem de hematoma intracraniano (coágulo de sangue no cérebro). 

No sábado (28), de acordo com a assessoria do hospital, a equipe médica da Santa Casa chegou a retirar a sedação que estava sendo aplicada ao rapaz, mas ele não respondia à mudança. No domingo (29), faleceu por volta das 19 horas. 

Na manhã desta segunda-feira, amparado por parentes, o pai do universitário, Isaías de Paula pediu justiça pela morte do filho. Ele esteve no Instituto Médico Legal (IML) para liberar o corpo. "Ele era meu amigo, meu filho, meu companheiro para tudo. Quero justiça, pelo amor de Deus. É difícil demais".

Prima do universitário conversou com a imprensa, em frente à Memorial (Foto: Irandy Ribas/AT)

A pedido da família, o velório do universitário foi reservado a familiares e amigos do estudante. Do lado de fora da Memorial, a prima do universitário, Andrielly Antunes, conversou com a imprensa. Ela pediu a responsabilização dos envolvidos. 

“Eles precisam ser responsabilizados e a sociedade precisa de uma resposta para que isso não aconteça com mais ninguém. A dor é muito grande, mas não dá para tirar a indignação, até a raiva disso tudo porque não foi uma doença, que foi ali acontecendo. [...] Não foi uma fatalidade, não foi um acidente. Alguém está causando essa dor na família toda”. 

Emocionada, Andrielly lembrou com carinho do universitário e da esperança da família para que o jovem deixasse o hospital.

“O Lucas era um menino de 21 anos, louco pela vida, pela família, extremamente amoroso, carinhoso, atencioso, prestativo, extremamente comprometido. [...] A gente sempre falava que era um dia após o outro, mas que era um dia após o outro para a recuperação dele. Cada dia de oração, o pedido era que tivesse essa cura dele e que ele pudesse seguir com a vida dele na normalidade. Isso era o que a família esperava”.

Velório do universitário é fechado a amigos e familiares (Foto: Irandy Ribas/AT)

Tio do universitário, Milton Alves, 54 anos, também clama por justiça. "É pesado e não é para menos, depois de uma covardia dessas. [...] Ele estava se divertindo como um jovem normal, da idade dele, e, de repente, teve a vida ceifada por um motivo desses, uma covardia dessas", lamentou. 

Ainda em conversa com a imprensa, o tio de Lucas lembrou com carinho do universitário. "Era um menino muito comportado, não tinha vício nenhum, um rapaz exemplar. [...] Não queremos que fique impune, porque não é a primeira morte ali, mas a pressa não adianta. A gente quer que paguem pelo que fizeram. A Justiça de Deus, a gente sabe que tarda, mas não falha, mas a dos homens é complicada". 

Primo do estudante quer que casa noturna
permaneça fechada (Foto: Bruno Guedes/AT)

Dor e revolta

Revoltado com o desfecho do caso, que culminou com a morte do universitário, Leandro Martins, que é primo de Lucas, afirmou que fará de tudo para que a casa, fechada após fiscalização da Prefeitura de Santos, não volte a reabrir as portas.

“Pode ter certeza que amanhã, aquela casa abrindo novamente, vou estar na porta, para boicotar aquela casa. Vou fazer de tudo para ninguém entrar lá”, afirmou.

Leandro se mostrou ainda revoltado com inverdades que estariam sendo repercutidas a respeito do universitário.

“Ele era um menino bom, de família, que nem bebe, mas tem muita gente falando que ele estava alcoolizado. [...] Ele não estava bêbado. Quem conhece ele jamais falaria isso do Lucas”.  

Confusão 

Quartanista de Engenharia Elétrica, Lucas foi agredido violentamente por seguranças da casa noturna após contestar o valor de sua comanda. O episódio ocorreu na noite do último dia 7. A divergência originou uma discussão e a casa estava lotada. Foi quando Lucas teria sido levado para fora do estabelecimento, carregado por seguranças pelo pescoço. Na rua, o rapaz foi espancado. 

Um dos seguranças, segundo apurado pela Reportagem, imobilizou Lucas, enquanto outro o nocauteou com um soco no rosto. O terceiro é o chefe dos seguranças, que presenciou a violência e nada fez para impedi-la.

Depois de ter sido espancado, Lucas desmaiou e seus amigos foram impedidos de se aproximar pelos seguranças. Socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), ele foi imediatamente levado para a UTI da Santa Casa, onde permaneceu em coma. 



Investigação

O episódio está sendo investigado pelo 3º DP de Santos. Três seguranças foram identificados com a ajuda de amigos como envolvidos no espancamento contra o universitário. Todos, mais do dono da casa noturna, foram indiciados por tentativa de homicídio.  

Casa noturna amanheceu com a fachada pichada nesta segunda-feira (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Agora, o defensor da família de Lucas, o advogado Armando de Mattos Filho espera que os envolvidos e o proprietário do Baccará sejam denunciados por homicídio qualificado

“A população está consternada. E nós não esperávamos que isso acontecesse, tampouco a família. Saímos da tentativa de homicídio e entendo que a polícia e o Ministério Público tomarão as providências para que eles respondam por homicídio qualificado, crime hediondo que pode chegar a 30 anos de prisão”. 

*Com informações de Bruno Guedes

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