Coral de afásicos emociona pelo trabalho e superação

Integrantes do grupo perderam a fala e passam por reabilitação com fonoaudiólogos da Unilus

14/12/2017 - 07:57 - Atualizado em 14/12/2017 - 08:15

Quando a apresentação do coral começou, alguns integrantes enxugaram lágrimas. Outros sorriram e dançaram. É que, para a maioria deles, a maior vitória do ano foi conseguir pronunciar uma palavra a mais no canto. Afinal, não era um coro comum. Cerca de 20 pessoas do Grupo de Afásicos se apresentaram no Coral Carinhoso, nesta quarta-feira (13), após ensaios com os alunos do curso de Fonoaudiologia do Centro Universitário Lusíada (Unilus). A iniciativa, no auditório da instituição, completou 20 anos.

A emoção também dominava o público, que filmava o coral cantando músicas como As Pastorinhas, Suíte do Pescador e Carinhoso.

Bem no meio do coro, estava Marlene de Souza Urbano, de 72 anos, a mais antiga integrante da equipe. Ela teve alguns acidentes vasculares cerebrais (AVC) e se lembra de como chegou à universidade, duas décadas atrás.

O que é afasia?

Afasia é a perda da linguagem decorrente de lesão cerebral que, na maior parte das vezes, ocorre do lado esquerdo do cérebro.

Os quadros de afasia instalam-se abruptamente, como consequência de lesões no cérebro provocadas por traumas ou acidentes vasculares cerebrais (AVC).

De uma hora para outra, o afásico perde a capacidade de compreender ou formular a linguagem. Deixa de falar e de entender o que dizem as pessoas ao redor. É como se estivesse ouvindo uma língua estrangeira, desconhecida. Ou, ao contrário, embora compreenda o que está sendo dito, não consegue fazer-se entender. (drauziovarella.com.br)

“Minha Nossa Senhora, meu Deus do céu! Eu não falava nada. Eu vinha de cadeira de rodas. Há 15 anos, mais ou menos, que consegui cantar. E Nossa Senhora! Como foi bom. Hoje canto até tomando banho: o-ooô, uô-ooô”, entoava ela.

Mais tímido e ao fundo, estava Belarmino de Oliveira, de 78 anos. Ele teve um AVC há quatro e considera as professoras uma bênção em sua vida.

“Eu nunca tinha cantado antes. Eu não era cantor. Inclusive, a minha voz já não era lá grande coisa mesmo antes do AVC. Mas aprendi a gostar dela, apesar da minha pequena dificuldade de articulação”, contou.

Música

A coordenadora do curso de Fonoaudiologia da Unilus, Heline Machado, explica que o curso existe desde 1990, mas só anos depois foi montado um trabalho de atendimento e recuperação a pacientes que tiveram AVC. Com isso, foi proposto um trabalho com música, que completou 20 anos e integra disciplinas de Fonoaudiologia. Os alunos do 3º ano ajudam nos ensaios do coral.

Monica Girotto Toledo de Castro, professora responsável, conta como é possível que os cerca de 20 pacientes, com idade entre 40 e mais de 80 anos, consigam cantar, mesmo com dificuldade de pronunciar as palavras.

“Há uma área do cérebro que não é a mesma usada quando a gente fala. E essa área responde bem quando se canta, porque o canto é repetitivo. Como a gente repete muito as músicas durante todo o ano, se estimula o cérebro, e o paciente começa a articular melhor”, ensina.

Não só participantes e a plateia, formada principalmente por familiares, se emocionaram. Os alunos também se envolveram e foram às lágrimas, como Camila Rodrigues Franco. “É uma lição de vida tremenda, porque, apesar de tudo o que eles passaram, estão aqui. Muitos se emocionaram quando contaram para a gente o que mudou na vida, antes e depois do AVC. Mas se emocionam mais ainda quando, na terapia individual, conseguem reproduzir uma palavra que antes não conseguiam. Uma palavra é uma vitória”, lembra.

Nany Urbano, de 42 anos, auxiliar de enfermagem, cantou junto, aplaudiu, filmou, chorou. Estava na plateia pela primeira vez. É filha de Marlene.

“Sou da área da saúde e sei o que eles passam. Minha emoção é por duas coisas: pela disposição da equipe e porque perdi meu pai recentemente. Sem eu saber, eles cantaram músicas que eu cantava para o meu pai. Não imaginei que minha mãe ia conseguir”, declarou ela, que aplaudiu de pé.

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