Conheça a história do encontro da imagem da padroeira do Brasil

Imagem da santa em dois pedaços foi localizada por pescadores no Rio Paraíba

12/10/2017 - 11:02 - Atualizado em 12/10/2017 - 11:28

Destino turístico religioso é um dos mais procurados do País (Foto: Rogério Soares/AT)

Há mais de 300 anos, alguém lançou uma imagem em terracota de Nossa Senhora da Conceição, no Rio Paraíba do Sul, na antiga Vila de Guaratinguetá. Ao tomar essa atitude, a pessoa não imaginava que lançava a pedra fundamental da fé em Nossa Senhora Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.

Os motivos daquele ato nunca vieram à tona, mas a história de como a imagem foi encontrada e dos milagres que se sucederam é contada há três séculos.

Em algum dia de outubro de 1717, o então governador de São Paulo, dom Pedro de Almeida, o poderoso conde de Assumar, viajava à Vila Rica (atual Ouro Preto), onde assumiria o cargo de governador da Capitania das Minas Gerais.

Ele seguia pela estrada do Vale do Paraíba e parou para pernoitar na Vila de Guaratinguetá. A fim de ajudar com um banquete que seria oferecido ao conde, três pescadores, João Alves, Domingos Garcia e Felipe Pedroso, saíram com a missão de trazer um grande número de peixes.

Ao lançarem a rede ao Rio Paraíba, ela voltou vazia. Foram várias tentativas assim, até que João Alves puxou um pequeno objeto, junto com alguns peixes. Era o corpo de uma santa, sem a cabeça. Os pescadores concordaram que se tratava de Nossa Senhora da Conceição.

Navegaram mais um pouco e, ao lançarem novamente a rede, puxaram outro pequeno objeto, com mais peixes. Era a cabeça da santa, que se encaixou perfeitamente ao corpo. Com a escultura depositada no barco, os pescadores lançaram a rede mais uma vez e ela voltou repleta de peixes. Assim, os três testemunharam o primeiro milagre atribuído à imagem pescada das águas

Imagem tombada está exposta no Santuário
de Aparecida (Foto: Rogério Soares/AT)

Construção da fé

Felipe Pedroso levou a escultura para casa, perto de onde foi encontrada. Seu filho construiu um altar rústico, onde a família passou a rezar o terço. Em 1745, foi erguida a primeira capela, no alto do Morro dos Coqueiros, que se tornou local de peregrinação.

Por ter aparecido do fundo das águas, os fiéis se referiam à imagem como Nossa Senhora Aparecida. Os relatos de outros milagres e a afluência cada vez maior de fiéis à capela fizeram com que fosse criada uma freguesia de Guaratinguetá, batizada de Capela de Aparecida.

Em 1888, a santa e o povoado ganharam uma igreja maior, conhecida, hoje, como Basílica Velha ou Matriz. Quarenta anos mais tarde, a Terra da Padroeira emancipou-se de Guaratinguetá.

Em 16 de julho de 1930, papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida rainha e padroeira do Brasil, em lembrança do encontro da imagem no rio. A cidade de Aparecida seguiu com sua história de fé e, em 1955, deu início à construção do Santuário Nacional, onde a imagem original da Virgem, encontrada no rio, pode ser vista no interior da Basílica, em um retábulo de 37 metros de altura, no térreo.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em sua assembleia geral de 1953, determinou que a padroeira fosse celebrada no dia 12 de outubro, por ser a data do descobrimento da América e da comemoração do Dia das Crianças, além, claro, por ser outubro o mês do encontro da imagem no Rio Paraíba. 

A imagem

A imagem original de Nossa Senhora Aparecida, confeccionada em terracota (barro cozido), sofreu um ataque no dia 16 de maio de 1978, quando foi quebrada em mais de 200 pedaços (um jovem transtornado a teria arremessado ao chão). Ela foi levada ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde a artista plástica Maria Helena Chartuni começou o trabalho de reconstituição. Neste mesmo ano, a imagem foi restaurada e levada de volta ao Santuário Nacional de Aparecida.

Em 2012, a imagem foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). Até hoje, continua exposta no nicho do Santuário Nacional de Aparecida.

Devoção 

A fé católica é uma das maiores expressões da alma brasileira e sempre teve lugar de destaque no seio das comunidades, vilas ou cidades. Antes dos preparativos para o Jubileu dos 300 anos, A Tribuna visitou o Santuário Nacional de Aparecida e conheceu algumas das histórias de devotos da santa. 

Casais de Espírito Santo e Minas Gerais apresentaram bebês à padroeira (Foto: Rogério Soares/AT)

Bebês abençoados

Os casais Maria Marta Farias e Julio Cesar de Souza Almeida, de Vitória, Espírito Santo, e Cleonice de Souza Silva e Rafael José da Cruz, de Vieiras, Minas Gerais, encararam mais de dez horas de estrada para apresentar seus bebês de colo à Nossa Senhora Aparecida. Eles se conheceram na visita ao Santuário.

“Sofri quatro abortos e estava desistindo de ter filhos. Fui a uma missa em que estava a imagem peregrina dos 300 anos. Fiz uma promessa que, se conseguisse ter bebê, o traria aqui para apresentar a Nossa Senhora. Isso foi em junho de 2016. No mês seguinte, engravidei e meu filho nasceu em maio, mês de Nossa Senhora”, contou Maria Marta, de 31 anos, mãe de Bento, de quatro meses.

Cleonice trazia Heloá, de apenas três meses, nos braços. “A gente estava planejando ter filhos, mas demorou um pouquinho e tomei um medicamento quando já estava grávida e não sabia. Esse remédio (não quis revelar o nome) atrapalha a formação do bebê. Então, fiz a promessa que, se meu bebê nascesse saudável, o traria aqui”, contou Cleonice, de 25 anos. 

Acompanhada de três gerações da família, Maria da Glória, de 78 anos, visitou o santuário
(Foto: Rogério Soares/AT) 

Quatro gerações 

Maria da Glória de Sousa tem 78 anos. Com as duas pernas enfaixadas, ela percorria o Santuário em uma cadeira de rodas, acompanhada de três gerações da família: a filha Juliana Cristina, o neto Wellington, a esposa dele, Josi, e o bisneto Caleb.

“Eu venho aqui desde que colocaram a primeira pedra (em 1955). Quando comecei a vir ao Santuário, morava em Piedade do Rio Grande, Minas Gerais. Eu vinha em romaria, de caminhão, de kombi, de ônibus. Eu queria engravidar e não conseguia. Hoje, tenho cinco filhos, dez netos, 14 bisnetos e uma tataraneta”. 

Ciclistas viajaram por sete dias até chegar à Aparecida (Foto: Rogério Soares/AT)

Ciclista

Mais de 400 quilômetros de bicicleta, pelo Caminho da Fé, saindo de Tambaú. Sete dias de viagem. O casal Márcia e Reinaldo Malta faz esse trajeto há dez anos. Na tarde do dia 22 de setembro, pegaram o décimo certificado de peregrinos na secretaria do Santuário Nacional. “O objetivo é religioso e esportivo. Viemos agradecer as graças e curtir as belezas do caminho, que tem muitas opções de pouso e pessoas que nos recebem muito bem”, justificou Márcia. 

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